06 julho 2013

Da gramática de rejeição

 


Foi uma semana em que vivemos todos uma realidade a um tempo suspensa e aventurosa. Replicaram-se ainda mais as certezas do total divórcio entre os que protagonizam as instituições do nosso regime democrático, e no qual teimosamente acredito, e o comum dos cidadãos, boquiabertos perante tanto disparate. O país é uma enorme sala de espectáculos e os actores representam um guião de tragicomédia de algum escritor medíocre.


 


Desde o Presidente refugiado em recados crípticos que só se explicam pela incapacidade de quem não sabe o que fazer, aos líderes dos partidos governamentais e do principal partido da oposição, aos representantes da uma Europa descredibilizada, desagregada e com tiques antidemocráticos, assistimos a passos de dança e cambalhotas acrobáticas, a declarações incríveis e vergonhosas.


 


Aliás os prefixos de negação estão na moda - ingovernável, inacreditável, intolerável, irrevogável, inadmissível, inenarrável, indigente, improvável, enfim, a linguagem do Verão presente está pejada de uma gramática de rejeição.


 


Está um calor abafante que esturrica. Podemos todos aguardar, no escuro das nossas casas, abrigados do irreal vítreo amarelo do Sol, a continuação desta triste telenovela.


 

02 julho 2013

Da inevitabilidade do destino

 


Pedro Passos Coelho passou para o CDS a responsabilidade de desfazer a maioria parlamentar no Parlamento. É a única estratégia que serve Cavaco Silva e que obrigará a convocação de novas eleições.


 


O que farão os restantes ministros do CDS? Aguardam para pedir a demissão?


 


É tempo de os verdadeiros democratas da esquerda se unam para destronar as suas lideranças partidárias - no PS, no PCP e no BE. É urgente que se comece a pensar no país. As eleições estão à porta e precisamos de um governo capaz, com gente capaz.


 


Também é urgente a definição do próximo candidato a Belém. Seria uma luz ao fundo do túnel e, quem sabe, pode ser ser preciso mais depressa do que pensamos.


 

Da real comédia dramática

 


Não sei o que Pedro Passos Coelho dirá às 20h00. Espero que apresente a sua demissão ao país. Espero também que o Presidente fale a seguir, para dar conta das diligências para convocar o mais depressa possível novas eleições legislativas.


 


Cada dia que passa é um dia a mais perdido. A realidade é sempre mais imaginativa que a ficção. Não é a questão da demissão de Paulo Portas, mas o facto de o fazer imediatamente antes da tomada de posse da nova ministra das Finanças, é o facto do Presidente ter persistido nesta dramática comédia.


 


António José Seguro não precisou de assaltar o poder - ele vai cair-lhe em cima. A não ser que haja um golpe de estado dentro do PS. Militantes do PS, o que esperam?


 

01 julho 2013

A ruidosa solidão

 



 


Foram os SWAPs? Foi a reforma do Estado? Foi o ministro Crato? Tudo, mesmo tudo, com excepção do descalabro que foram estes 2 anos de governo.


 


A nomeação de Maria Luís Albuquerque significa que Passos Coelho não consegue convencer ninguém a assumir o cargo. Começar um mandato assim não se deseja nem ao pior inimigo. A ministra está condenada à partida. Tanta incompetência política é difícil de admitir.


 


Onde está o Presidente? Será que também se demitiu e ainda não lemos a sua carta?


 



 

30 junho 2013

Da enormidade consensual na sociedade portuguesa

 



 


Na sequência da greve geral, da entrevista que Teixeira dos Santos concedeu a Judite de Sousa e do último programa semanal da TSF, Bloco Central, há algumas coisas que me deixam ainda mais dúvidas (porque eu, ao contrário de Cavaco Silva, tenho cada vez mais dúvidas e estou sempre a enganar-me) das habituais.


 


Teixeira dos Santos foi sóbrio e discreto, fintando as perguntas telenovelescas de Judite de Sousa, cujo único objectivo era fazer alarde e publicidade da irascibilidade de Sócrates, e de quanto os seus colaboradores sofreram às suas mãos. A informação está tabloidizada e a sociedade vive num perpétuo mundo onírico, de tipo Walt Disney, desapegado da realidade e do mundo adulto com que temos que lidar. A apologia da inocência, da espontaneidade e da perpétua adolescência toca as raias do disparate. A maledicência e a coscuvilhice constantes sobre a política são dramáticas e envergonham. Não me interessa se Sócrates tem mau feitio, Teixeira dos Santos se ofendeu, Paulo Portas amua, a ministra Cristas tem fanicos, se há amantes a pulular ou amizades quebradas, vícios tabágicos ou virtudes eclesiásticas. O que me interessa é o serviço público, as ideias políticas, as decisões, os argumentos, os resultados.


