12 julho 2014

Curtas 2

É na terra que o corpo acaba, ou que as cinzas se derramam pela acção da gravidade.


 


E no entanto olhamos para cima, perdidos entre as nuvens de um céu em que crentes ou incréus, instintivamente ligamos à eternidade.

Curtas 1

Na ficção o amor descreve ciclos, começa e acaba de forma avassaladora, com o encontro ou com a separação dos amantes. Vivem um do outro, vivem um para o outro, não vivem um sem o outro. Há redenção e morte, paixão e ventura.


 


Na vida real a morte de um amante arrasta a solidão do outro, dia a dia, hora a hora, até que a solidão seja um hábito. A separação redunda em esquecimento ou amargura, sem negligência, feridas abertas ou lágrimas dolorosas, apenas a nitidez da rotina de sobreviver, ou de encontrar outro alguém com quem se vai partilhando o que resta da existência.


 


O que mais assusta é a banalidade, a quotidiana vivência das actividades mais ou menos reduzida ao primitivo e instintivo acto de manter o funcionamento do corpo.

02 julho 2014

Quando




Arpad Szenes: Sophia


Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen

29 junho 2014

Há uma música do povo

E agora mais este (desfio a colocar música e poesia no facebook - a mim calhou-me a letra P, a pedido de uma amiga):


 





Mariza


Fernando Pessoa


Mário Pacheco


 


 


Há uma música do povo,


Nem sei dizer se é um fado...


Que ouvindo-a há um ritmo novo


No ser que tenho guardado...


 


Ouvindo-a sou quem seria


Se desejar fosse ser...


É uma simples melodia


Das que se aprendem a viver...


 


E ouço-a embalado e sozinho.


E essa mesmo que eu quis...


Perdi a fé e o caminho...


Quem não fui é que é feliz.


 


Mas é tão consoladora


A vaga e triste canção...


Que a minha alma já não chora


Nem eu tenho coração...


 


Sou uma emoção estrangeira,


Um eco de sonho ido...


Canto de qualquer maneira


E acabo com um sentido!

Gaivota

A este desafio (colocar poesia e música no facebook - pediram-me a letra A), respondo com:


 



Amália


Alexandre O'Neil & Alain Oulman


 


 


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Dos apoios crescentes e das descolagens


Henrique Monteiro


 


Estes apoios crescentes a Seguro que conduzirão à grande vitória nas primárias soam-me estranhamente familiares, exactamente como a grande descolagem da candidatura de Mário Soares nas Presidenciais de 2006.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...