12 novembro 2012

O isolamento do PS

 


O Bloco que saiu da Convenção deste fim-de-semana é igual ao que entrou na Convenção. Populista, demagógico e incapaz de perceber que não é apostando na desorganização social, na revolta do povo e na desestruturação da sociedade, que conseguirá aumentar a sua votação e chegar ao poder, para implementar ninguém percebe muito bem que tipo de governo, regime ou soluções.


 


O Bloco de Esquerda, que teve 5,17% nas últimas eleições, sente-se no direito de condicionar a posição do PS, que teve 28,05% também em 2011, em relação ao cumprimento dos compromissos que este assumiu junto do FMI, da CE e do BCE, nada mais nada menos que rasgar o memorando de entendimento, para se dispor a um compromisso que possa servir de base a um futuro governo de esquerda.


 


O BE (e o PCP) sabe, ou deveria saber, que isso é uma irresponsabilidade, que não tem viabilidade nem representatividade eleitoral para impor tal solução ao maior partido da oposição. Até porque uma plataforma mínima não pode começar por obrigar o PS a renegar o que é, e ainda bem, a sua história de garante de um país civilizado e capaz de honrar os seus compromisso internacionais.


 


A Convenção do Bloco demonstrou, mais uma vez, que em Portugal não é possível ao PS fazer coligações de governo à esquerda. O Bloco de Esquerda continua a condenar o PS e o país aos governos minoritários ou a governos de direita.


 

Dos alvos políticos

 


A Chanceler Angela Merkel vem a Portugal. Não se sabe bem o que vem cá fazer mas, independentemente disso, é a responsável política de um país democrático da União Europeia, lugar para o qual foi eleita democraticamente, pelo que penso que, como país democrático que pertence à União Europeia, temos todo o gosto em recebê-la.


 


Precisamente por pertencermos à mesma União e por sermos países democráticos, temos também o direito e o dever de lhe dizer, das mais variadas formas democráticas, em liberdade e segurança, que não concordamos com o rumo da política europeia, de que ela é a principal responsável, que este tipo de austeridade leva ao empobrecimento sem remédio das populações, que estamos a caminhar para o eclodir de revoltas e de regimes totalitários, que estamos a renovar os nacionalismos cegos e a xenofobia, terreno fértil para destruir tudo o que foi construído desde a 2ª metade do séc. XX.


 


Não podemos, no entanto, enganar-nos a nós proprios, canalizando as frustrações e as reivindicações para um alvo externo. O combate político deve ser, em primeiro lugar, dentro de portas e contra a política deste governo que, soberanamente, tem conduzido uma política desastrada e ruinosa, sem qualquer visão de futuro ou capacidade de gestão de recursos e expectativas.


 

10 novembro 2012

Até ao Verão

 



Ana Moura


Márcia Santos 


 


Deixei


na Primavera o cheiro a cravo


rosa e quimera que me encravam


na memória que inventei


e andei


como quem espera pelo fracasso


contra mazela em corpo de aço


nas ruelas do desdém


 


e a mim que importa


se é bem ou mal


se me falha a cor da chama a vida toda


é-me igual


vi sem volta


queira eu ou não


que me calhe a vida


insane e vossa em boda


até ao verão


 


deixei


na primavera o som do encanto


riça promessa e sono santo


já não sei o que é dormir bem


e andei


pelas favelas do que eu faço


ora tropeço em erros crassos


ora esqueço onde errei


e a mim que importa


se é bem ou mal


se me falha a cor da chama a vida toda


é-me igual


vi sem volta


queira eu ou não


que me calhe a vida


insane e vossa em boda


até ao verão


 


e a mim que importa


se é bem ou mal


se me falha a cor da chama a vida toda


é-me igual


vi sem volta


queira eu ou não


que me calhe a vida


insane e vossa em boda


até ao verão


 


deixei


na primavera o som do encanto


 

Lei de Lavoisier

 



 


Cá em casa, como na natureza, observa-se a lei de conservação da massa pela metade - muito se cria mas nada se perde, tudo se transforma. Até porque assim podemos penitenciar-nos das horrorosas dívidas do povo (nós), castigar-nos de tantos espectáculos a que temos assistido, tanta música, tanta poesia, em vez da pura modéstia e mediania doméstica que deve levar à redenção do país.


 


Sendo assim o jantar de hoje foi frugal e constituído por sopa de legumes, queijo fresco, marmelada e pudim de pão (também havia uns camarõezitos cozidos, mas eram pequenitos).


 


O pudim de pão foi uma ideia sugerida por uma representante da geração anterior, habituada a gerir crises perpétuas. Pega-se no pão duro, pode até estar com consistência pétrea, e parte-se (corta-se) aos bocadinhos, enchendo uma tigela que possa ir ao forno. Aquece-se leite com açúcar (usei meio litro de leite e oito colheres de sopa de açúcar) e despeja-se para cima dos bocadinhos de pão (espreme-se bem o pão, de forma a que fique bem ensopado). Mistura-se o outro meio litro de leite com quatro ovos inteiros (pode-se juntar mais açúcar, consoante a gulodice dos comensais) e junta-se às sopas de pão. Cortam-se duas maçãs em fatias fininhas e mistura-se tudo muito bem. Polvilha-se de canela e leva-se ao forno médio por vinte e cinco minutos a meia hora.


