11 julho 2013

Mantendo o debate aceso

 


Em reposta a um atento e amável comentador, e a algumas das perguntas que a mim própria faço:



  1. Cavaco Silva declara que este governo está na plenitude das suas funções – ignorou olimpicamente o ultimato que Passos Coelho e Paulo Portas lhe fizerem, num desrespeito total pela sua própria avaliação, aquando do comunicado ao País em que apresentaram a remodelação governamental, como um facto consumado. Portanto Paulo Portas continua como MNE e ME.

  2. Cavaco Silva não pede nem sugere um governo com o PS – o que pretende é que haja um acordo entre PS, PSD e CDS, os partidos que assinaram o memorando, para que haja o compromisso em cumprirem o ajustamento até ao fim da assistência financeira.

  3. A inclusão do PCP e do BE neste acordo era absolutamente supérflua e disparatada, visto que se recusaram a subscrevê-lo.

  4. Cavaco Silva, na prática, decretou eleições antecipadas só que, em vez de o serem em Setembro ou Outubro serão a partir de Junho de 2014, num calendário acordado pelos partidos.

  5. Se o PSD e/ou o CDS não quiserem cumprir este acordo, o primeiro-ministro tem a opção de apresentar a demissão do governo.

  6. Se o PS não quiser cumprir este acordo, tem a opção de o recusar.

  7. Na realidade nenhum destes partidos quer o ónus de não aceitar o repto presidencial, pois temem ficar, aos olhos dos eleitores, com a responsabilidade de precipitarem uma confusão ainda mais generalizada.

  8. Podemos concordar ou discordar desta posição do Presidente, mas não podemos dizer que não é democrática ou inconforme com a Constituição, porque é.

  9. É tempo de todos os intervenientes assumirem as suas responsabilidades – O PSD e o CDS, os responsáveis directos por esta crise política, recusarem-se a tentar uma base de trabalho com o PS; o PS a responsabilidade de querer as eleições antecipadas, mimetizando aquilo que o PSD e o CDS fizeram na altura da aprovação do PEC IV. Qual a alternativa credível que o PS tem para a situação do país? A renegociação da dívida não precisará de um acordo com o PSD e com o CDS?

  10. Os únicos partidos que estão verdadeiramente interessados em eleições são o BE e o PCP, para os quais é previsível um aumento de votação relativamente às últimas eleições. O problema é que não se percebe o que vão fazer com esses votos.

  11. O aumento das abstenções e dos votos brancos e nulos espelham o impasse e a descrença dos cidadãos em relação à solução eleitoral imediata (a acreditar nas sondagens, é claro).

  12. António José Seguro vê-se como Passos Coelho em 2011 – ou há eleições no país, já, ou no PS, rapidamente.

  13. Em relação ao Presidente – não podemos criticá-lo porque se cola ao governo, porque se abstêm de intervir, por se esquecer da sua função e criticá-lo quando decide exercer, finalmente, o seu papel. Arriscou-se, ainda bem, é por isso que foi eleito pelos portugueses – para interpretar a situação, decidir e agir.


É altura de caírem as máscaras e de acabarmos com as demagogias e os populismos – haverá eleições antecipadas e há que tomar consciência de que as flores da luta partidária neste momento são os cardos com que o país se confronta. Que todos se olhem e se perguntem qual é a melhor solução para o país. Não gosto de salvações nacionais nem de governos ou criaturas heróicas. A irresponsabilidade e a brincadeira têm rostos humanos, assim como o compromisso e a negociação adulta e dolorosa. Passamos a vida a falar de estadistas - que venham eles.


 


Não gosto deste Presidente, tenho da sua actuação a pior das avaliações, mas penso que, desta vez, fez o que devia. Que os directórios partidários façam o mesmo e enfrentem as consequências. O povo julgará quem teve e não teve razão.


 


A democracia não se esgota nas eleições – não é o que estão sempre a lembrar?


 

Das ondas de choque

 


Perfilam-se os novos protagonistas... Ainda bem. É preciso que algo mude. Rapidamente.


 

10 julho 2013

E ao quarto dia...

 



 


E ao quarto dia Cavaco Silva falou. Finalmente teve uma intervenção importante e significativa.


 


A sua decisão foi, digamos assim, salomónica. Por um lado, não quer eleições agora pois considera que será um descalabro no que diz respeito aos mercados e à troika. Por outro lado não aceita a remodelação governamental e assume que este é um quadro parlamentar a prazo e que, portanto, terá que haver eleições antecipadas.


