26 novembro 2011

Para combater a crise (5)

 



 


É difícil caracterizar a música de Rodrigo Leão. Com uma melancolia intrínseca, faz-me evocar uma viagem contínua, as roupas tristes de um circo que se quer alegrar, os ciganos andarilhos, uma quietude desinquieta de uma alma sem descanso.


 


O espectáculo de hoje, no CCB, foi excelente com a apresentação do novo cd e alguns temas dos anteriores, soberbamente tocados. Houve um momento menos feliz, em que Thiago Pethit entrou fora de tempo e fora de tom na maravilhosa canção Rosa. Pelo menos assim me pareceu. O écran com algumas cenas a ilustrarem dois ou três temas também me pareceram dispensáveis.


 


Tudo o resto foi excelente. Fica aqui uma canção do novo trabalho.


 



 

Igualdade

 



 


Há umas horas fui abordada por um vendedor da revista Cais. Lourinho, bonitinho, oriundo de algum dos países da Europa de Leste, pediu-me um pacote de fraldas para a sua criança de ano e 3 meses. Satisfiz-lhe o pedido.


 


Mas será que se fosse mulato, negro ou cigano, se fosse gordo e sem dentes, a minha disponibilidade era tão imediata? Gostaria de pensar que sim, estou tentada a ter a certeza de que responderia prontamente da mesma forma, mas não o afirmo assim, sem pestanejar.


 


O racismo e a xenofobia são-nos mais intrínsecos do que gostaria de admitir. Na verdade somos conduzidos por estereótipos e por imagens feitas, por muito que reciclemos aquilo a que chamamos valores de igualdade, fraternidade, solidariedade. E eu, que sei que todos somos exactamente iguais, filhos do mesmo número de cromossomas, com engenharias celulares semelhantes, que respiramos a mesma mistura de gases, que necessitamos dos mesmos alimentos, será que me despojei dos condicionalismos que, mesmo inconscientemente, subsistem arreigados no mais fundo de nós mesmos?


 

Para combater a crise (4)

 



 


À falta de uma gravação em directo, ontem, no CCB, durante o espectáculo que foi ouvir Mário Laginha, Pedro Burmestyer e Bernardo Sassetti, cada qual e em conjunto ao piano, deixo esta Rosa, de Pichinguinha, magistralmente interpretado, tal como o foi ontem, pelos três pianistas.


 



 

Para combater a crise (3)

 


 



Alexandra Malheiro


Geografias Dispersas


 


A queda


 


Sobrevive-se a tudo


ou quase tudo,


ao vento assobiando nos ciprestes,


à tempestade aquartelada


nos teus olhos,


às indecisões do teu corpo.


Tudo,


ou quase tudo,


apenas à queda da magnólia


não.


 


Nunca nenhuma flor


sobreviveu.


 

23 novembro 2011

Um dia como os outros (103)


Um Novo Rumo


 


Este é o momento de mobilizar os cidadãos de esquerda que se revêem na justiça social e no aprofundamento democrático como forma de combater a crise.



Não podemos assistir impávidos à escalada da anarquia financeira internacional e ao desmantelamento dos estados que colocam em causa a sobrevivência da União Europeia.

A UE acordou tarde para a resolução da crise monetária, financeira e política em que está mergulhada. Porém, sem a resolução política dos problemas europeus, dificilmente Portugal e os outros Estados retomarão o caminho de progresso e coesão social. É preciso encontrar um novo paradigma para a UE.

As correntes trabalhistas, socialistas e sociais-democratas adeptas da 3ª via, bem como a democracia cristã, foram colonizadas na viragem do século pelo situacionismo neo-liberal.

Num momento tão grave como este, é decisivo promover a reconciliação dos cidadãos com a política, clarificar o papel dos poderes públicos e do Estado que deverá estar ao serviço exclusivo do interesse geral.

Os obscuros jogos do capital podem fazer desaparecer a própria democracia, como reconheceu a Igreja. Com efeito, a destruição e o caos que os mercados financeiros mundiais têm produzido nos últimos tempos são inquietantes para a liberdade e a democracia. O recente recurso a governos tecnocratas na Grécia e na Itália exemplifica os perigos que alguns regimes democráticos podem correr na actual emergência. Ora a UE só se pode fazer e refazer assente na legitimidade e na força da soberania popular e do regular funcionamento das instituições democráticas.

