26 março 2012

Um dia como os outros (110)

 


 



(...) Há mais de vinte anos, o historiador Roger Griffin contribuiu para a caracterização dos regimes antiliberais e antidemocráticos que assolaram a Europa no período entre-guerras do século XX, com um importante livro (The Nature of Fascim, 1991) onde recorreu ao mito da criação do «homem novo» para elaborar um conceito de «fascismo». Segundo a definição ideal-típica de fascismo elaborada por esse autor, a ideologia fascista seria marcada por um «ultranacionalismo populista palingenético» – de «palin» (restauração) e «genesis» (criação, nascimento) –, cujo mínimo denominador comum seria precisamente o mito da criação do «homem novo» e de um «mundo novo», necessários, após décadas de liberalismo dissolvente e decadentista. Tal como o regime fascista italiano de Mussolini utilizou esses conceitos, elaborando até um calendário novo que se iniciava a partir do momento da «Marcha sobre Roma», em 1922, também o regime português de Salazar, em início de carreira, recorreu frequentemente aos termos de «regeneração nacional» ou «reconstrução nacional», nos anos 30 e 40 do século XX. Através deles, pretendia-se mostrar que o Estado «Novo» era um «novo» regime regenerador, restaurador e reconstrutor, que se propunha enterrar a decadência nacional promovida pelo liberalismo, pelo parlamentarismo, pelo socialismo e pelo comunismo. As célebres comemorações do duplo centenário e da Exposição do Mundo Português, de 1940, celebravam precisamente três importantes datas: 1140 (fundação e Portugal); 1640 (restauração de Portugal) e 1940 (regeneração de Portugal), através do Estado «Novo». (...)


 


Irene Pimentel


 

24 março 2012

Matéria de estudo

 


Um dia as razões de ser da perseguição encarniçada que se continua a fazer a Sócrates, aos seus governos e aos seus ministros serão, com certeza, matéria de teses de doutoramento.


 


Sindicatos de Juízes a interferirem politicamente, um Presidente da República que utiliza as suas funções de Estado para se vingar de um Primeiro- ministro, jornalistas que especulam sobre a forma como Sócrates vive em Paris, há algo de inacreditável neste encarniçamento, nesta tentativa de destruir pessoas que exerceram o poder para que foram democraticamente eleitas, que lutaram e defenderam as suas convicções e as suas políticas, sufragadas livremente pelos cidadãos.


 


Além de inaceitável é também assustador. E mais ainda quando o próprio PS tem receio de assumir a defesa do seu património, de assumir a defesa dos governos anteriores, colando-se silenciosamente aos perseguidores de Sócrates, pensando que só assim poderão angariar alguns votos.


 

23 março 2012

Violência antidemocrática (2)

 


A Polícia exerce a autoridade do Estado democrático. Por isso mesmo um Estado democrático não pode deixar de averiguar e punir os actos de violência da polícia, seja em que circunstâncias forem. Não é porque as vítmias são jornalistas, mas porque são pessoas. A Polícia pode e deve conter provocações e desacatos, nomeadamente impedir que haja arruaceiros mascarados de manifestantes que se apelidam Plataforma 15 de Outubro ou Indignados, agridam quem lhes apetece. Mas a intervenção policial não pode ser desproporcionada, como foi o caso.


 


A greve geral foi um fracasso e o baptismo de Arménio Carlos, badalada como um ritual de iniciação por todos os media, teve uma amplificação, resultante destas atitudes antidemocráticas, que nem o próprio Arménio Carlos podia sonhar.


 

22 março 2012

Violência antidemocrática (1)

 


Em democracia é inadmissível que haja cargas policiais sobre manifestantes, tal como é inadmissível que haja manifestantes que atirem pedras sobre polícias e outros cidadãos, tal como é inadmissível que haja piquetes de greve a pressionar cidadãos e a impedi-los de, livremente, não fazerem greve.


 

21 março 2012

Grécia anunciada

 


Isto é a crónica da Grécia anunciada. Tantos já o tinham previsto, avisado, explicado.


 


Quando chegarmos a um défice muito superior ao que deveríamos ter, este ano, onde vai o governo cortar mais? Ou será que o périplo de Vítor Gaspar pelos EUA e os elogios da Comissão Europeia são o anúncio da renegociação da dívida, do alargamento dos prazos, por parte do tolerante professor ante a aplicação do aluno?


 

20 março 2012

Encruzilhadas

 



Robert B. Howard 


 


Todos os dias uma encruzilhada


escolhas de bem ou mal


por muito que aprendamos os matizes da vida.


Decisões tremendas ou sinuosas


entre palavras de circunstância e confortos de preguiça


a dor do corpo que não se dobra.


 


Todos os dias uma encruzilhada


escolhas de ficar bem ou mal


por muito que aprendamos a flexibilidade do mundo.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...