05 agosto 2012

Chama

 



Chris Uyehara & Stan Kolonko


 


Tudo já foi dito como os dias que sucedem


às horas que desmontam aos minutos que desgastam


tudo foi vivido como os corpos que se despem


as penumbras que afastam os desenhos que afagam


tudo mesmo tudo mesmo a misteriosa inflexão na voz que nos chama


mesmo a súbita chama


mesmo a fugaz e inútil chama.


 

01 agosto 2012

Abandono

 



Charles Umlauf


 


 


Apressada cheguei-me à Senhora que tinha uma cara de quem vai esperar horas, para a fazer entrar, com as desculpas prestes a escaparem-me da boca. Ao lado da Senhora, silencioso e muito composto, um Rapazinho pequenino, cabelo revolto, costas direitas e pés bem acima do chão, segurava um guardanapo ligeiramente avermelhado que pressionava contra o nariz, emprestado pela sua companheira de espera. Quando indiquei à Senhora o caminho para o gabinete, apercebi-me que o Rapazinho estava só. A Secretária que, entretanto, me vinha dar uns papéis para assinar, disse-me que iria passando para ver dele, pois a Mãe estava a fazer um exame.


 


Acerquei-me do Rapazinho e perguntei-lhe o nome, com a intenção de esperar com ele que a mãe regressasse. Tentei perceber o que tinha no nariz, e fiquei mais descansada ao ver uma pequenina crosta levantada, que já não sangrava. O Rapazinho murmurou o nome dentro dos seus 5 anos, muito direito e muito sisudo, com os olhos a brilharem, até que desatou a chorar, primeiro devagarinho, depois aos soluços, deixando desabar as forças de contenção que até àquele momento o tinham mantido sereno. Envolvi-o num abraço que encontrou um corpinho tão pequenino, morno e tremente, num choro manso e tão desesperado que eu própria tive vontade de chorar.


 


Assim ficou até a porta da sala se abrir, saindo de lá a Médica que, olhando para aquele quadro, lhe disse que já podia entrar. Aí foi ele, a medo, agarrar-se à Mãe, abrindo ainda um pouco mais as lágrimas, finalmente mais soltas, finamente acreditando que não tinha ficado sem ela.

22 julho 2012

Retroceder - direita volver

 


Neste momento multiplicam-se os programas, editoriais e comentários sobre o descalabro deste governo. Em muitas circunstâncias, exactamente com os mesmos protagonistas daqueles que o fizeram nos meses anteriores à queda de Sócrates.


 


Mas na verdade, por muito que se fale da agenda ideológica do governo, a legitimidade deste é inatacável, tal como a implementação da sua agenda ideológica. Foi eleito para governar com a sua agenda e o seu programa. Mentiu na campanha eleitoral, é verdade, mas todos os partidos o fazem e fizeram. E as sondagens continuam a dar-lhe maioria.


 


É claro que o resultado das sondagens explica-se pela abulia e anosmia da oposição toda, mas particularmente de António José Seguro, à frente do PS. Felizmente, de vez em quando, aparecem alguns textos que, certeiramente, contextualizam o que se está a passar.


 


É o caso do artigo de Maria de Lurdes Rodrigues, no Expresso, que chama a atenção para o retrocesso civilizacional a que vamos assistindo, com a ideia que esta maioria tem do que é a educação - a perpetuação da imobilidade social, pela hereditariedade da classe e do status académico. Não há dinheiro para aceder às licenciaturas, como deixa de haver cabimento para aspirar a outra coisa senão aquilo que se nasceu para ser. O nosso fado, mais uma vez, numa espiral de mediocridade e mesquinhez, em que a vida só tem esplendor para alguns poucos sortudos que tiveram a felicidade de nascer em berço dourado - os fidalgos (filhos de algo).


 


A juntar ao real empobrecimento da classe média e dos pobres, transformando a classe média em pobres, que não têm dinheiro para a sua própria saúde e que deixam de ter direito a ela, pois o Estado aliena-se e esvazia-se das suas funções. A juntar ao discurso moralista desta direita retrógrada que culpa os mais pobres pela crise e pelo endividamento do país, como pude assistir atónita num dos muitos frente a frente do Mário Crespo, aquele paladino da mais completa e triste palhaçada da parcialidade e da náusea profunda do descaramento.


 


Eu até estou totalmente de acordo com as facturas obrigatórias. Mas não sei como é que muitos dos meus concidadãos irão (sobre)viver sem a economia paralela que existe.


 


Volto ao início. Este governo foi aquele que elegemos. Há uma direita e uma esquerda. Esta é a direita.