 


Mais uma vez passou a ideia de que o chumbo do PEC IV foi totalmente irresponsável e que, mesmo que ninguém possa afirmar que teria sido evitado o pedido de resgate, tê-lo-ia atrasado e, quem sabe, como disse Pedro Adão e Silva, Passos Coelho tivesse sido substituído por alguém capaz e mais competente.


 


Quando falamos do enorme consenso que hoje existe na sociedade, constituído por todos os partidos da oposição, por facções dentro dos partidos do governo, associações sindicais e patronais e a tão propalada e diáfana sociedade civil, quanto à necessidade de substituição do governo (de que eu própria comungo), é preciso lembrarmo-nos de que, há pouco mais de 2 anos, também havia um enorme consenso social e político, protagonizados pelos partidos todos, facções do PS, sindicatos, associações patronais, sociedade civil e Presidente da República, em como Sócrates e o seu governo eram responsáveis por todos os males do universo e deveriam ser demitidos, tendo-se precipitado as eleições.


 


Será que estes enormes consensos, caso sejam invocados sempre que houver decisões governamentais impopulares e situações de crise, deverão associar-se a quedas de governos e eleições antecipadas? Onde está a democracia representativa e a base para mandatos que permitam a implementação de uma política minimamente estável e consequente? E, se poderia ter sido uma bênção a hipotética substituição de Passos Coelho, não seria também uma esperança maravilhosa a substituição de António José Seguro na liderança do maior partido da oposição e representativo da esquerda democrática?


 


Que tem o PS a sugerir, a mudar, a motivar, a envolver os cidadãos, que justifique a sua vontade repetidamente afirmada de ir já a eleições? Na verdade penso que é a certeza de que, quanto mais tempo passar, mais provável será que não chegue a Primeiro-ministro. Quanto ao PCP e ao BE, assim como as palavras de ordem que ouvimos – está na hora de o governo ir embora – elas são exactamente as mesmas desde 25 de Novembro de 1975 e foram gritadas a todos os governos, desde então.


 


Estamos perante um bloqueio político sem precedentes. Mas a repetição do assalto ao poder, visto que ninguém percebe bem qual a alternativa a formar após eleições antecipadas, incerteza que se multiplica ao perceber que este PS nem coragem tem para, claramente, explicitar se apoia ou não a greve geral, talvez não seja a melhor opção. Até porque, ao contrário do governo de Sócrates, este conta (ainda) com uma maioria Parlamentar. Soma-se a este quadro deprimente um Presidente da República que desprestigiou e anulou a função presidencial, instituição que deveria ser o garante do normal funcionamento da democracia.


 


Queda do governo – de que está o CDS à espera? Da saída da Troika? Do próximo orçamento? Será que António José Seguro prepara e espera uma aliança com Paulo Portas, num cenário de eleições antecipadas?


 

27 junho 2013

Da descrença

 



 


Acho sintomático ler várias pessoas referirem-se aos que não fizeram greve com aqueles que tiveram necessidade de justificar esse facto. Realmente está de tal forma impregnado, na ala esquerda, que quem não é grevista está vendido, é amarelo, defende o patrão, é cobarde e outros epítetos, tal como para a ala direita se passa exactamente o contrário, que muitos se sentem compelidos a explicarem-se. No fundo, é o que estou a fazer.


 


Realmente respeito muito quem faz greve, se a faz porque está convencido que essa forma de luta terá consequências, é uma tomada de posição de dignidade e clamor. Tal como respeito quem a não faz, se pensa que não se revê nesse tipo de manifestação de desagrado. Mas há patrulhas ideológicas dos dois lados, que gostam de insultar quem não faz a escolha certa, dependendo da lateralidade em que se está.


 


A verdade é que acredito cada vez menos nas greves como meio de pressão. Parecem-me anacrónicas, um ritual que se repete sem consequências. Penso que a pressão sobre o poder político, pois esta é uma greve com fins políticos e não laborais, a cumplicidade e o ganho da opinião pública se conseguem através da capacidade de chegar aos media e influenciar a opinião pública. É só estarmos atentos ao bombardeamento a que, desde que sequestrou os subsídios no sector privado - o governo tem sido submetido, com comentadores de todos os tipos, jornalistas, politólogos, economistas e filósofos, a desdizerem o que ansiavam como terapêutica salvífica nos últimos tempos do governo anterior. Também foi assim que se criou a onda de crucificação do governo de Sócrates.


 


E temos também o fenómeno das redes sociais, que podem levar à desvalorização da representatividade dos eleitos, pois confunde-se a vontade do povo com o que se lê nas redes e com a organização das ditas manifestações inorgânicas. Fenómeno esse ainda não compreendido nem aproveitado pelo regime.


 


Os bloqueios da circulação das pessoas, como os tentados na ponte 25 de Abril, ou da saída de trabalhadores que não aderiram à greve, cpomo o que aconteceu na Carris, são ilegítimas e a polícia tem por função impedi-las. A democracia assenta no respeito pelas escolhas de todos, por muito que não sejam as nossas.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...