The Benny Goodman Orchestra
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Cavaco Silva é, de novo, Presidente da República. Foi eleito democraticamente, pelo que democraticamente aceitamos a vontade expressa livremente nas urnas.
Embora não seja surpresa é, para mim, uma desilusão. Manuel Alegre, como se esperava, não entusiasmou o eleitorado do centro-esquerda. A sua postura e prestação durante os últimos anos ditaram este resultado. O PS fez mal em ter apoiado a sua candidatura.
Temos, portanto, a vitória de uma visão de Portugal e dos portugueses, quanto a mim minimalista, conservadora e ultrapassada. Venceu o imobilismo e o Portugal bolorento. Esperemos que, daqui a 5 anos, haja uma verdadeira disputa eleitoral. Espera-nos um ano de instabilidade, com o PSD e o CDS a fazerem os cálculos para uma próxima legislatura. Veremos se o PCP e o BE estão dispostos a viabilizar os anseios do PSD.
É lamentável que a mudança para o Cartão do Cidadão não tenha acautelado o conhecimento imediato e fácil do número de eleitor. Mas mais lamentável ainda é tentar usar-se essa ineficiência, porque de ineficiência se trata, como argumento e desculpa para o aumento da abstenção.
Só não vota quem não quer votar e é bom que cada um de nós assuma a sua decisão. Mas para quem vê filas enormes para entregar o totoloto, para comprar bilhetes para concertos ou jogos de futebol, é ridículo invocar as filas para conhecer o número de eleitor como dissuasoras do voto.
É sempre mais fácil acusar o governo, o Estado, Deus ou "eles" do que alguém assumir que não tem opinião ou que não a quer ter.
Não há frio, vento, chuva, sol abrasador ou nevoeiro pesado que me impeça de votar. Votar é uma festa, um orgulho, um acto de cidadania. Votar é ter uma palavra a dizer sobre o nosso destino colectivo.
A democracia tem como base o poder das pessoas, do povo, do todo e de cada um de nós. As eleições são um dos momentos chave do regime democrático. Cada voto conta.
ADENDA: Não se enerve se não souber o seu número de eleitor. Basta:
Ontem, quando estacionei o carro em Lisboa e me aproximei da caixa para adquirir o ticket de parqueamento, ouvi umas buzinadelas e uns gritos de Hei! Senhora!
Virei-me espantada, sem perceber muito bem se o chamamento me era dirigido. Dentro de um carro muito velho, um homem dizia-me que não tirasse o ticket, porque o dele ainda dava para mais 1:15h. Aproveite! Quase não tive tempo de agradecer.
Aproveitei. Alguns pequenos gestos devolvem-nos, ainda que momentaneamente, a fé na verdadeira generosidade.
Manhã no Porto, sem destino nem rumo. Deambulando pela Praça Carlos Alberto e pelas ruas à volta.
Entro no Café Progresso, com a penumbra dos cafés a sério, das tertúlias, dos habituais cafés com jornais, pastelinhos a acompanhar, vida a meio ou a escorrer para tantos olhos pensativos sobre as mesas.
Um aviso aos novatos - provem o café de saco, o verdadeiro, à portuguesa. E eu provei. Café que cheira a sem tempo, com letras e com poemas, café demorado nas palavras, no sabor de não ter compromissos.
Manhã no Porto, sem destino nem rumo. Entro na Poetria, pequena, cheia de gente secreta que aqui encontra o seu lugar.
A voz do mar na boca O gume afiado do horizonte Na curva infinita do esquecimento Reconheço nos ossos A aridez da vontade Queb...