09 setembro 2011

Das crónicas de Verão

 


Obrigatoriamente teremos que falar das praias, do calor, da falta de água, do pó, dos cremes, das irritações de pele, das sestas, dos filmes pirosos, das crianças embirrentas, do enorme luar, das gaivotas, das ondas que faltam, do sal, do mar, das pontes, dos barcos, do peixe grelhado, das saladas, das dietas, das unhas dos pés às cores, das sandálias, dos saldos, do suor, dos gelados, dos aperitivos, da enorme quantidade de falta de assunto.


 


Obrigatoriamente teremos que ter listas de livros para ler, listas de filmes para ver, listas de exposições para apreciar, listas de museus para visitar, listas de poemas para citar, listas de coisas imateriais que sempre adorámos mas não praticamos.


 


Obrigatoriamente teremos que nos lembrar como dantes era melhor, mais fácil, mais autêntico, mais natural, mais barato, o peixe mais vivo, o sol mais calmante, a sombra mais fresca, os homens mais galantes, as mulheres mais ativas, os filhos mais obedientes, as trouxas mais variadas, o vinho mais abundante, os estrangeiros mais gastadores, o mar mais apetitoso, a alface mais verde, os dias maiores, do tempo que lembramos distante e diferente do real.


 


Obrigatoriamente teremos que nos queixar do trânsito, do trabalho, do Inverno, do trabalho, dos colegas, do trabalho, do chefe, do trabalho, dos hipermercados apinhados, do trabalho, do preço da gasolina, do trabalho, da falta de transportes públicos, do trabalho, das mentiras dos políticos, do trabalho, da família, do trabalho, da violência, do trabalho, da solidão, do trabalho, da fome, do trabalho, do mundo virado do avesso, do trabalho.


 


Obrigatoriamente teremos que suspirar pelas futuras férias, pelo futuro lazer, pela futura cultura, pelo futuro descanso, sem que nos lembremos do gozo de podermos falar, queixar, sofrer, sonhar, crescer, trabalhar, incumprir, adiar, comer, dormir, usar o corpo e a alma e viver, sem horas ou estações definidas e marcadas, mas todos os dias.


 


Revista-Me 03


 

Em defesa do SNS

 


Vale a pena ouvir a totalidade da 1ª audição do Ministro Paulo Macedo na Comissão Parlamentar de Saúde (disponível no Canal Parlamento).


 


Pela primeira vez desde há muito tempo, tive oportunidade de ouvir um governante responder concretamente às perguntas que lhe foram colocadas, independentemente da assertividade e/ou pertinência (a grande maioria) das mesmas. Paulo Macedo, serenamente e sem floreados, explicou vários aspetos dos cortes anunciados em despachos, da redução dos incentivos para os transplantes, e falou da sua perspetiva e das perspetivas que o país pode ter em relação à pasta da saúde e às medidas de sustentabilidade do SNS.


 


O ministro afirmou perentoriamente algumas coisas que considero muito importantes:



  • Que o governo e este ministério têm o objetivo de manter o SNS como eixo fundamental do sistema, universal e tendencialmente gratuito.

  • Que as taxas moderadoras não serão indexadas aos rendimentos – fiquei ainda a saber que as instituições do SNS apenas conseguem cobrar cerca de 1/3 das taxas ao universo da população que não está isento (o que corresponde a menos de metade dos utentes do SNS).

  • Que não houve pedidos de transmissão de dados de saúde dos utentes para fora do SNS, e que o ministério está a estudar uma forma de cumprir as recomendações da CND em relação a este assunto.

  • Que se pretende rentabilizar ao máximo a capacidade instalada no SNS para a realização dos meios complementares de diagnóstico e terapêutica (MCDT).

  • Que a redução dos incentivos aos transplantes não tem rigorosamente nada a ver com a redução da atividade – os sistemas existentes eram mistos, havendo médicos que faziam transplantes sem receberem qualquer remuneração extra por esse facto (convém lembrar a polémica de há 4 anos precisamente por causa dos incentivos ao programa de transplante hepático, que levou inclusivamente à demissão de Eduardo Barroso) – fiquei ainda a saber que, este ano, apesar do número de transplantes já efetuados, não havia orçamentação para essa atividade.

