04 abril 2013

Remodelação

 


Miguel Relvas demitiu-se. Pelo que ouço e leio nas televisões e jornais online terá sido por causa de um relatório sobre a Lusófona.


 


Na verdade parece-me que, com ou sem relatório, este será o tiro de partida para a remodelação governamental. Com a decisão do Tribunal Constitucional a ser, ao que tudo indica, mais uma derrota para o governo, poderá ser a oportunidade de Passos Coelho para substituir alguns ministros, nomeadamente Vítor Gaspar.


 


A demissão do executivo provocaria novas eleições pois António José Seguro já afirmou categoricamente que não fará parte de um governo sem eleições prévias. Mas para Cavaco Silva essa será a última das últimas opções. Por outro lado, com António José Seguro à frente do PS o quadro parlamentar resultante de novas eleições seria, muito provavelmente, ainda mais complicado do que este - o PS não teria maioria absoluta e não se vislumbram grandes hipóteses de alianças à sua esquerda.


 


Mas o maior problema é mesmo o líder do PS. Sem mudança de liderança o PS não é alternativa, como ficou bem patente na discussão parlamentar da moção de censura, em que o problema do envio de uma carta à Troika, dominou as perguntas e a atenção dos media.


 


Tanta mediocridade dói. E enquanto não se sentir que há uma alternativa credível a esta inqualificável situação, protagonizada pela maioria PSD/CDS, governo, Presidente da República e PS, arrastar-nos-emos penosamente sem ânimo nem esperança.


 

31 março 2013

Tradição

 



 


Em resposta a uma pergunta de um simpático e atento comentador deste blogue, a tradição foi cumprida a preceito. A metade do cabrito partida aos pedaços, em que se destacava a meia cabeça que é sempre um pouco arrepiante, esteve de marinada em vinho, várias ervas, das quais destaco o tomilho e a bela-luz, sugerida (e colhida) por uma Tia bem ciente de saberes e sabores dos montes, sal e xarope de ácer, desde a véspera. Com um pouco de azeite, foi ao formo no tabuleiro do forno assou durante cerca de 1h30, em lume brando, virando-se de meia em meia hora. Juntaram-se castanhas em vez de batatas, e o acompanhamento leguminoso deste ano foi um esplendoroso esparregado.


 


Para a sobremesa pensei em várias inovações com base no bolo podre, pois tinha feito uma geleia de pera que mais parecia mel (ponto a mais). Mas como a recompuz com a compota de pera (ponto a menos), e como as expressões um pouco torcidas de quem me acompanha nestas aventuras, perante a substituição do mel pela dita geleia, não me incentivaram minimamente a tais experiências, resolvi jogar pelo seguro: foi um delicioso pão-de-ló, batido por muitos minutos por uma alma caridosa, regado com um creme de chocolate, aos quais se associaram bocadinhos de ananás muito doce.


 


O vinho foi, também para manter a tradição, Châteauneuf-du-Pape. Enfim, mais umas amêndoas de chocolate branco e negro, foi um verdadeiro festim. Ao menos isso, que o tempo estava muito pouco alegre. E ressuscitar, só mesmo o pecado da gula.


 

Via Crucis, Maria

 



 Barbara Furtuna & L'Arpeggiata


 


 


Sem palavras. Via Jugular.


 

Do Porto

 



  

Vote for me

Boa Páscoa

 



Martiros Saryan


at the spring


 

30 março 2013

Renovação

 



 


Na berma da estrada correm flores roxas e amarelas, numa exuberância de vegetação bêbeda de água. O céu grita de azul e a mornidão do dia desabriga os passeantes.


 


A quietude e a cíclica renovação da natureza, ontem chuvosa, cinzenta e meditabunda, hoje indisciplinada e adolescente. Nada é eterno, nada é inamovível, nada é inevitável. Nasce-se, cresce-se e morre-se; sexta-feira da paixão, sábado de aleluia, domingo de ressurreição - Cristo como metáfora do que sabemos desde tempos imemoriais, desde o início da vida.


 


É esta a certeza que devemos ter sempre presente, por muito longínqua que a esperança esteja. Estamos apenas em gestação.


 

O gosto da descoberta

 



 


Não encontrei nenhum trabalho, teoria ou reflexão filosófica que explicasse a razão de haver uma associação entre a literatura policial culinária. Dos autores que conheço, bem sei que poucos dos milhões que devem existir, o que desvaloriza totalmente a amostragem, três, e todos pertencentes à Europa mediterrânica, têm detectives gourmet: Comissaire Maigret, de Georges Simenon, Pepe Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán, e o Inspector Jaime Ramos, de Francisco José Viegas.


 


Haverá alguma conexão especial entre o gosto e o raciocínio lógico, ou entre o gosto e a pulsão para a violência, para o crime? As sensações despertadas pelos odores das ervas e das carnes, pelas texturas e pelas cores dos alimentos, pelos paladares dos doces e dos ácidos, serão semelhantes às do encontro de padrões de comportamento, dos elos perdidos nas cadeias de acontecimentos, das motivações escondidas da superfície, da incapacidade de não esgravatar à procura do tesouro, da resposta a um enigma?


 


Cozinhar ocupa as mãos, que se desdobram em afazeres de esmagar, cortar, mexer, misturar, libertando a mente para o raciocínio e a contemplação. Por outro lado, as memórias evocadas pelos cheiros e pelos sabores, poderão estimular miríades de outras memórias e de saberes aprendidos sem nos darmos conta, que ligam factos e levantam mais perguntas.


 


Há dias ouvi Francisco José Viegas contar que lhe faziam, por vezes, perguntas, como se Jaime Ramos fosse real. Pois o Inspector Jaime Ramos é real, tem uma casa onde mora, ruas por onde caminha, mercados onde escolhe os ingredientes que cozinha devagar, enquanto saboreia um bom vinho, um clube pelo qual torce, um trabalho que lhe revela a sua própria humanidade. Poderá até ser mais real do que o próprio criador. E este é um dos maiores elogios que se pode fazer a um escritor.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...