18 julho 2012

Urgências outra vez

 


Muito se tem falado dos cortes no orçamento da saúde. Mais do que o valor dos cortes, o que está em causa, para uma saúde de qualidade, visto que todos concordamos que temos que racionalizar os custos, é onde e como se fazem os cortes.


 


A reforma das urgências hospitalares é, ela própria, uma urgência. Assim foi quando Correia de Campos a quis fazer, assim é agora, com o relatório hoje tornado público. Tal como com Correia de Campos, já se começaram a ouvir os seus detratores, desde autarcas a outras vozes, sempre renitententes a qualquer mudança.


 


Este é um assunto que precisará de ser discutido em termos técnicos e depois decidido em termos políticos. Espero que o PS não faça o mesmo que toda a oposição fez, demagogica e populistamente, com a tentativa de reforma anterior. Por sinal, terá sido feita alguma avaliação aos resultados do que foi feito?


 

17 julho 2012

Um dia como os outros (115)

 



Uma das manifestações mais vexantes do atrofio geral que molda a nossa política consiste na repetição da cassete laranja onde ouvimos dizer que o “PS está agarrado ao Memorando” porque foi um Governo socialista que o pediu, o negociou e assinou. (...) Primeiro, a necessidade do Memorando resulta de um boicote do PSD e do CDS (ajudados pelo Presidente da República, BE e PCP) a um programa alternativo defendido pelo Governo de então e por todos os responsáveis europeus. Conclusão, o Memorando interessava aos interesses da direita, a qual fez campanha por algo similar ao longo de 1 ano. Segundo, o Memorando foi negociado e assinado também pelo PSD e CDS. Tanto Catroga, que disse ter influenciado o acordo, como Passos, que disse estar em perfeita sintonia ideológica com ele, reclamaram vitória pela sua implementação. Conclusão, o Memorando consubstancia uma visão da sociedade e da economia na qual o PS não se revê, mas a qual espelha os pressupostos programáticos dos radicais da diminuição do papel do Estado. Terceiro, o Memorando foi sofrendo alterações a seguir à tomada de posse do Governo PSD-CDS. Essas alterações deixaram de contar com a participação do PS, o qual não foi mais tido nem achado e talvez nem saiba agora do que consta a mais recente versão do acordo.


 


Como se explica a repetição maníaca desta cassete, tanto por deputados, como por dirigentes, como por jornalistas do laranjal? Explica-se pela cumplicidade de Seguro. O apagamento do passado recente que Seguro instaurou logo a partir da sua campanha para Secretário-Geral abriu todo o flanco para o partido ser impunemente sovado até à perda de consciência. (...)


 


Valupi

15 julho 2012

Peculiaridades de Trancoso

 



 


Pois não consegui perceber como apareceram as Sardinhas Doces de Trancoso. É um doce conventual, do século XVII, originadas no Convento de Freiras de Santa Clara. Mas porquê sardinhas em Trancoso, não sei.


 


Como quase toda a doçaria conventual são feitas com ovos, açúcar e amêndoa, envoltas numa massa fina com chocolate. Há um ano foi criada a Confraria das Sardinhas Doces de Trancoso, para valorizar e promover este doce peculiar.


 


Na verdade em Trancoso há outras coisas peculiares, desde o Padre Francisco Costa, o tal que foi condenado por libertinagem, com centenas de filhos de dezenas de mulheres, até ao Sapateiro Bandarra, profeta e trovador messiânico.

Rupestre

 



 


Devo confessar que as minhas expectativas não eram grandes. Mas foram altamente ultrapassadas pela realidade.


 


O Museu do Côa, em Vila Nova de Foz Côa, foi uma revelação. Para quem esperava uma visita guiada às gravuras rupestres encontradas no vale do Côa (motivo de grande disputa política antes de António Guterres ter chegado ao poder), que não foi possível realizar por não ter sido marcada com antecedência, o museu foi uma excelente substituição.


 


É um edifício muito bem enquadrado, fazendo lembrar as pedras de que estamos rodeados, bem inserido na paisagem e com uma vista lindíssima. As gravuras são explicadas e mostradas com recurso a meios áudio visuais bem conseguidos e muito esclarecedores. Há pequenas resenhas históricas, artefactos que mostram a evolução geológica e comparações com outros achados similares noutras regiões, inclusivamente na Noruega.


 


As gravuras são muitas e muito mais perceptíveis do que esperava. É uma enorme colecção que se espalha ao longo de várias localidades, efectuadas ao longo de várias épocas, com dezenas de milénios de diferença. Incluem figuras humanas e de animais. Vale muitíssimo a pena visitá-lo.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...