
Como todos sentem e sabem, estamos num bloqueio político, económico e social. O país está exausto, descrente, apático e desesperançado. Ninguém acredita no que ouve, no que lê, no que lhe dizem e muito menos no que prometem. Não é só a classe política que está descredibilizada. São os jornalistas, os juízes, os advogados, os economistas. Muitas outras corporações suscitam desconfiança e vozes iradas, mas talvez menos do que as nomeadas.
As Instituições do país, e falo no Presidente da República, no Governo, no Parlamento e nos tribunais, mostram, a todo o momento, que estão desligadas da realidade, que não respondem aos problemas e aos anseios das populações. Os partidos políticos não se renovam e não se reformam, contribuindo para a provável deriva totalitária de um populismo crescente, de que eles próprios oportunisticamente se aproveitam.
É absolutamente indispensável que haja uma autêntica revolta interior, que os cidadãos, dentro das suas estruturas representativas ou criando outras alternativas, mudem o curso do nosso destino. Não se pode continuar a aguardar que qualquer coisa aconteça. Dentro do sistema democrático a alternativa é protagonizada por eleições.
Mas para que se possa escolher é necessário que se definam as alternativas. Não tenho nada contra a ideia de revisão Constitucional ou de reformar o Estado; a Constituição já foi revista bastantes vezes e as organizações devem ser reformadas. No entanto, com excepção daquilo a que este governo chama reforma do Estado - nada mais que a tentativa de uma legitimação política com o arrasto do PS para o desmantelamento dos serviços públicos que ainda existem, e para a transformação do estado social em assistencialismo de estado, mínimo e caritativo - nada se sabe sobre o que pensam os líderes da oposição ou a sociedade civil sobre o assunto.
Ouve-se dizer que nunca houve tanto consenso na sociedade como agora, sobre educação, saúde, segurança social, citando-se os nomes de Bagão Félix, Vieira da Silva, Correia de Campos, Luís Filipe Pereira, David Justino, Maria de Lurdes Rodrigues, Manuela Ferreira Leite, Teixeira dos Santos. Não sei se o que precisamos é de consensos alargados ou de rupturas extensas, mas seguramente de ideias claras e debates abertos sobre o essencial, porque o tempo torna-se curto para reduzir o enorme desperdício de recursos, humanos e materiais, com que se têm gasto as populações.
São necessários novos programas ideológicos, assumir o que se pensa e o que se quer para a organização social, o desenvolvimento económico, a integração no mundo, europeu ou qualquer outro. São necessários novos protagonistas, figuras que corporizem e galvanizem a sociedade, que lhes dêem esperança e convicção.
É absolutamente essencial que se coloquem em causa os dogmas políticos que nos abafam o pensamento, como a inevitabilidade da crise e do empobrecimento, a inevitabilidade da pertença a esta Europa, da insustentabilidade dos serviços públicos, da desigualdade. É absolutamente essencial que se entenda que a salvaguarda do princípio de viver em democracia e liberdade está dependente de novos contratos sociais.
Para isso estou hoje convencida que é indispensável a convocação de eleições. Não me parece possível que alternativas, consensos ou negociações internacionais possam existir sem que os cidadãos compreendam o que os pode esperar e decidam o que querem esperar.
Os principais partidos políticos insistem em ser parte do problema e não da solução. Mas esta passa obrigatoriamente por eles (convém que quem fala de esquerdas não se esqueça que, mais importante que a lateralidade é o respeito pela democracia). Aguarda-se que assumam a responsabilidade de explicar o que querem do Estado, o que consideram serviço público, o que entendem por estado social, o que querem da defesa e segurança, como entendem a distribuição dos poderes, como querem alterar a Constituição, como entendem a formação, o emprego, o investimento, a reorganização territorial, o repovoamento do interior, a inversão do envelhecimento demográfico, a política fiscal, a reforma do sistema de justiça.
Precisamos urgentemente de criatividade, empenho e voluntarismo.
Precisamos urgentemente de mudar - vamos a votos.