27 junho 2011

A Poesia Rima com quê? Com Economia?

 



 


Economia, ou actividade económica - Produção, distribuição e consumo de bens e serviços, e repartição de rendimentos


do gr. Oikonomía - direcção de uma casa


Poesia, ou género lírico, ou lírica - Uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos; carácter daquilo que, por ser considerado belo ou ideal, desperta uma emoção ou sentimento estético


do gr. Poíesis - acção de fazer alguma coisa


 


Produzimos palavras cobertas de silêncio, dedilhadas mecanicamente pelas teclas, com a mais alta tecnologia da solidão. Não deduzimos medo nem paixão, consumimos a própria alma, devagar ou subitamente, ressuscitando e regurgitando o poema, repetido e inacabado eternamente. Servimos letras em dedais de espuma, sempre e teimosamente esticados com os arames que seguram a dignidade. E sonhamos com a distribuição do sonho, em catadupas ou milimetricamente, na medida do que nem sequer sabemos que existe.


 


De bens, ou de bem, essa verdade ou necessidade ou actividade ou representação do real. Do bem que não sabemos definir, a economia complicada das redes multiplicadas pelos sorrisos. Economicamente achamos bem ou somos o mal, com ou sem a qualidade do demo, desprezados sem utilidades nem uso conhecido, deixamos os números das certezas para quem serve, para quem se quer curto e certo.


 


Precisamos da língua, como órgão do som e da palavra nesta Babel mundial em torre cada vez mais alta, que a globalização não destrói. Órgão muscular que dança e se contorce na produção fonética das emoções com lágrimas, com rugas, com pedras. Precisamos da mordedura sensual da palavra, das cores inimagináveis que as palavras pintam entre a gente amassada, amarfanhada, lisa, estática, enorme, das telas brancas que riscam sem pedir razões, das máscaras que cobrem na forma, na rima, nas folhas, paredes, palcos personagens duplas e triplas desdobradas em pétalas ou cimento.


 


Não uma das sete mas todas as sete, nove ou treze artes, não sei se cabalísticas ou precisas, a poesia não rima, não cede, não se troca, mas diz-se, sente-se, ouve-se, sem género nem lírica, bem de consumo lento, ao serviço dos bens maiores, distribuindo arrepios, assim se consome, uma economia totalmente privada mesmo que pública, mista e mística, filosofia em estado puro.


 


em Revista-Me nº 02


 

26 junho 2011

Primeira semana

 


Os detractores de Sócrates e do governo anterior, a totalidade dos partidos que não o PS, e mesmo dentro deste, não comentam agora a necessidade de mais PECs, conforme Passos Coelho anunciou, secundado por Miguel Relvas, após o Conselho Europeu. Afinal estes anúncios e estas medidas são mais ditadas pela vontade da União Europeia do que pela dos chefes do governo, como sempre o souberam os partidos políticos, à esquerda e à direita do PS.


 


No PS a luta pela liderança parece estar já decidida. Infelizmente mal decidida, pois António José Seguro vai dando sinais de que não aprendeu nada com os erros da anterior oposição ao seu partido. Pelos vistos para ele fazer oposição é dizer que não, seja lá ao que for: não aceita fazer uma revisão constitucional? Porquê? Não é precisa? Critica os planos de austeridade do governo? E então? Quais são as suas alternativas?


 


Valha-nos (São) Francisco (de) Assis.


 

Concerto de Brandenburgo N º 4 em Sol maior


J. S. Bach & Café Zimmermann

 

25 junho 2011

Trocas

 



Mrinalini Mukherjee: lava


 


Troco as palavras pelos dedos pelos olhos pela boca


troco de língua de roupa de cama


troco os passos pelos dias os atalhos pelos riscos


troco de mãos de sangue de cor de forma de ser.


 


Troco tudo e que se troca


até de mim


mas de ti não.


 

24 junho 2011

Populismo

 


A anunciada medida de trocar os lugares em executiva por lugares em económica, nos voos europeus, de Passos Coelho e de todo o governo, não é mais do que demagogia e populismo. É claro que, mais cedo ou mais tarde, este tipo de propaganda estala nas mãos de quem a incentivou. Neste caso, se isto for verdade, foi bem mais cedo.


 

Irreversível

 



Ronald Rae: Widow Woman 


 


A face enrugada e os lábios engolidos pela falta de dentes, querida face de quem me é tudo e me deu tudo, de quem me olha confiante e eu sem saber se sou de confiar. O abandono do corpo tão grande como a entrega da alma serena e sem reservas, olhos sorridentes e um pouco assustados, a fala da quase criança em que nos transformamos, de tantos os anos, iguais aos nascituros.


 


Querida face enrugada de quem me é tudo e me deu tudo, de quem me olha como se a vida se tornasse reversível.


 

23 junho 2011

Os limites da democracia

 



 


A propósito da Grécia, das dívidas, dos pacotes de austeridade e do afundamento do projecto europeu, assim como da subversão dos princípios democráticos, pela redução das opções de escolha dos cidadãos, vale a pena ouvir Maria João Rodrigues, entrevistada por Paulo Tavares (TSF).


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...