  • Que também não havia orçamentação para o financiamento dos cuidados continuados.

  • Que se vai insistir numa melhor fiscalização das PPP por parte do estado lembrando que há exigências para os hospitais privados que não há para os públicos (facto que não se percebe).


 


Fiquei com muita esperança neste Ministro da Saúde. Para defender o SNS não basta fazer juras de amor eterno ou inflamados depoimentos ideológicos. O que é necessário é tomar medidas concretas que assegurem a sua sustentabilidade, de forma a manterem-se a universalidade, a acessibilidade e a qualidade dos serviços prestados.


 


Não posso concordar, no entanto, com a abolição da comparticipação nos medicamentos contracetivos. É uma medida que objetivamente irá contribuir para um maior número de gravidezes adolescentes com consequente aumento de interrupções voluntárias de gravidez. Pelo contrário deveriam ser tomadas todas as medidas para que melhorasse o planeamento familiar. Todos sabemos que a manutenção da dispensa gratuita nos Centros de Saúde não garante que haja capacidade desses contracetivos estarem facilmente acessíveis. Se todas as mulheres recorressem aos Centros de Saúde sempre que precisassem de comprar uma pílula, não só estes ficariam ainda mais sobrelotados como se perderiam inutilmente horas de trabalho gastas em consultas. Além disso é uma medida que assume um cunho e um peso ideológico, é um retrocesso civilizacional.


 


Em relação á prevenção do cancro do colo do útero, a alteração da comparticipação das vacinas fora dos centros de saúde poderão não a comprometer, pois mantêm-se no Plano Nacional de Vacinação. É essencial que sejam implementados a nível nacional programas de rastreio de base populacional, realizado com citologias e tipagem de HPV, método verdadeiramente eficaz na deteção de lesões malignas e pré malignas do colo do útero.


 


Espero sinceramente que este Ministro realize as medidas a que se propõe, desde que seja capaz de perceber que os cortes e as reduções deverão ser adaptadas aos hospitais, serviços e centros de saúde na exata proporção que se adeque a cada um.


 


Nota (10/09): Espero que estas notícias não sejam o espelho de uma estratégia que já foi usada pelos anteriores governos: lançar notícias para ver as reações e depois recuar. Se não for o caso, saúdo o fato de ainda não existirem decisões definitivas.

04 setembro 2011

Referendar a Constituição

 


António Barreto tem uma causa que lhe é muito cara - a refundação da Constituição.


 


Concordo com ele quando se refere ao facto da Lei Fundamental de ter demasiada carga ideológica, de estar datada, de ser muito longa e com grandes especificidades, e de ser um direito geracional a redacção e aprovação de uma Constituição. Por isso me espanta a sua defesa de uma imposição de limites constitucionais à dívida e ao défice - parece-me um assunto bastante específico


 


Mas ainda mais espantosa é a forma de apresentação, discussão e aprovação que preconiza - referendar o texto constitucional. Será que António Barreto deixou de acreditar na democracia representativa? Será que António Barreto se esqueceu da afluência às urnas em cada um dos três actos referendários da nossa era democrática?

Novos descobrimentos - as condicionantes externas

 


Os Ministros deste governo descobrem coisas todos os dias. Passos Coelho descobriu agora que é difícil prometer muitas coisas, nomeadamente o não aumentar impostos em 2012, por causa das condicionantes externas, que só apareceram a partir de 5 de Junho. Até lá, apenas a incúria, a incompetência e a teimosia de Sócrates e de Teixeira dos Santos, que tinham jurado levar o país à bancarrota, eram responsáveis pela difícil situação em que nos encontramos.


 


E no entanto, mesmo com as condicionantes externas e as suas incertezas, o Primeiro-ministro vaticina para 2012 o princípio do fim da emergência nacional. Há cerca de 2 anos também Sócrates arriscou previsões e falhou. Passos Coelho não aprendeu a lição.

