13 agosto 2011

Populismo e hipocrisia

 


A crise existe a vários níveis. Quando se ouvem os responsáveis políticos muito preocupados em fazer comunicações ao país, declarando que prescindem das férias para trabalhar a favor da causa pública, que viajam em classe económica para poupar o estado, que aceitam responsabilidades e trabalho por escassas remunerações ou mesmo por ausência delas, que são defensores de ambientes austeros, e outras manifestações espartanas, percebe-se o vazio de tanta intenção, o populismo e a demagogia que abarca toda a classe política. Todos os dias aparecem notícias contabilizando os gastos em telemóveis, carros e viagens. Não tardará a contabilizarem-se os custos dos restaurantes, dos fatos, das maquilhagens, de todo e qualquer sinal que possa significar, para o comum dos cidadãos, apertado e descontente pela cada vez menor qualidade de vida, um privilégio obsceno.


 


Não ponho em causa a necessidade de disciplinar, prevenir e impedir o uso abusivo dos bens públicos. Nem questiono a afronta de determinados prémios e exposições alarves e bacocas de esbanjamento, para quem se sente injustiçado pelo desemprego, pelos baixos salários, pela gestão dos parcos recursos a que tem direito. Mas não me parece que o alimentar deste tipo de atitudes, que se demonstram hipócritas, revelando a falta de honestidade intelectual de quem as proclama, sabendo de antemão que apenas são encenações, ajudem ao controlo das finanças públicas, à motivação dos cidadãos ou à moralização da vida pública.

12 agosto 2011

Os limites

 


Ainda bem que a Troika assumiu que não haverá mais aumentos de impostos, este ano. Agradecimentos à Troika, que nos governa. O Ministro das Finanças, no entanto, ainda não refeito do aumento do IVA anunciado hoje, já se prepara para os novos aumentos de impostos em 2012.


 


E isto é proque há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.


 


 

Tardes

 



Martha Pettigrew


 


Assumimos cumplicidades recentes irmandades antigas



em jardins expostos de códigos


que apenas nós aceitamos.


Redigimos diários suspensos


em que as palavras desenham afectos


que apenas nós conhecemos.


Sabemos sorrir devagar


como o rumor da tarde


que apenas nós percebemos.


10 agosto 2011

O valioso tempo dos maduros

 



 


Contei meus anos
e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente
do que já vivi até agora.


 


Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas
percebendo que faltam poucas, rói o caroço.


 


Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis,
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.


 


Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário-geral do coral.
"As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos."
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…


 


Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços,
não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora,
não foge de sua mortalidade.


 


Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
o essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!


 


 


A autoria deste poema, como descobri após pequena pesquisa na internet, está sujeita a debate e polémica. Foi-me enviado por alguém que pensava ser de Mário Andrade, escritor brasileiro (1893 - 1945). No entanto encontrei um blogue em que se afirma que o autor é Mário Pinto de Andrade, escritor e político angolano (1928 - 1990). Nesse mesmo blogue Ricardo Gondim, pastor e líder da Igreja Betesda, reclama a autoria do texto, intitulado Tempo que foge, eventualmente plagiado através da internet.


 


Não sei quem tem razão. O poema é belíssimo.


 

Tumultos em Londres

 



 


Tenho visto as imagens de violência em Londres que passam repetidamente na televisão e no YouTube, com grande preocupação e revolta.


 


Tenho ouvido e lido as opiniões de várias pessoas, tentando explicar o que se passa. Todos queremos que haja explicações e culpamos a sociedade, a crise financeira, a falta de perspectivas de futuro, o desemprego, o defraudar das expectativas de gerações que não conseguem atingir aquilo que lhes foi prometido e propagandeado, o racismo, a xenofobia, todas as culpas de uma sociedade que se enche de minorias marginalizadas, de descontentamentos latentes e crescentes, que qualquer rastilho faz detonar e que os gangs de criminosos aproveitam e amplificam. Há uns anos foi Paris, agora é Londres, com passagem por Atenas. A crise europeia é económica, financeira, social e de valores. O materialismo e o consumismo desenfreado criam e alimentam excluídos que constituem um caldo de tensão constante. 


 


Mas todas essas explicações me parecem insuficientes e vazias perante a constatação de uma total ausência de noções básicas de convivência, de companheirismo, de solidariedade, de decência pura e simples. Para além dos diagnósticos já por todos efectuados, não podemos deixar de nos revoltar e de repudiar os actos criminosos e o vandalismo a que se assiste, a destruição pela destruição, o aproveitamento e o sacrifício dos mais frágeis e desamparados. Uma sociedade democrática não pode deixar de usar a força da autoridade e de pugnar pela defesa dos cidadãos, sob pena de eles próprios se transformarem em vingadores autoproclamados e de formarem novos grupos de criminosos.


 


Não podemos aceitar que seja inevitável, como não podemos desculpar a existência de monstruosidades. Seria muito importante que os líderes políticos assumissem a responsabilidade de olhar para o que se está a passar e invertessem o rumo das exigências ao comum dos cidadãos, assegurando-lhes um dos valores mais importantes para o ser humano – a paz e a segurança.


 


Nota: Vale a pena ler Ferreira Fernandes e Helena Garrido.


 

07 agosto 2011

Love is a losing game

 


 



Amy Winehouse


 


For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game

One I wish I never played
Oh what a mess we made
And now the final frame
Love is a losing game

Played out by the band
Love is a losing hand
More than I could stand
Love is a losing hand

Self professed... profound
Till the chips were down
...know you're a gambling man
Love is a losing hand

Though I battle blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned

Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game 

Manhãs como noites

 



Edward Hopper: empty room


 


1.


Manhãs como noites em lugares de anseio.


Manhãs infinitas e presas no ardor do sol que não chega.


 


2.


Os vendavais do mundo repetem-se


em brisas que não levantam areias.


Dores de encarquilhamento


dores de peso e obscura certeza de contínuo tédio.


 


3.


Restamos por dentro de horas infinitas que desgastamos


fragmentos de matéria orgânica


que segue inexorável o seu caminho.


Temos a certeza da pele e dos ossos


que se afundam ou despontam conforme as épocas


de abundância ou penúria de humores.


 


4.


Quero estar apenas só


com aquela metade de mim mesma que não conheço


mas que tolero e ignoro.


Quero estar apenas só


perante o abismo de céu


em que afogo o uso e a sensação de perda.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...