01 junho 2012

Das trituradoras

 


As figuras públicas, em Portugal, são trucidadas pelas fugas cirúrgicas de informações com que os processos, judiciais ou outros mas profundamente kafkianos, vão sendo do conhecimento geral, a conta gotas, para grande agitação da mole humana, para grande felicidade das caixas de comentários dos posts e das notícias online, dos fóruns de discussão das televisões e das rádios.


 


Miguel Relvas foi para o governo para domesticar a comunicação social, para servir de escudo ao primeiro-ministro, para servir de ponte aos autarcas do partido. É uma figura que personifica o que de mais negativo existe quando nos referimos aos aparelhos partidários. Mas isso não pode justificar o manancial de acusações, suspeitas e insinuações que, todos os dias, são gritadas e repetidas, quase como se fosse essencial que todos concluíssem pela vilania da pessoa em questão, sem qualquer possibilidade de defesa ou explicação.


 


Sócrates e os seus ministros foram e continuam a ser vítimas do mesmo. O pior que pode acontecer a alguém, seja quem for, é ser alvo de suspeitas que ficarão sempre em suspenso, nunca esclarecidas. Se há indícios de que Miguel Relvas actuou criminosamente, pois que se acuse, investigue, julgue e condene ou absolva. Mas este metralhar incessante é indigno e o resultado vai ser o mesmo que os diversos desfechos de processos que se esboroam e desacreditam a justiça, para além das pessoas enroladas por eles.


 


O estado de direito e a justiça para os nossos aliados e amigos deve ser idêntica à dos nossos adversários e inimigos. É uma amarga lição para quem, da parte do PSD, tanto contribuiu para o clima de caça às bruxas, acusações sem provas e delapidação da confiança na política e nos servidores públicos. Quem acredita na liberdade e na justiça não pode deixar de se revoltar com a constante delapidação dos valores da democracia, sinónimo de uma sociedade doente.


 

27 maio 2012

Pão-de-ló com re-cheio-o e co-ber-tu-ra de cho-co-la-te

 



 


Este é um bolo adequado à nova geração dos nossos governantes. Soletram-se os ingredientes, demora-se no mexer da colher de pau, deleita-se o paladar no vagaroso saborear.


 


Imaginemos o nosso ministro olheirento com um avental e uma colher de pau, rodeado de uma organizadíssima mesa de cozinha, a tarde por conta dele (provavelmente a mulher aproveitou para arejar, de forma a não assistir à dolente epopeia culinária). Rigoroso, lê os ingredientes e coloca-os a todos à sua volta, perfilados e obedientes:


 


Para o recheio:


Uma tablete de chocolate para culinária com, pelo menos, 50% de cacau


Dois decilitros de leite gordo


Seis colheres de sopa de açúcar


Duas gemas de ovo


Um pouco de canela em pó


Duas colheres de chá de licor (qualquer um, se caseiro melhor)


 


Para a massa:


Seis ovos


Trezentas gramas de açúcar


Cento e cinquenta gramas de farinha


 


Para a forma:


Margarina e farinha para barrar


 


Começa por ligar o forno, aproveitando para derreter a margarina dentro da forma – grande com buraco a meio, ou sem buraco. Com um pincel barra bem o interior da forma e depois peneira-a de farinha.


 


A seguir parte os seis ovos para dentro de uma tigela, mistura o açúcar e bate tudo por muito tempo, até a massa duplicar e ficar quase branca. A seguir junta a farinha, bate mais um pouco. Leva a massa ao forno, em lume médio, por 30 a 40 minutos (tem de certeza palitos de vários tamanhos para espetar no bolo, apreciando a cozedura).


 


Enquanto coze o bolo parte a tablete aos bocadinhos para dentro de uma panela pequena, junta o açúcar e o leite quase todo e um bocadinho de canela, deixa ao lume brando até derreter o chocolate, mexendo. Bate as gemas com uma colher de pau e mistura o resto do leite, deitando depois no chocolate derretido para engrossar, mexendo sempre. Quando está quase ferver, junta o licor e desliga o lume.


 


Logo que o bolo se apresentar cozido deixa-o arrefecer um pouco, desenforma e parte-o ao meio, para poder rechear com a papa de chocolate. Junta as duas metades e cobre-o com a papa sobrante. Nesta altura já a excelentíssima esposa deve ter regressado, preparadíssima para deglutir o bolo que amorosamente o queridíssimo fez.


 


Quem sabe as qualidades escondidas que terá o nosso ministro olheirento?


