Em reposta a um atento e amável comentador, e a algumas das perguntas que a mim própria faço:
- Cavaco Silva declara que este governo está na plenitude das suas funções – ignorou olimpicamente o ultimato que Passos Coelho e Paulo Portas lhe fizerem, num desrespeito total pela sua própria avaliação, aquando do comunicado ao País em que apresentaram a remodelação governamental, como um facto consumado. Portanto Paulo Portas continua como MNE e ME.
- Cavaco Silva não pede nem sugere um governo com o PS – o que pretende é que haja um acordo entre PS, PSD e CDS, os partidos que assinaram o memorando, para que haja o compromisso em cumprirem o ajustamento até ao fim da assistência financeira.
- A inclusão do PCP e do BE neste acordo era absolutamente supérflua e disparatada, visto que se recusaram a subscrevê-lo.
- Cavaco Silva, na prática, decretou eleições antecipadas só que, em vez de o serem em Setembro ou Outubro serão a partir de Junho de 2014, num calendário acordado pelos partidos.
- Se o PSD e/ou o CDS não quiserem cumprir este acordo, o primeiro-ministro tem a opção de apresentar a demissão do governo.
- Se o PS não quiser cumprir este acordo, tem a opção de o recusar.
- Na realidade nenhum destes partidos quer o ónus de não aceitar o repto presidencial, pois temem ficar, aos olhos dos eleitores, com a responsabilidade de precipitarem uma confusão ainda mais generalizada.
- Podemos concordar ou discordar desta posição do Presidente, mas não podemos dizer que não é democrática ou inconforme com a Constituição, porque é.
- É tempo de todos os intervenientes assumirem as suas responsabilidades – O PSD e o CDS, os responsáveis directos por esta crise política, recusarem-se a tentar uma base de trabalho com o PS; o PS a responsabilidade de querer as eleições antecipadas, mimetizando aquilo que o PSD e o CDS fizeram na altura da aprovação do PEC IV. Qual a alternativa credível que o PS tem para a situação do país? A renegociação da dívida não precisará de um acordo com o PSD e com o CDS?
- Os únicos partidos que estão verdadeiramente interessados em eleições são o BE e o PCP, para os quais é previsível um aumento de votação relativamente às últimas eleições. O problema é que não se percebe o que vão fazer com esses votos.
- O aumento das abstenções e dos votos brancos e nulos espelham o impasse e a descrença dos cidadãos em relação à solução eleitoral imediata (a acreditar nas sondagens, é claro).
- António José Seguro vê-se como Passos Coelho em 2011 – ou há eleições no país, já, ou no PS, rapidamente.
- Em relação ao Presidente – não podemos criticá-lo porque se cola ao governo, porque se abstêm de intervir, por se esquecer da sua função e criticá-lo quando decide exercer, finalmente, o seu papel. Arriscou-se, ainda bem, é por isso que foi eleito pelos portugueses – para interpretar a situação, decidir e agir.
É altura de caírem as máscaras e de acabarmos com as demagogias e os populismos – haverá eleições antecipadas e há que tomar consciência de que as flores da luta partidária neste momento são os cardos com que o país se confronta. Que todos se olhem e se perguntem qual é a melhor solução para o país. Não gosto de salvações nacionais nem de governos ou criaturas heróicas. A irresponsabilidade e a brincadeira têm rostos humanos, assim como o compromisso e a negociação adulta e dolorosa. Passamos a vida a falar de estadistas - que venham eles.
Não gosto deste Presidente, tenho da sua actuação a pior das avaliações, mas penso que, desta vez, fez o que devia. Que os directórios partidários façam o mesmo e enfrentem as consequências. O povo julgará quem teve e não teve razão.
A democracia não se esgota nas eleições – não é o que estão sempre a lembrar?
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