O descobrir da dívida encoberta - novos episódios

 


Não demorou muito até se descobrirem as facturas por pagar que o Ministro Miguel Relvas descobriu numa sala fechada. Os 6,78 milhões de dívidas, por 687 facturas não cobradas e escondidas, afinal resumem-se a 40, que estão em processo de auditoria por levantarem dúvidas.


 


Estou à espera que os jornalistas, comentadores e responsáveis políticos antigos e modernos comecem a vociferar, pedindo a demissão do Ministro.


 


Adenda (10/09) - as notícias contraditórias somam-se e o mistério adensa-se - há ou não facturas por cobrar, escondidas numa sala fechada?



02 setembro 2011

September in the rain

 



 


The leaves of brown 
Came tumblin' down, remember
In September in the rain

The sun went out 
Just like a dying ember
That September in the rain

To every word of love 
I heard you whisper
The raindrops seemed to play 
A sweet refrain

Though spring is here, 
To me it's still September
That September in the rain

To every word of love 
I heard you whisper
The raindrops seemed to play 
A sweet refrain

Though spring is here, 
To me it's still September
That September in the rain
That September in the rain

Um dia como os outros (95)

 



"Estas medidas põem o país a pão e água. Não se põe um país a pão e água por precaução."


"Estamos disponíveis para soluções positivas, não para penhorar futuro tapando com impostos o que não se corta na despesa."


"Aceitarei reduções nas deduções no dia em que o Governo anunciar que vai reduzir a carga fiscal às famílias."


"Sabemos hoje que o Governo fez de conta. Disse que ia cortar e não cortou."


"Nas despesas correntes do Estado, há 10% a 15% de despesas que podem ser reduzidas."


"O pior que pode acontecer a Portugal neste momento é que todas as situações financeiras não venham para cima da mesa."


"Aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos."


"Vamos ter de cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos."


"Ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam. Os que têm mais terão que ajudar os que têm menos."


"Queremos transferir parte dos sacrifícios que se exigem às famílias e às empresas para o Estado."


"Já estamos fartos de um Governo que nunca sabe o que diz e nunca sabe o que assina em nome de Portugal."


"O Governo está-se a refugiar em desculpas para não dizer como é que tenciona concretizar a baixa da TSU com que se comprometeu no memorando."


"Para salvaguardar a coesão social prefiro onerar escalões mais elevados de IRS de modo a desonerar a classe média e baixa."


"Se vier a ser necessário algum ajustamento fiscal, será canalizado para o consumo e não para o rendimento das pessoas."


"Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português."


"A ideia que se foi gerando de que o PSD vai aumentar o IVA não tem fundamento."


"A pior coisa é ter um Governo fraco. Um Governo mais forte imporá menos sacrifícios aos contribuintes e aos cidadãos."


"Não aceitaremos chantagens de estabilidade, não aceitamos o clima emocional de que quem não está caladinho não é patriota"


"O PSD chumbou o PEC 4 porque tem de se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento."


"Já ouvi o primeiro-ministro dizer que o PSD quer acabar com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e é um disparate."


"Como é possível manter um governo em que um primeiro-ministro mente?"


 


Conta de Twitter de Passos Coelho (@pedropassoscoelho), iniciada a 6 de Março de 2010. O último tuite transcrito é de 5 de Junho de 2011


 


rectificação: a conta de passos coelho é @passoscoelho e não, como por lapso refiro no dn, '@pedropassoscoelho'.


 


e nova rectificação: o último tuite transcrito por mim é de 1 de junho -- e, ao contrário do que pode ser o entendimento de quem lê, não é o último tuite citado no texto, mas o último em ordem cronológica. querendo ser mais precisa, criei a confusão, pelo  que peço desculpa aos leitores.


 


por qualquer motivo, confundi 1 de junho com 5 de junho, o que é duplamente idiota, já que nem poderia, em princípio, haver tuites de passos coelho a 5 de junho, por um motivo simples: tratou-se do dia das eleições. mais uma vez, as minhas desculpas. 


 


também no dn a nota final foi rectificada.


 


Fernanda Câncio

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Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...