11 outubro 2011

Um dia como os outros (98)

 



(...) Vários dos nossos demónios da coisa pública, gente que não se importa de incendiar seja o que for para exibir uma opinião, têm por cá defendido a criminalização da política. Consoante as cores, alguns querem colocar Sócrates no banquinho, outros inclinam-se mais para lá sentar Jardim. Não se trata de fazer julgar qualquer pessoa por crimes que tenha cometido, seja presidente de câmara ou ministro; nem, por outro lado, se trata de tirar os "poderosos" das mãos da justiça. Trata-se de recusar absolutamente misturar julgamento político com tribunais. Temos repetido que isso é uma aberração, um caminho perigoso; pensamos que a tentativa de criminalizar a política é um ataque à democracia, um extremo de demagogia e de populismo que só pode piorar as condições da nossa vida em comum. Que as musas da liberdade nos salvem de cairmos nessa tentação. (...)


 


Porfírio Silva

09 outubro 2011

Alguma coisa mudou

 


Apesar da pesada derrota do PSD na Madeira, Alberto João Jardim mantém a maioria absoluta no Parlamento. PS, PCP e BE sofreram também enormes derrotas. Pelo contrário, o CDS afirma-se como a segunda força política.


 


Não sei o que vai acontecer, mas alguma coisa está a mudar.


 

Pelo cansaço

 



Romare Bearden: Uptown Sunday Night Session


 


Vencemos pelo cansaço os dias que nos ensinam a temer.


Vencemos pela paixão que não nos segura


a mão que oferecemos a mão que agarramos


a conversa antes do café da manhã


alguém a quem passas o que também te falta.


Vencemos pela consistência das certezas impensáveis


apenas o amor a beleza que nos une


apenas duas palavras para decidir que o outro


importa muito mais que a tua queixa.


Vencemos pela solidão do silêncio


com que abrimos a porta e convidamos a entrar.


 


Vencemos pelo cansaço os dias que nos ensinam a temer


e que nós sabemos glorificar.

Caso arrumado

 



Ana Moura


 


 


Não te via há quase um mês


Chegaste e mais uma vez


Vinhas bem acompanhado


Sentaste-te à minha mesa


Como quem tem a certeza


Que somos caso arrumado


 


Ela não me queria ouvir


Mas tu pediste a sorrir


O nosso fado preferido


Fiz-te a vontade, cantei


E quando à mesa voltei


Ela já tinha saído


 


Não é a primeira vez


Que começamos a três


Eu vou cantar e depois


O nosso fado que eu canto


É sempre remédio santo


Acabamos só nós dois


 


Eu sei que tu vais voltar


P'ra de novo eu te livrar


De um caso sem solução


Vou cantar o nosso fado


Fica o teu caso arrumado


O nosso caso é que não

Memórias

 



Paul De Koninck Lab 


 


Lembramos o sabor do gelado, numa manhã de Inverno, as lágrimas do irmão, acusado injustamente, o profundo cheiro amedrontado da sala de recobro. Lembramos o gesto preciso de guardar uma chave, os dedos presos no puxador da gaveta atravancada, mas esquecemos de imediato os dias seguintes, o retirar da mesma chave da mesma gaveta, um buraco no tempo que não conseguimos preencher. Lembramos vividamente circunstâncias e situações que comprovadamente não se passaram daquela exata forma.


 


Memórias construídas pela observação e aprendizagem do que se passou depois. Memórias construídas pelos estímulos emocionais que, ao desencadearem cascatas de sinalização, secreções proteicas e alteração espacial das sinapses, nos levam a lembrar atitudes, sorrisos e sensações, nem sempre correspondentes àquelas que, após um lapso temporal e a ausência de repetição dos mesmos estímulos, nos fazem olhar para a realidade com a memória apagada, distorcida, diferente.


 


Não existem boas testemunhas, pessoas que sejam capazes de reproduzir em documentário a ocupação do seu espaço e do espaço envolvente, pela sua vida e pela dos outros, baseada em acontecimentos. Mesmo no registo documental, os ângulos com que se olha, a abertura do diafragma, a inclinação da objetiva, estão condicionadas pela nossa memória.

08 outubro 2011

Fast speech

 


Antes da queda do governo, antes da não aprovação do famoso PEC IV, muitos foram os que se encarniçaram a adivinhar a urgência do pedido de ajuda externa ao FMI. Tanto que, na minha opinião, ajudaram a realizar a profecia. Estamos agora perante as mesmas ânsias: tanto se vaticina a próxima bancarrota que ela será cada vez mais provável. O Bastonário da Ordem dos Médicos junta agora a sua voz aos que já antecipam como certa a nossa insolvência.


 


Eu até acho que o Bastonário da Ordem dos Médicos, pela notoriedade da sua função, deveria ter um papel ímpar na redução dos gastos supérfluos, no combate ao desperdício, na utilização criteriosa dos parcos recursos do Estado, imprescindíveis à sustentabilidade do SNS.


 


Para isso seria interessante ouvi-lo lembrar o papel determinante de uma boa história clínica, do apuramento detalhado das queixas dos doentes, do registo dos sintomas e dos sinais, dos antecedentes de saúde e familiares, das virtudes de um exame físico completo, da auscultação pulmonar, cardíaca, da palpação abdominal. Gostaria de o ouvir em conferências e artigos enfatizar a necessidade de estudar as várias hipóteses diagnósticas antes de requisitar inúmeros RX, TAC, endoscopias, com e sem biopsias, e análises múltiplas, de informar os colegas que fazem e têm que interpretar os resultados dos meios complementares de diagnóstico sobre as suas certezas e incertezas, do debate multidisciplinar prévio às decisões terapêuticas e prescrições medicamentosas, para além do imperioso cuidado com super medicação.


 


Penso que o Bastonário da Ordem dos Médicos poderia ajudar imenso se lembrasse a todos os profissionais que as tecnologias informáticas são uma ajuda preciosa para ganhar tempo e reduzir custos, que a utilização sistemática dos correios electrónicos aumenta a rapidez e a eficácia da comunicação, eliminando horas de espera, telefonemas repetidos, interrupções de trabalho inoportunas, gasto de papel inconsequente. Poderia ainda motivar todos os médicos a renderem-se ao benefício inequívoco das requisições, das prescrições e dos processos clínicos electrónicos.


 


O Bastonário da Ordem dos Médicos seria, com certeza, um excelente aliado do SNS e da defesa da saúde dos portugueses, mesmo poupando-os a novos impostos sobre fast food e a ironias quanto à bondade da promoção do consumo do tabaco.




 

Leite e mel

 



Ledray: Milk and Honey (detail)


 


Aguardo que me escorra leite e mel


promessas sem compromisso destinos acordados


noites molhadas de mãos perdidas


aguardo alvoradas ardentes


virgens de vícios e decepção


ausência de mitos ensinados


vida tão mais aguda e decidida


que a sua múltipla negação.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...