 

Myth

 



Beach House 


 


drifting in and out, see the road you’re on
you came rolling down the cheek
say just what you need
and in between it’s never aš it seems

help me to make it
help me to make it

if you build yourself a myth
know just what to give
what comes after this
momentarily bliss
consequence of what you do to me

help me to make it
help me to make it

found yourself in a new direction
eons far from the sun
can you come when they come to reach you
let you know you’re not the only one

can’t keep hanging on
to all that’s dead and gone
if you build yourself a myth
know just what to give
do you lie?
we’ll let the ashes fly

help me to make it
help me to make it


 

Velhice

 



Gunilla Söder 


 


1.


Estava à sua frente, de olhar perdido, os cabelos brancos apertados num carrapito, os pés arrastando-se pelo corredor, as mãos entortadas segurando numa carteira pesada, os lábios abertos e arfantes. Que sim, que não sabia da porta de saída. Indicou-lha com simpatia. Ela agradeceu.


 


Apressadamente dirigiu-se ao carro. Estava um calor sufocante e a ginástica não ajudava. Desenvencilhou-se dos sacos lancheiras e carteiras. Deu à chave e abriu as janelas.


 


Depois de dar a volta ao estacionamento viu-a outra vez, descendo vagarosamente a rua, mais triste e perdida ainda. Parou ao lado e perguntou se queria que a levasse a algum lado. Respondeu-lhe desesperada que ia para longe. Respondeu-lhe que morava lá muito perto, que a poderia levar até casa. Ela quase chorou e passou todo o caminho a dar graças a Nossa Senhora e a contar as desgraças familiares, de parcas heranças e inexcedíveis traições, de gente moribunda e só, de gente viva e só, de gente velha e só.


 


Quando chegaram disse-lhe que não precisava de conhecer-lhe o nome, pois só quem acreditava sabia que os anjos não se nomeiam.


 


2.


Sábado ao fim da manhã num hipermercado, carrinhos cheios de compras nas filas das caixas. As pessoas aguardam pacificamente, de ombros caídos. À sua frente uma velhinha toda de preto, com o cabelo todo branco, bem enrugadinha, mirradinha, empurra com o pé um saco com compras, enquanto espera, ela irrequieta, com três ou quatro objectos periclitantes nas mãos. Pergunta-lhe se não seria melhor ir para a caixa prioritária ao que ela respondeu que vinha de lá.


 


A senhora da caixa despacha rapidamente as compras, diz-lhe o preço e ela interrompe o labor de ensacar para tirar as notas, com os dedos bem atrapalhados, do porta-moedas. Pergunta-lhe se quer ajuda. E guarda os pertences em sacos, que coloca em sacos para que a velhinha os possa levar. Agradece, muito digna, com tremor no canto dos lábios, e lá vai dobrada sob o peso do saco com sacos.


 

Resistir

 



Anderson Studio


 


Resistir à falta de paciência.


Resistir às insónias.


Resistir ao aperto de ansiedade.


Resistir ao medo.


Resistir à vontade de virar todas as mesas.


Resistir à anarquia da indisciplina.


Resistir à desorganização.


Resistir ao tão fácil abandono.


Resistir ao conforto de desistir.


Resistir ao imenso bocejo.


Resistir à avalanche da mediocridade.


Resistir à fealdade.


Resistir à resistência.


 

Desperdício

 



Sayaka Ganz


 


Vamos deixando fugir as medidas que nos cabem


a nossa exacta sensação de desperdício


infinitos caminhos solitários


nas cidades brancas de paixões.


 


Vamos deixando ruir as carícias que nos sobram


a nossa imensa noção de infinito


desperdícios solidários de carícias


desmedidas ânsias sem razões.


 

26 maio 2012

Talvez amanhã

 


Não tenho tido vontade de escrever. Tudo já foi dito, repetido, estando as palavras gastas de tanto usadas. Não há paciência para queixumes nem para optimismos estéreis, irrazoáveis e insultuosos para quem vê o dia a dia cada vez mais acabrunhante.


 


Não tenho a arte de me evadir do quotidiano. Apetecia-me fechar as portas e desaparecer. Não me apetecem combates nem defesas de princípios. Os princípios apenas contribuem para que nos sintamos ainda mais fora de tom. Estamos em ciclo de penúria intelectual e moral, para além da financeira. Os fundamentalismos dos novos moralistas, a importância dos costumes, a omnipresença da devassa das vidas privadas, a mistura entre o poder e a mediocridade, esmagam o individualismo e tomam conta das opiniões.


 


Não se trata da ausência de liberdade mas da incapacidade de viver e sentir essa liberdade. O medo vai empurrando o que sobra da dignidade. É preciso um esforço inaudito para arrastar as fibras que se revoltam contra a prepotência da estupidez e da falta de vergonha.


 


Não tenho vontade de escrever porque digo o mesmo que todos os outros e a falta de originalidade é patética. Patética e vazia.


 


Talvez amanhã.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...