Dot Gould: Seagulls and Still Water
As gaivotas ainda não pousam na areia. Só as ondas e os chapéus-de-sol arrumados, a brisa marítima que arrepia os poucos veraneantes. Este ano a praia está mais nua e mais apetecível.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
As notícias espalham que se vai suspender para reavaliar o fecho de escolas com menos de 21 alunos. Mas são contraditórias porque não se percebe bem se só não fecham aquelas escolas que seriam agrupadas em novas instalações ainda não concluídas, ou se o governo resolveu andar para trás.
Espero bem que esta notícia não se confirme. A reorganização e a renovação do parque escolar são essenciais e as crianças das aldeias têm o direito de aprender em escolas com estabilidade de quadros de profissionais, instalações condignas, equipamentos modernos, etc. Há que racionalizar os recursos e colocá-los ao serviço de todos os cidadãos, em pé de igualdade. Há que assegurar que as crianças possam ser transportadas em segurança para as escolas, caso elas fiquem mais longínquas.
Espero sinceramente que, mesmo concordando com algumas das medidas anunciadas por Nuno Crato (revisão dos currículos, exames nacionais, aumento da exigência e rigor, manutenção da avaliação dos professores, exame de admissão na carreira, não utilização de máquinas de calcular nos 5º e 6º anos), aliás idênticas às preconizadas por Maria de Lurdes Rodrigues (com excepção das máquinas de calcular), este governo não ensaie um regresso ao passado. O passado pode regressar, mas não se repete. Por outro lado, os contratos com escolas privadas que o governo socialista queria terminar (e bem) mantém-se, em nome do falacioso argumento da liberdade de escolha.
Nas duas últimas legislaturas deram-se passos de gigante na reforma da escola pública, que ficaram aquém do que se pretendia, também por responsabilidade dos partidos agora no poder. Se Nuno Crato for favorável ao rigor e à qualidade, não quererá, seguramente, implodir o muito que se conseguiu, e que assim é avaliado por organizações internacionais.
Tudo o que Sócrates dizia era mentira. Tudo o que Sócrates fazia era incompetente, corrupto, soez, arrogante e estúpido. Tudo o que Passos Coelho diz é verdade. Tudo o que Passos Coelho faz é competente, radical, arrojado e imprescindível.
A crise internacional era uma desculpa de Sócrates. A crise internacional é uma nuvem que paira sobre o governo de Passos Coelho. O aumento dos impostos e a redução dos ordenados foram um roubo inaceitável perpetrado por Sócrates. O aumento dos impostos e a redução dos ordenados é uma medida patriótica de Passos Coelho.
A mentira tem uma face - é a de Sócrates.
A verdade tem uma face - é a de Passos Coelho.
Afinal este governo também recorre a medidas extraordinárias, após os Conselhos Europeus. Como Miguel Frasquilho disse ontem, já não sei em que canal televisivo, mesmo que nos portemos muito bem e cumpramos tudo o que temos que cumprir, a saída da crise não depende só de nós. Parece que Sócrates e o PS tinham alguma razão.
Mas isso também já não interessa. Temos novo governo e novo programa, em que se vai privatizar tudo o que for possível, recorrer à iniciativa privada sempre que for possível. Na saúde: (...) Pela garantia do acesso universal e equitativo, tendencialmente gratuito, aos cuidados e serviços de saúde incluídos no plano de prestações garantidas; (...). Resta saber e definir quais são as prestações garantidas, tendencialmente gratuitas. Receio que se faça um pacote de cuidados a que todos têm direito, os tais que são garantidos, e depois os outros são para quem pode pagar individualmente. Ou seja - uma saúde para pobres, outra para ricos. Das taxas moderadoras pretende-se (...) garantir que apenas se isenta quem realmente necessita dessa isenção (...). A forma de identificar quem realmente precisa de isenção não está explícita. Pode sempre ser através de um cartão (cartão de pobre).
Estas conversas sobre o utilizador / pagador lembram-me sempre os problemas dos pagamentos dos condomínios - quem mora no rés-do-chão não aceita pagar pelo elevador, pois nunca o utiliza(*)
A aposta nas energias renováveis evaporou-se. Os transportes públicos devem ser incentivados, mas as parcerias com os privados são para avançar.
Não tenho ilusões nem me espanto. Foi este o rumo que os eleitores escolheram.
