07 abril 2012

Dos limites

 



Motanka


Yulia Podolska


 


É uma questão de traçar uma linha limite. Há quem não a sinta necessária, quem nunca a tenha imaginado, quem a tenha presente em traço grosso e em relevo e quem a vá apagando, lentamente, dia a dia, até já não ser possível detetá-la. Hoje encontra-se justificação para uma mentira piedosa, amanhã defende-se uma história lendária, depois de amanhã não se distingue a realidade da ficção. A ética não é moralismo nem se exigem qualidades angelicais e férreas a quem é inteiro e vive a vida com as qualidades e os defeitos, os enganos e as vitórias, a dolorosa aprendizagem de errar e tentar acertar. Mas não se pode olhar permanentemente para o lado, transigindo naquilo que tem consequências, mesmo que mínimas ou apenas prováveis, não para o próprio mas para a comunidade.


 


A corrente populista que tentou fazer passar uma lei inconstitucional, que volta do avesso uma conquista civilizacional invertendo o ónus da prova, julgando culpado quem não é capaz de se provar como inocente, é o corolário da hipocrisia de uma classe política em que, cada vez mais, menos nos revemos. No Parlamento apena o PS votou contra a dita lei. Os nossos representantes fizeram eco da onda pseudo deontológica que varre a os valores da verdadeira justiça num retrocesso inquisitorial.


 


E no entanto todos temos conhecimento de situações pouco claras, de comportamentos reprováveis, de pequenas e grandes fraudes que, por interesse, compadrio ou corporativismo impedem os responsáveis de atuar, sendo cúmplices de situações que desmotivam, desmoralizam e impossibilitam a defesa das instituições, dos dinheiros públicos, da segurança, da tão propagandeada mas tão pouco servida causa pública.


 


A primeira e mais importante medida contra a corrupção não é perseguir pecadilhos de juventude mas sim, em cada pequena decisão que se toma, ter a obrigação e o cuidado de distinguir se o seu resultado serve ou prejudica os cidadãos. Exigir de cada um de nós, em todas as funções desempenhadas, em cada dia de trabalho, aquilo que queremos dos nossos representantes: rigor, competência, verdade e equidade. É ter presente o limite, essa linha imaginária que separa a tolerância da negligência, o erro da fraude. É saber que por muitos matizes que tenha o cinzento, há extremos de branco e de negro.


 

06 abril 2012

Stabat Mater Dolorosa


Margaret Walker & Jessica Dandy


 


Stabat mater dolorosa
juxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.


 


Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem
pertransivit gladius.


 


O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta,
mater Unigeniti!


 


Quae moerebat et dolebat,
pia Mater, dum videbat
nati poenas inclyti.


 


Quis est homo qui non fleret,
matrem Christi si videret
in tanto supplicio?


 


Quis non posset contristari
Christi Matrem contemplari
dolentem cum Filio?


 


Pro peccatis suae gentis
vidit Iesum in tormentis,
et flagellis subditum.


 


Vidit suum dulcem Natum
moriendo desolatum,
dum emisit spiritum.


 


Eia, Mater, fons amoris
me sentire vim doloris
fac, ut tecum lugeam.


 


Fac, ut ardeat cor meum
in amando Christum Deum
ut sibi complaceam.


 


Sancta Mater, istud agas,
crucifixi fige plagas
cordi meo valide.


 


Tui Nati vulnerati,
tam dignati pro me pati,
poenas mecum divide.


 


Fac me tecum pie flere,
crucifixo condolere,
donec ego vixero.


 


Juxta Crucem tecum stare,
et me tibi sociare
in planctu desidero.


 


Virgo virginum praeclara,
mihi iam non sis amara,
fac me tecum plangere.


 


Fac, ut portem Christi mortem,
passionis fac consortem,
et plagas recolere.


 


Fac me plagis vulnerari,
fac me Cruce inebriari,
et cruore Filii.


 


Flammis ne urar succensus,
per te, Virgo, sim defensus
in die iudicii.


 


Christe, cum sit hinc exire,
da per Matrem me venire
ad palmam victoriae.


 


Quando corpus morietur,
fac, ut animae donetur
paradisi gloria. Amen.