 


Fica muito bom.


 

09 novembro 2012

Um dia como os outros (120)

 



(...) Quando a luta aquece, ainda ninguém sabe o que, neste ciclo, acontece. E seria terrível se aos malefícios deste governo sobre a economia e a sociedade se juntasse a colonização do espectro partidário da esquerda (e talvez a seguir da direita, mas falarei disso noutra altura) por correntes que, perdido o referencial revolucionário e sem projecto para Portugal como sistema democrático no quadro do capitalismo, são meramente oportunistas e populistas. Oxalá me engane, mas vejo no horizonte o espaço aberto para uma ofensiva populista sobre a esquerda que só um repensar sério dos seus papeis na sociedade portuguesa por parte das forças da esquerda democrática e dos movimentos sociais não radicalizados pode conter. A UGT pode estar a ser só e ainda, apesar de tudo ao de leve, a primeira vítima.


 


Paulo Pedroso


Da futilidade existencial

 



 


Não tenho dúvidas das boas intenções de Isabel Jonet nem do seu importante papel à frente do Banco Alimentar contra a fome, nem da indispensabilidade da existência da organização. Não é isso que está em causa, como nunca estiveram as boas intenções de todos quantos cuidaram, alimentaram e ofertaram as roupas que já não vestiam e os sapatos que passavam de moda aos pobres, uma palavra ressuscitada do léxico social e político.


 


O que está em causa é a noção da organização social subjacente. Porque quem diz que temos que empobrecer e não ser consumista nunca se está a referir a si próprio. Por inerência, os direitos de quem receita a contenção e a modéstia estão assegurados, os espectáculos, o viver com conforto e a largura de horizontes dessas pessoas nunca estão em discussão.


 


A moral vigente transformou todo um país num aglomerado de gente sem noção do que deve ser uma vida organizada, gastando o que tem e o que não tem em futilidades. Este governo assumiu o papel castigador e enaltecedor do viver dentro das suas posses, pobre mas honesto. O problema é que a alimentação, o ensino e a saúde, para não falar da investigação científica e do puro lazer, a que cada vez menos têm acesso, passaram para a categoria das futilidades.


 


Porque só para alguns estes bens estão assegurados. E porquê? Porque são melhores, porque se esforçaram mais, porque fizeram mais pela sociedade? Ou porque tiveram a sorte de ser bem-nascidos, de terem famílias com dinheiro e/ou poder?


08 novembro 2012

Dos castigos aos viciosos

 


É claro que há muitos hábitos consumistas que podem e devem ser mudados. Não haverá necessidade de as famílias irem aos restaurantes com frequência, como também se pode andar a pé em vez de usar o carro. Sempre se pode poupar o dinheiro da gasolina.


 


O problema está na escolha do que é indispensável e no escalonamento das prioridades. No mundo da Helena Matos, da Isabel Jonet e de muitos outros, assistir a um concerto, comer em restaurantes ou viajar é dispensável, pois há uma classe de pessoas que apenas podem financiar a sobrevivência modesta, sem alimentar ambições. Quem não tem dinheiro não tem vícios. E tudo o que extravase a missão de conseguir alimentar-se e pagar as contas, nomeadamente a enormidade de impostos a um Estado que já não assegura nem sequer a hipótese de uma radiografia grátis a quem parte um pé, passou a ser um vício.


 


A excepção é sempre a mesma: aquele grupo de gente que vive em condomínios fechados, que frequenta locais suaves e sofisticados onde as paredes e as peles respiram perfume, que conhece o mundo e viaja sem preocupações, que pode descansar a alma em concertos e galerias de arte pois as agruras de uma vida de negócios fazem subir a tensão e o colesterol, enrugam as faces e encurvam ombros.


 


Aproveitar a crise para criar bons hábitos alimentares seria uma oportunidade se a crise deixasse margem para poder comprar carne, peixe, leite, legumes, fruta, para fazer sopas e saladas, um bolo de vez em quando. Mas os ordenados de quem trabalha já não chegam para tanto. Não chegam sequer para dar o pequeno-almoço às crianças, antes de irem para a escola. E quem não trabalha nem isso tem.


 


A gestão desta crise já ultrapassou todas as oportunidades de renovar atitudes. A gestão desta crise é o regresso ao mais absoluto poder dos poucos que têm muito sobre os muitos que pouco ou nada têm. É o castigo ao povo atrevido, abusador e malcriado de que fala António Lobo Antunes. É a volta da tristeza, do cinzentismo e da desesperança.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...