28 fevereiro 2015

Nha morninha


Pierre Aderne & Sara Tavares


 


Ao lembrar de você
E tentar não sonhar
O sonho não atende
Não me entende a falar


 


Ao lembrar de você


E tentar acordar
O sonho me prende
E me ensina a esperar
O sonho me acende
Pra eu poder te guiar

Ao lembrar de você
A tentar me esquecer
Com seus olhos abertos
Pra esse sonho não ver

Ao lembrar de você
Quantas vezes duvido
Se no meio da noite
Não lhe acordo o vestido
Pra dançar essa morna
Que eu havia perdido

Oi! Oi! Vem…

Serenata na boca de coração
É cadencia di morna mansinho
Ta sussurra baixinho
Té tchiga perto
Cola nha ouvido
Um sabor perfumado

Ao lembrar de você
Quantas vezes duvido
Se no meio da noite
Não lhe acordo o vestido
Pra dançar essa morna
Que eu havia perdido

Quem tem medo da cultura?

guilherme doliveira martins.jpg


 


E deixei-me levar nesta Corrente que há tantos anos me chamava, me arrulhava como ruído de cascata e de mergulho.


 


Quem tem medo da cultura? - perguntou Guilherme d'Oliveira Martins ao auditório do Cine-Teatro Garrett, totalmente repleto. Lá de cima do galinheiro, completamente colada às costas da cadeira tal a vertigem das alturas, olhei para a figura de contornos pouco precisos e permiti que as palavras ecoassem e me relaxassem da minha fobia.


 


"É quem tem medo da economia" - respondeu o próprio orador. E discorreu sobre a sociedade do saber e do rigor, das avaliações e das igualdades, do desenvolvimento e do conhecimento, das humanidades e das ciências, das diferenças e da tolerância, da educação e da língua, da mais extraordinária língua do mundo, citando Luísa Dacosta entre muitos outros - a única língua que é capaz de incluir o tu no eu - amar-te-ei.


 


Guilherme d'Oliveira Martins é um homem de cultura e da cultura, enquanto entendermos a palavra cultura com a amálgama de uma comunidade, naquilo que a faz amálgama e naquilo que a transforma em comunidade - o outro como a outra metade de nós, o civismo, o serviço público, o uso do conhecimento, do património como alavanca para o futuro, sustentável em direitos humanos e em termos materiais. Mais uma citação de Luísa Dacosta, muito presente nestas Correntes d'Escrita - a língua portuguesa é das únicas, se não mesmo a única em que existem os verbos estar e ser - "amar e ser amada, na passagem do estar ao ser".


 


Alertou para os perigos do facilitismo, da mediocridade e do imediatismo, essa moda da modernidade apressada e superficial que se atém às frases-feitas e aos pensamentos fast thought. E conclui:


 


"(...) eis porque devemos dar à sociedade civil um papel mais ativo nos valores, se soubermos contrapor uma ética de cidadania, aliada à qualidade na educação, formação, ciência e cultura. A defesa das humanidades tem de corresponder à recusa da facilidade e do novo-riquismo e ao apelo à vontade e à criação. Como poderemos defender a cultura que nos foi legada sem mobilização dos cidadãos e sem democratização do Estado? Medo da cultura é, afinal, medo da liberdade e da democracia”.


 


Encafuada entre a vertigem e a indizível satisfação ao ouvir alguém afirmar tão claramente que devemos caminhar no sentido inverso ao da arenga contabilística e pseudocientífica desta pseudo elite europeia, não consegui ultrapassar a timidez de lhe perguntar como enquadra ele o fenómeno do desaparecimento do emprego como parte integrante da cidadania, da menorização do valor da participação e contributo cívicos através do serviço ao outro com o trabalho, nesta nossa sociedade que se esquece que a integração também se enraíza na sensação e capacidade de ser útil e necessário ao bem comum.


 


É tão bom sentir que alguém nos acorda. Era tão importante que acordássemos.

Dos detritos aproveitados pela ausência de excedentes

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Caius Detritus


 


É claro que o espalhafato que se está a fazer em relação às declarações de António Costa, numa cerimónia que, de outra forma, não teria tido provavelmente mais que umas linhas de fundo de página num jornal, não tem a ver especificamente com o que António Costa disse mas com o que António Costa (e o PS) não diz e deveria dizer.