(sublinhados meus)
Adenda: O Programa de Emergência Social, deixa às Misericórdias e à IPSS grande parte da responsabilidade de acudir às (...) crianças e idosos de famílias desamparadas e sem acesso a redes e instituições normais de apoio a que o Estado geralmente recorre (...), de forma a prover, de forma prioritária à famílias (...) alimentação, vestuário e medicamentos (...). As pessoas passam a não depender do Estado para dependerem da solidariedade dos outros. Deixam de ter direito a um mínimo para usufruirem do favor e da caridade da sociedade.
(*)Acabei de ser informada de que, por lei, quem mora no piso térreo está dispensado de pagar pelo elevador, pelo que a minha comparação não tem cabimento.
Comentário de Nuno Manuel Costa:
(...) Só estão dispensado que se o elevador não permitir o acesso a partes comuns! Se o elevador permitir, por exemplo, aceder ao terraço, os condóminos do rés-do-chão têm que pagar! O Supremo Tribunal decidiu em 1983, que um condómino cujas frações possam ser servidas por determinado equipamento não fica isento de pagamento das despesas com ele relacionadas, mesmo que recuse a sua utilização!
Ou seja, o que a lei prevê é a possibilidade de utilização e não a efectiva utilização.
Consultar guia do condomínio da DECO ou n.º 4 do artigo 1424º do código civil. (...)
Ana Sofia Pereira, um nome para uma mulher, estudou argumento na Universidade Católica, do Porto. Em conjunto com outros 4 jovens, tem uma empresa Produtora de Audiovisuais – Cimbalino Filmes – que já fez 4 anos, muitos trabalhos, outros tantos projectos e alguns prémios. Trabalhadora, metódica, pacata, silenciosa, divertida, dotada de um sarcasmo muito saudável, é uma filha do Porto, dos seus 28 anos, da sua geração.
Pulgarzinha, de Pulga, de Polegar, de inha, um nome para uma escritora ([…] Não mais do que uma pulga/ ou talvez menos ainda.), escondida, clara, dolorosa, sem rede para tanta emoção, para tanta letra. Os seus poemas, em verso ou em prosa, são reflexo de uma profunda solidão ([..]Sou o parasita da solidão/ que a suga até ao tutano.// […]), dessa solidão rígida em que os poetas se prendem, sem conseguirem romper alas a não ser pela voz do poema ([…]Experimento os dedos das minhas mãos,/ testo os dedos dos meus pés,/ dobro os braços e as pernas./ Corto tudo o que já não serve./[…]). O mundo que não se abre, o tropel que entope a garganta, o mundo virado do avesso (inspirar bem fundo,/ engolir todo o mundo/ e deixá-lo ficar/ até um dia/ ser capaz de expirar.), mas devagar, composta, firme, presente, com os olhos e o silêncio que a partem ([..]E eu aqui, pequenina, de pés fincados no chão a gritar até que alguém me ouça, a esbracejar até que alguém me veja...// E daqui não saio. Daqui ninguém me tira.).
Ana Sofia Pereira olha o mundo do lado de fora dele, do lado de dentro dela. A imagética remete-nos para a esfera de uma meninice que teima em perdurar, dentro de um crescimento doloroso a que se recusa, lembrando a personagem Oskar Matzerath, do filme O Tambor (1979, realização de Volker Schlöndorff, argumento de Günter Grass), que decide parar de crescer. Os poemas centram-se no corpo para se projectarem no espaço, na luz, nas estrelas, sempre uma realidade exterior em oposição à realidade interior. Versos curtos, melodiosos, absolutamente precisos e depurados, em que as palavras são a geometria do silêncio. A procura e a incerteza do que se quer dizer, do que se quer mostrar, a crua observação da incessante busca de se transcender, faz dos poemas questões e gestos que se encontram ([…]no epicentro da mais caótica sinfonia do mundo.).
Ana Sofia Pereira, Pulgarzinha, de Pulga, de Polegar, de inha.
(Vozes de uma Estrela Distante - http://uma-estrela-distante.blogspot.com/)
Gostava de ter um caderno que lesse as palavras que giram na minha cabeça e as escrevesse no papel. Porque a minha mão tem vontade própria, a caneta escreve só o que quer, e aquilo que imagino, o que vive na minha cabeça, não fica escrito no papel. O que aqui fica, é uma colaboração entre a minha cabeça, a minha mão e a tinta da caneta. Eu não escrevi isto assim, e nunca ninguém vai ler o que eu escrevi dentro de mim.