Não podemos saudar democraticamente a chamada “rua árabe” e temer as nossas próprias ruas e praças. Até porque há muita gente aflita entre nós: os desempregados desamparados, a velhice digna ameaçada, os trabalhadores cada vez mais precários, a juventude sem perspectivas e empurrada para emigrar. Toda essa multidão de aflitos e de indignados espera uma alternativa inovadora que só a esquerda democrática pode oferecer.

Em termos mais concretos, temos de denunciar a imposição da política de privatizações a efectuar num calendário adverso e que não percebe que certas empresas públicas têm uma importância estratégica fundamental para a soberania. Da mesma maneira, o recuo civilizacional na prestação de serviços públicos essenciais, em particular na saúde, educação, protecção social e dignidade no trabalho é inaceitável. Pugnamos ainda pela defesa do ambiente que tanto tem sido descurado.

Os signatários opõem-se a políticas de austeridade que acrescentem desemprego e recessão, sufocando a recuperação da economia.

Nesse sentido, apelamos à participação política e cívica dos cidadãos que se revêem nestes ideais, e à sua mobilização na construção de um novo paradigma.

Mário Soares, Isabel Moreira, Joana Amaral Dias, José Medeiros Ferreira, Mário Ruivo, Pedro Adão e Silva, Pedro Delgado Alves, Vasco Vieira de Almeida,Vitor Ramalho

Lisboa, 23 de Novembro de 2011

Não farei greve

 


Não farei greve.


 


Não porque não saiba da manipulação e dos embustes que conduziram esta maioria ao poder. Não porque não perceba o desmantelamento do estado como servidor público e garante dos direitos de todos os cidadãos, assente na dignidade intrínseca ao ser humano. Não porque confie nesta direita conservadora que varre a Europa, e que entende a vivência da crise como a volta ao passado, do Portugal pobre, isolado, pouco qualificado, cinzento e infeliz. Não porque defenda a teocracia d'Os Mercados, em que as instituições democráticas são substituídas por quem nunca se dispôs a enfrentar a escolha popular, por quem vilipendia a atividade política e a cola abusivamente à corrupção. Não porque aceite a precariedade no emprego, a falta de oportunidades, a desigualdade e a revoltante caridadezinha que percorre a ideia do estado caritativo, renovado por este governo.


 


Não farei greve.


 


Porque do que precisamos é de olhar em frente e trabalhar, muito, bem, com qualidade e eficiência, em todas as áreas em que pudermos, a aprender outras competências, a sermos mais exigentes e menos contemplativos, a premiarmos os melhores e a punirmos quem merece ser punido, a deixarmos as queixas, a engolirmos as lágrimas, a não termos medo.


 


Não farei greve.


 


Amanhã será mais um dia em que respeitarei quem a fará, em que questionarei a ausência de serviços mínimos, a ausência de contratos de trabalho para quem é produtivo, a ausência de despedimento, na função pública ou na privada, de quem não cumpre, a morosidade da justiça, o enorme desperdício de talentos, de recursos, o desinvestimento na escola pública, na saúde, na cultura, a redução salarial de alguns, a fuga ao fisco, a privatização de tudo a todo o custo, as queixas dos bancos, a prepotência de Angela Merkel. Amanhã respirarei a minha frustração mas trabalharei, o melhor que posso e sei, porque precisamos de trabalhar, nesta altura e em todas, mais que nunca. Amanhã direi, com o meu trabalho, que não me resigno a esta modorra triste, que não me revejo nesta oposição sem nexo nem alternativa, que me revolta este sindicalismo datado, sem perspetivas e sem soluções.


 


Não farei greve.


 


Amanhã trabalharei e dignificarei o meu trabalho, o trabalho de quem não o tem e o trabalho de quem entende que a melhor forma de protesto é fazer greve.


 


Saudações revolucionárias, solidárias e discordantes.


 


Até amanhã, camaradas.


 

22 novembro 2011

Andar para trás

 



Man Ray: Dust Breething 


 


Andar para trás com os olhos fundos no chão


passo a passo sem perceber o abismo


fosso cavado pelo pó que arrasta.


Andar para trás rumo a um futuro que se nega


desdobrado em passados sem memória.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...