 


A falta de iniciativa política, sejam quais forem os motivos, faz com que os pormenores mas disparatados sirvam para desviar as atenções do inexcedível desgoverno desta direita que nos governa (António Costa elogiou os chineses e a sua capacidade de permanecer num país em grande depressão económica; a diferença foi interpretada por Nuno Melo como para melhor, porque convém ao Nuno Melo que assim seja). Estamos todos à espera das ideias do PS e de António Costa, sobre os mais diversos assuntos e, como político que é, António Costa deve saber que a melhor atitude é ser ele próprio a lançar uma agenda de discussão. Por muito que se compreendam as cautelas e o sentido de Estado, que até são de elogiar, pois promessas miríficas e futuros risonhos já todos conhecemos, o PS e António Costa estão a perder o timing e estão a deixar o palco para os Caius Detritus que se multiplicam e aguardam ao canto de cada sala, escrevinhando palavras separadas ou não do contexto para chicana.


 


António Costa não tem que se queixar - por muito más que sejam, ele sabe que são estas as regras de um jogo muito viciado e muito sujo. A alternativa é ser ele a marcar a discussão com as ideias que vai lançando, sem esperar complacência da parte de uma comunicação social inculta e trivial, para quem as discussões semânticas são muito mais importantes que os conteúdos. E por isso tem que avançar, explicar, perguntar, não usando sms a tentar minimizar males interpretativos, mas a usar a tribuna de todas as maneiras que puder e souber com as suas propostas, o seu rigor, a sua exigência e a sua clareza - em todas as áreas. E não faz mal nenhum se elogiar algumas medidas do governo - rezemos para que, em 4 anos, alguma medida tenha sido positiva - mas para o dizer exactamente nesse sentido e nessa medida, com o tal sentido de Estado de que se apruma, e bem.


 


Enquanto o PS não impuser a sua agenda política continuaremos em banho Maria e a perder esperança, a perder eleitores, a perder o sentido da democracia. Que não se desculpe e não se justifique, que nos interpele e nos enfrente, que nos entusiasme e nos faça pensar.

27 fevereiro 2015

Comboio

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Comboios e viagens, livros e histórias, o doce prazer do lazer, fortuito sabor inocente mas perverso saber de estar só, entre cidades, uma espreitadela ao rio que se atravessa, casas ao fundo numa paisagem amodorrada e ligeiramente iluminada, veloz como o tempo que nos repassa e nos gasta.


 


Pequena suspensão do universo.


 


Murmúrios e respirações, olhares perdidos ou focados, a humanidade que se desloca fisicamente parada, em sintonia de tantas vidas diferentes quantas as liberdades unas e dilatadas, patrimónios irrepetíveis, desconhecimentos e desmemórias que não chegam a ser notáveis. Nada se nota nestas genialidades pequenas mas que nos aconchegam o ego e a mente, que nos libertam do cansaço da monotonia e das crises, todas, pessoais e intransmissíveis mas tão iguais às do todo colectivo.

22 fevereiro 2015

Um dia como os outros (152)

UmDiaComoOsOutros.jpeg


 (...) Terceiro, e muito importante para o futuro, é que o governo grego terá de dizer que reformas vai fazer para melhorar a situação do país. E, aqui, a direita acha sempre que sabe quais são as reformas: destruir os serviços públicos, cortar salários e precarizar trabalhadores, privatizar. Mas a esquerda tem que ter outra visão das reformas. Por exemplo, no caso da Grécia, é claro que é importante combater a enorme evasão fiscal, tal como é necessário promover a eficiência do Estado e combater a corrupção. E o governo grego quer fazer isso. E é de esquerda fazer isso. Parte importante das próximas batalhas está mesmo aí: promover uma ideia alternativa de reformas estruturais, para acabar com o mito de que as reforma da direita é que fazem bem à economia e aos povos - porque não fazem, como vemos. (...)


 


Porfírio Silva

21 fevereiro 2015

Das razões demissionárias

A política desta direita que nos governa tem-se pautado pelo desinvestimento no serviço público, com cortes cegos na despesa do Estado, o que se traduziu numa redução significativa dos quadros mais qualificados, depauperamento dos equipamentos, das instalações, das condições de atendimento e da qualidade dos serviços, diminuição das remunerações, das pensões e dos subsídios, congelamento e destruição de carreiras.


