É uma questão de traçar uma linha limite. Há quem não a sinta necessária, quem nunca a tenha imaginado, quem a tenha presente em traço grosso e em relevo e quem a vá apagando, lentamente, dia a dia, até já não ser possível detetá-la. Hoje encontra-se justificação para uma mentira piedosa, amanhã defende-se uma história lendária, depois de amanhã não se distingue a realidade da ficção. A ética não é moralismo nem se exigem qualidades angelicais e férreas a quem é inteiro e vive a vida com as qualidades e os defeitos, os enganos e as vitórias, a dolorosa aprendizagem de errar e tentar acertar. Mas não se pode olhar permanentemente para o lado, transigindo naquilo que tem consequências, mesmo que mínimas ou apenas prováveis, não para o próprio mas para a comunidade.
A corrente populista que tentou fazer passar uma lei inconstitucional, que volta do avesso uma conquista civilizacional invertendo o ónus da prova, julgando culpado quem não é capaz de se provar como inocente, é o corolário da hipocrisia de uma classe política em que, cada vez mais, menos nos revemos. No Parlamento apena o PS votou contra a dita lei. Os nossos representantes fizeram eco da onda pseudo deontológica que varre a os valores da verdadeira justiça num retrocesso inquisitorial.
E no entanto todos temos conhecimento de situações pouco claras, de comportamentos reprováveis, de pequenas e grandes fraudes que, por interesse, compadrio ou corporativismo impedem os responsáveis de atuar, sendo cúmplices de situações que desmotivam, desmoralizam e impossibilitam a defesa das instituições, dos dinheiros públicos, da segurança, da tão propagandeada mas tão pouco servida causa pública.
A primeira e mais importante medida contra a corrupção não é perseguir pecadilhos de juventude mas sim, em cada pequena decisão que se toma, ter a obrigação e o cuidado de distinguir se o seu resultado serve ou prejudica os cidadãos. Exigir de cada um de nós, em todas as funções desempenhadas, em cada dia de trabalho, aquilo que queremos dos nossos representantes: rigor, competência, verdade e equidade. É ter presente o limite, essa linha imaginária que separa a tolerância da negligência, o erro da fraude. É saber que por muitos matizes que tenha o cinzento, há extremos de branco e de negro.