 


Jacopone da Todi - Stabat Mater Dolorosa


Calvário

 



Salvador Dali 


 


Temos uma Páscoa mais virada para sexta-feira que para domingo. Pouca a santidade e nenhuma ressurreição.


 


Esperam-nos longos meses de penúria, entristecimento e regresso à triste sina. O PS contorce-se em penitência de perdedor. Faltam ideias, faltam soluções, faltam alternativas. Esperam-nos longos meses de calvário.


 


Esta é a direita a governar. Esta é a direita que a esquerda deixa governar.


 

Paixão

 



Salvador Dali


 


Fria manhã de Primavera


no canto em que me encosto


no canto em que afundo


breves e secas sílabas partem cristais de gelo


derreto a espera em que me encontro


nesta fria paz de manto negro.


 

05 abril 2012

Avenida da Liberdade

 



 


Apetece-me muito ir desfilar para a Avenida da Liberdade este ano, no dia 25 de Abril. Não para me manifestar contra mas para me manifestar a favor da liberdade e da democracia. Apetece-me muito mostrar que não me conformo com a captura do simbolismo do dia pelos saudosos de uma noção de liberdade ditatorial que partidos como o PCP defenderam e defendem.


 


Apetece-me muito lembrar que temos o direito de nos manifestar contra ou a favor do que quer que seja, dentro dos limites da lei, repudiando os arruaceiros e provocadores que transformam manifestações em guerras campais, que temos o direito de nos manifestar em segurança e sem receio das forças policiais.


 

30 março 2012

Mazel Tov

 


Ouvi uma amostra do som deste grupo na FNAC, enquanto ensaiavam a atuação a minutos de acontecer. Não conhecia, mas passei a conhecer.


 



Aqui em baixo tudo é simples


 

29 março 2012

Não me apetece

 


A verdade é que não me apetece. Não me apetece escrever sobre nada do que ouço, vejo, penso, sinto. Não me apetece repetir à exaustão, todos os dias, aquilo que já outros disseram.


 


Não me apetece reflectir sobre a reforma curricular, não me apetece dizer que concordo com os exames nos fins de ciclo, que não percebo em que é que isso é mau para o ensino nem para os alunos, não percebo porque é que a esquerda se associa a este tipo de discussões estéreis. Também não percebo o que vai acontecer aos alunos que não passarem nos exames, como vão ser acompanhados, como se vai investir na sua aprendizagem, demonstrado que está à saciedade que as retenções não melhoram o aproveitamento. Não percebo se as turmas vão continuar a ser feitas da mesma forma que já o foram (são?), juntando os alunos com mais dificuldades, maiores problemas de disciplina e integração, em turmas que sobram para os professores inexperientes e menos qualificados. Não percebo a razão da redução horária da disciplina de Ciências. Não percebo a razão da falta de empenho, por parte do PS, na verdadeira discussão sobre a qualidade do ensino na escola pública.


 


Não me apetece indignar-me com a manipulação da informação, com os comentadores, com as inacreditáveis manchetes sobre Sócrates, sobre a caça às bruxas que se instalou na sociedade e nos órgãos de representação política, e da caça às bruxas que se instalou a partir dos órgãos de representação de juízes, não me apetece preocupar-me com as múltiplas e variadas comissões parlamentares de inquérito, com a hipocrisia dos partidos da dita esquerda grande. Não me apetece lidar com a falta de nível do maior partido de oposição que se envergonha do que de positivo e ousado se fez nos governos anteriores, para se acoitar em silêncios que embaraçam as pessoas que têm memória e que aumentam a desesperança por uma alternativa que não se adivinha.


 


Não me apetece continuar sem vislumbrar a saída da crise, não me apetece não perceber se a descida dos juros das dívidas, das yield, tudo aquilo de que todos falam com ar sisudo e sabedor, é positivo, não me apetece ouvir a recessão, a execução orçamental, as desculpas esfarrapadas e mentirosas sobre o triplo da dívida comparada com o ano anterior, não me apetecem os telejornais, as taxas moderadoras, a irresponsável ligação das mortes no pico da gripe com a crise.


 


A verdade é que não me apetece. Aguardo a gestação de outra vontade interior. De força, de raiva ou de medo, que a cobardia também se renova em cada ano que nos somamos.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...