 


Quando se fala em reformas estruturais deve entender-se despedimento de funcionários, diminuição dos apoios sociais e do valor do trabalho. Na saúde, e por muito que eu respeite o trabalho de Paulo Macedo que tem tentado gerir a penúria o melhor possível, o Ministro cumpre as orientações do seu governo e essas têm sido desinvestir no SNS e apostar no sector privado - a saída em massa de profissionais dos hospitais públicos para os privados, o congelamento das contratações e da renovação de quadros, a não substituição de equipamentos obsoletos e em fim de vida, tudo se conjuga para que se esvazie o sector público tornando-o residual para quem não tenha alternativas.


 


Os cuidados primários continuam a não ser prioritários na preocupação dos governantes, retirou-se autonomia aos Conselhos de Administração, a reorganização hospitalar marca passo e, quando avança, é uma autêntica desorganização - agrupam-se hospitais mas não se estuda a manutenção de equipas, quer reduzir-se custos mas passeiam-se os doentes, os medicamentos, os equipamentos de hospital para hospital, num total desrespeito pelas boas práticas e desperdício de recursos.


 


Por isso não me espanta que haja notícias de atrasos no atendimento, cirurgias adiadas, consultas em espera, filas intermináveis, falta de condições, falta de medicamentos, médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares exaustos e desmotivados. Mas convém que se não se confundam os problemas suscitados pelo torno político e financeiro que asfixia o SNS com a falta de liderança e incapacidade de perceber e corporizar os anseios dos profissionais, independentemente dos constrangimentos sistémicos do SNS. Se, de facto, as demissões no Hospital Fernando Fonseca e no Hospital de Santa Maria são resultado da política actual, não se entende como é que os próprios Conselhos de Administração "se demitem" de pedir a demissão, já que assumem sempre uma enorme solidariedade para com os corpos clínicos, como se não lhes coubesse a responsabilidade da gestão dos hospitais.


 


Cada vez mais se percebe mais como é apenas o recurso à comunicação social que consegue pressionar a preocupação pública de alguns protagonistas que, mesmo assim e inacreditavelmente, tentam desvalorizar a gravidade das situações. Houvesse seriedade, outras seriam as demissões.

Das negociações políticas

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Jornal de Notícias


 


O governo grego mostrou que é possível ter uma voz diferente na Europa, defender os interesses do seu povo sem ter medo de enfrentar dificuldades e problemas, de ser um parceiro de corpo inteiro numa União que se pretende de solidariedade e é apenas de subserviência a alguns países, de assumir e respeitar o mandato eleitoral e democrático que lhe foi conferido.


 


É muito interessante ver as notícias sobre o princípio de acordo alcançado através do Observador, que aproveita para demonstrar que a Grécia recuou em toda a linha e que Varoufakis e Tsipras acabaram por ceder em tudo.


 


Mas lendo o texto do acordo não é essa a minha conclusão. Embora sem conseguir fazer vingar as suas propostas, o governo grego fez o que há muito se esperava que algum governo fizesse - negociação e confronto políticos, sem complexos nem atitudes invertebradas. Ao contrário da opinião de Francisco Seixas da Costa (ou não?), penso que a ofensiva grega no plano internacional foi bem feita e criou condições para que houvesse cedências de parte a parte.


 


A verdade é que estamos a assistir a declarações de volte-face dos mais improváveis protagonistas, como por exemplo de Jean-Claude Juncker, que age como se tivesse acabado de chegar à União Europeia. O governo português foi igual a si próprio, perdido no seu labirinto e mais fundamentalista que os extremistas, com posições contrárias às que seriam de esperar na defesa dos interesses de Portugal. Paulo Portas esqueceu-se que pertencia a um governo que se esforçou ao máximo pelo pedido de resgate e aplaudiu o querer ir além da Troika, colando-se às declarações de Junker.


 


Continuemos a aguardar os acontecimentos. Parabéns aos gregos e ao governo grego pela pedrada no charco. Nem que seja só por isso, todos saímos a ganhar.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...