17 janeiro 2012

Da poesia nua

 



Ebon Heath: Visual Poetry


 


 


 


Retiro adereços às palavras descarno sons e intenções


uso pinças e dentes sem delicadeza nem pudor


escancaro nervos e vozes mesmo as murmuradas.


 


Cruentos os versos que espirram nomes e solidão


nas paredes decalcados os olhos e a nudez


deste meu amor por tudo que de nada se desfez.


 

14 janeiro 2012

A pele que há em mim

 



 Márcia & J. P. Simões


 


 


Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu


 


E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo do meu
Uma trança arrancou
E o sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu


 


Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.


 


Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou.


 


Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei
Para lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
Para voltar a viver
Já não sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber.


 


Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada.
O quarto vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Quando enfim se cala.


 

Para variar

 



 


Dois excelentes programas de rádio, na TSF.


 



 

Omnipotência e omnipresença

 



 


S&P corta rating a nove países, França perde AAA e Portugal passa a “lixo”


 


E que tal sugerirem o julgamento de Sócrates em todos os países da Europa? O homem arrasou e continua a arrasar...


 


Nota: Cuidado: ele anda aí, quem sabe em encontros inconfessavelmente maçónicos, para além de gastronómicos...


 

Capelinhos

 



Vulcão dos Capelinhos, 14-04-1958


 Luís Carlos Decq Motta


 


A propósito deste post, sobre a ilha Surtzey, lembrei-me do vulcão dos Capelinhos. Há já alguns anos visitei os Açores, incluindo o Faial. Ficou-me na memória o imenso areal cinzento, as casa soterradas, o espetáculo da devastação e do poder da Terra. Vi as fotografias da época e imaginei o terror e o fascínio de quem ali vivia e teve que emigrar.


 


Vale a pena ver alguns filmes que circulam pela internet sobre este fenómeno ainda tão recente. Deixo um deles, com as imagens em bruto.


 



 

Calçada da Graça

 



 


Há que reconhecer que o meu sentido de orientação é, de facto, inexistente. Por isso o TOM TOM é um dos meus melhores amigos. Mesmo tendo uma voz a sair do aparelho, encafuado no carro de forma a conseguir ir vendo o caminho pré indicado e colorido, bastante irritante, ordenando saia na saída ou mantenha-se à esquerda ou saia na rotunda, 3ª saída, etc.


 


Hoje aventurei-me pelas ruas de Lisboa antiga, mais precisamente para a Calçada da Graça. Armada de excelente companhia e TOM TOM devidamente acondicionado, carregado e orientado, meto-me ao caminho. Caminho acidentado, com ruelas íngremes a subir, outras ruelas íngremes a descer, curvas de duzentos e tal graus, linhas de elétrico que fazem deslizar os pneus, carros estacionados em todo o lado impedindo de estacionar em lado nenhum, depois de voltas várias na tentativa de que alguém se convencesse a desaparecer, para aproveitar um qualquer buraco para parar, resolvi regressar a casa.


 


Mas nada se consegue sem muito trabalho. No cimo de uma das ruelas íngremes que teríamos que percorrer em sentido descendente, dei com vários carros a fazerem marcha atrás, naquilo que me pareceu um movimento alarmado, com as luzes da marcha atrás violentamente acesas, perseguidos por um elétrico que vinha em sentido ascendente e entupindo a ruela, que não permitia a passagem simultânea dos veículos em sentido contrário. Todos se saíram bem, menos um desgraçado de um opel astra que nunca mais se despachava, mesmo tendo em conta os amáveis transeuntes que davam frenéticas indicações ao respetivo motorista.


 


Foi um passeio interessante. Imperdível. Incluindo o cheiro nauseabundo que estava instalado precisamente ao cimo da ruela em questão. O tempo de espera do despacho do opel astra foi ainda mais extraordinário, tendo em conta as condições ambientais. Enfim, Lisboa antiga e turística, em todo o seu esplendor.


 

O ovo da serpente (*)

 



 


Após a falência do Lehman Brothers e da recessão que se lhe seguiu, muitos pensaram que o capitalismo estava em crise. O Estado serviu, nessa altura, para defender os cidadãos de estranhas manobras financeiras de grandes empresas bancárias, cujo risco de falência globalizada arrastava para a penúria milhões de pessoas em toda a Europa e EUA. Houve um ressurgir das ideologias que repudiavam o lucro pelo lucro, fazendo-se inúmeras comparações com o que se tinha passado antes da grande depressão, na esperança de uma mudança que valorizasse o indivíduo, a qualidade de vida e o bem-estar da sociedade, a bem de todas as democracias.


 


Pelo contrário, a enorme campanha a que temos assistido em toda a Europa, que redundou na substituição democrática, nuns casos, e não democrática noutros, dos governos de muitos dos países europeus, branqueando a natureza sistémica da crise e apontando como criminosas as políticas que tinham sido implementadas para impedir situações semelhantes às da Grande Depressão, tem subvertido e mudado radicalmente a perceção da vivência e da sociedade no futuro próximo.


 


Neste momento há já o convencimento de que o Estado não serve para defender as pessoas, para lhes assegurar direitos fundamentais e uma vida digna, mas que é uma excrescência a retirar da vida pública. Também já se conseguiu convencer as populações que não há sustentabilidade para um sistema de segurança social e para um sistema nacional de saúde. Ou seja, a assistência na velhice e na saúde depende dos rendimentos de cada um.


 


Estamos portanto a construir uma sociedade em que o trabalho é um privilégio e que as perspetivas de desenvolvimento individual, com um mínimo de segurança e qualidade, só está ao alcance de um pequeno grupo de indivíduos, sem se perceber o porquê dessa diferenciação. A falta de pudor de algumas declarações dos novos senhores do mundo é avassaladora e as hordas de jovens sem futuro sustentado avolumam-se.


 


O populismo e os discursos moralistas foram apenas uma estratégia da direita para chegar ao poder. Por isso a revolta é ainda maior, quando se assistem a discursos de personalidades como o Presidente da República, o Governador do Banco de Portugal, Eduardo Catroga ou Manuela Ferreira Leite, advogando a maior austeridade para quem já está no fundo da escala e no mínimo dos rendimentos, enquanto eles próprios usufruem das exceções. Em Portugal as exceções penalizam sempre os mais desfavorecidos e os mais carenciados.


 


O pior é que, nem interna nem externamente se vislumbram ideias nem força para as defender, pessoas que se recusem a esta triste globalização da desigualdade e do empobrecimento.


 


Resta-nos continuar. E reagir, nem que seja a escrever.


 


(*) - filme de Ingmar Bergman 


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...