 


A ideia de chamar os três partidos que assinaram o memorando para um compromisso que possibilite o seu cumprimento, pelo menos uma base mínima de acordo até ao fim do programa de assistência, é uma forma de não deixar o PS descolar do próprio memorando e de obrigar o PSD e o CDS a ceder no fundamentalismo com que ministra o seu muito particular entendimento do mesmo. Também acredito que um compromisso entre PS, PSD e CDS poderão dar mais força negocial a Portugal perante os nossos credores.


 


Penso que o PS pode aproveitar esta oportunidade para esclarecer o que considera possível cumprir e de que forma, revelando quais as medidas concretas que propõe em alternativa às desta maioria.


 


Penso que temos todos a noção do impasse existente e da incógnita perante a falta de uma real alternativa ao governo. António José Seguro (que deve estar sem saber o que fazer), apesar de ter já defendido eleições já, pode perfeitamente, com a certeza da realização de eleições em Junho/2014, fazer um acordo que providencie um governo minimamente estável até à saída da troika (é também uma oportunidade para o PS fazer uma revolução interna, para que possamos começar a vislumbrar uma luz ao fundo do túnel).


 


Para variar acho que o Presidente fez bem, devolvendo a responsabilidade da resolução do governo aos partidos políticos e ao Parlamento. As declarações dos líderes partidários foram as esperadas. A lembrança de Alberto Martins de incluir os outros partidos políticos com assento parlamentar não faz sentido, visto que PCP e BE não quiseram discutir o memorando e não o assinaram.


 


Aguardemos portanto os brainstorming dos directórios partidários. A crise segue dentro de momentos.


 

09 julho 2013

Um dia como os outros (129)

 



Sou dos raros jornalistas que não disseram na semana passada: "Uma coisa é certa, Portas não pode voltar atrás." Aqui entre nós, a palavra "irrevogável" também me fez supor que ele não voltaria atrás. Mas como estive de férias, safei-me do embaraço público e geral dos meus colegas. Forte desse meu involuntário sucesso, permito-me dar uma lição: na política portuguesa, nunca se diga "não pode". Pode, tudo pode. Em Portugal, Cavaco pode ser Presidente, Passos pode ser primeiro-ministro e Seguro pode ser chefe da oposição. Se isso pode, como não aceitar as mais loucas bizarrias? Até digo mais, essa tempestade perfeita - Cavaco, Presidente, Passos, primeiro-ministro e Seguro, chefe da oposição - não só permite como torna desejável que os políticos portugueses se contradigam e façam o irrevogável vogar para o ponto de partida. Há nisso esbracejar, grito sôfrego, vontade de fugir do marasmo. Tudo melhor do que a angústia de termos Cavaco, Presidente, Passos, primeiro-ministro e Seguro, chefe da oposição. À falta de soluções sólidas, venham, ao menos, essas pequenas provas de vida. Olhem como a simples contradição de Paulo Portas nos levou a um governo um poucochinho melhor do que o anterior... "Levou a..."?! Então já é definitivo, Cavaco aceitou essa solução? Claro que já. Era justamente isso que eu vos estava a dizer. Ele é nada, um dos três nadas deste país. As hesitações que finge são só para o autorretrato com que se ilude.


 


Ferreira Fernandes


 

Da humilhação

 


Na Europa poderia haver algum pudor, com abstenção de comentários, felicitações e considerações sobre o governo de um país soberano. Toda esta falta de respeito de quem se assume como dono e senhor dará mau resultado, mais tarde ou mais cedo. É degradante a desfaçatez com que se humilham os povos, com que se desdenha da democracia, com que se descarta a mais elementar centelha de bom senso.


 

08 julho 2013

All of me

 



Seymour Simons & Gerald Marks


canta Billie Holliday


 


You took my kisses and all my love


You taught me how to care


Am I to be just remnant of a one side love affair


 


All you took


I gladly gave


There is nothing left for me to save


 


All of me


Why not take all of me


Can't you see


I'm no good without you


Take my lips


I want to loose them


Take my arms


I'll never use them


Your goodbye left me with eyes that cry


How can I go on dear without you


You took the part that once was my heart


So why not take all of me


 

Sing, sing, sing

 



Benny Goodman

 

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...