E de um momento para o outro, mudam-me. Sem pedir licença, pegam em mim e informam-me que já não sou assim, que já não posso ser assim, que já não devo ser assim. Já não és a última da linha, a sensível, a criativa, a sonhadora... agora sou mudança, original, inovadora, independente, excêntrica, imprevisível... Agora sou aquário... sem peixes.
E por muito que os meus olhos estejam fechados,
estão abertos
à espera do próximo golpe.
Este já não me apanhará de surpresa,
de certeza...
e isso não fará a mais pequena diferença.
Sinto-me tão frágil aqui no meio de tanto ar, tanta terra, tanto mar, tanta gente, tanto respirar, tanto suor, tanto lutar, tantas lágrimas, tantos risos, tanto ir e voltar. E eu aqui, pequenina, de pés fincados no chão a gritar até que alguém me ouça, a esbracejar até que alguém me veja...
E daqui não saio. Daqui ninguém me tira.
Não mais do que o tamanho de uma pulga.
Não mais do que a coragem de uma pulga.
Não mais do que a força de uma pulga.
Não mais do que a vontade de uma pulga.
Sou o parasita da solidão
que a suga até ao tutano.
Não mais do que uma pulga
ou talvez menos ainda.
Há tanto para ver aqui que as palavras atrasam-se a chegar e, quando chegam, já eu cá não estou. Fica apenas este espaço em branco, nem eu que já não estou, nem as minhas palavras que não chegaram a ser. E descubro, não sem surpresa, que onde finalmente me encontro é onde nunca estive, onde as minhas palavras não chegaram, na descoberta de mim no epicentro da mais caótica sinfonia do mundo.
Que sorriso foi esse
que estranhaste nos meus lábios?
Todos os dias ponho um diferente
e ensaio um novo olhar.
Experimento os dedos das minhas mãos,
testo os dedos dos meus pés,
dobro os braços e as pernas.
Corto tudo o que já não serve.
Reinvento-me,
reencontro-me
e já não sou eu...
Mas aquele sorriso,
o tal que tu estranhaste,
esse,
esse, já é o meu!
Intervalo do Meu Mundo
inspirar bem fundo,
engolir todo o mundo
e deixá-lo ficar
até um dia
ser capaz de expirar.
Economia, ou actividade económica - Produção, distribuição e consumo de bens e serviços, e repartição de rendimentos
do gr. Oikonomía - direcção de uma casa
Poesia, ou género lírico, ou lírica - Uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos; carácter daquilo que, por ser considerado belo ou ideal, desperta uma emoção ou sentimento estético
do gr. Poíesis - acção de fazer alguma coisa
Produzimos palavras cobertas de silêncio, dedilhadas mecanicamente pelas teclas, com a mais alta tecnologia da solidão. Não deduzimos medo nem paixão, consumimos a própria alma, devagar ou subitamente, ressuscitando e regurgitando o poema, repetido e inacabado eternamente. Servimos letras em dedais de espuma, sempre e teimosamente esticados com os arames que seguram a dignidade. E sonhamos com a distribuição do sonho, em catadupas ou milimetricamente, na medida do que nem sequer sabemos que existe.
De bens, ou de bem, essa verdade ou necessidade ou actividade ou representação do real. Do bem que não sabemos definir, a economia complicada das redes multiplicadas pelos sorrisos. Economicamente achamos bem ou somos o mal, com ou sem a qualidade do demo, desprezados sem utilidades nem uso conhecido, deixamos os números das certezas para quem serve, para quem se quer curto e certo.
Precisamos da língua, como órgão do som e da palavra nesta Babel mundial em torre cada vez mais alta, que a globalização não destrói. Órgão muscular que dança e se contorce na produção fonética das emoções com lágrimas, com rugas, com pedras. Precisamos da mordedura sensual da palavra, das cores inimagináveis que as palavras pintam entre a gente amassada, amarfanhada, lisa, estática, enorme, das telas brancas que riscam sem pedir razões, das máscaras que cobrem na forma, na rima, nas folhas, paredes, palcos personagens duplas e triplas desdobradas em pétalas ou cimento.
Não uma das sete mas todas as sete, nove ou treze artes, não sei se cabalísticas ou precisas, a poesia não rima, não cede, não se troca, mas diz-se, sente-se, ouve-se, sem género nem lírica, bem de consumo lento, ao serviço dos bens maiores, distribuindo arrepios, assim se consome, uma economia totalmente privada mesmo que pública, mista e mística, filosofia em estado puro.
Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...