10 janeiro 2011

Vítor Alves


 


Estou totalmente fora de moda. Até na vontade que tenho de homenagear Vítor Alves, um dos militares que devolveu a liberdade e a democracia a Portugal.


 


Mas, com é costume dizer-se, o clássico nunca sai de moda. E os heróis, os verdadeiros, têm lugar cativo na nossa memória.


 

09 janeiro 2011

Do desdobramento do eu

 



Costa Pinheiro: Fernando Pessoa 


 


Tenho direito a um número de anos que não chegarão para o que queria fazer, para o que queria ser. Pudesse eu ter outras em mim que se multiplicassem, observassem o mundo, vivessem intensamente e soubessem transmiti-lo em dor e prazer.


 


Umas das vidas que gostaria de viver em paralelo e simultaneamente, era a de estudiosa de Fernando Pessoa. Pessoa inventou-se múltiplas vezes, foi nascendo e morrendo, foi médico, engenheiro naval, camponês, louro e moreno, alto e baixo, sonhador e observador, sentimental e rigoroso.


 


Breve o dia, breve o ano, breve tudo.


      Não tarda nada sermos.


Isto, pensado, me de a mente absorve


      Todos mais pensamentos.


O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,


      Que, inda que mágoa, é vida.


 


Ricardo Reis


 


E no entanto, entre Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos há um traço comum, que está para além do próprio Fernando Pessoa, ele mesmo – a eterna e constante interrogação, o olhar de fora para dentro, dissecando o pensamento nas possíveis moléculas, a viagem interior de quem tenta entender o mistério de ser um e muitos, a maravilha da criação – a dele e a do universo, a passagem do tempo e a irreversibilidade de ser o que passou, a inevitabilidade do que passou e do que virá.


 


Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre,
Lembro-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos onde se define.
A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que
distingue, uma...


 


Alberto Caeiro


 


A morte como objecto da poesia de Fernando Pessoa. Destacando-a de sentido, retira sentido também à vida, à vida que prepara a morte, pois tudo vai morrendo e passando ao longo da vida.


 


Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despejam…


 


Depois de escrever, leio…
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…


 


Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?


 


Álvaro de Campos


 


A separação do eu para o eu, o não reconhecimento do que foi, no imediato instante de o ter sido. Mais uma vez tudo é finito, tudo existe para além de si mesmo, criação de um ser ou ente que é ele e é outro exterior a ele.


 


Verdadeiramente
Nada em mim sente.
Há uma desolação
Em quanto eu sinto.
Se vivo, parece que minto.
Não sei do coração.


 


Outrora, outrora
Fui feliz, embora
Só hoje saiba que o fui.
E este que fui e sou,
Margens, tudo passou
Porque flui.


 


Fernando Pessoa


 


Vive-se sempre ao contrário do que se vive. O ser e a sua negação, o uno e o divisível.


 

Manual de sobrevivência

 



 Bailey Doogan: The Hard Place


 


Agarro as pontas do mundo, por baixo do fundo ou de cima das nuvens, sempre distante. Observo cientificamente os humores, os sentidos, as vontades, os desesperos, de uma forma mais ou menos ténue, como se nada me tocasse.


 


Trato a decrepitude do corpo, as pernas enroladas por veias nodosas, as articulações preguiçosas, os músculos doridos, as insónias constantes, a desidratação do cérebro, como um pequeno detalhe na roda dentada da vida. Mais entalhes e mais dentes, o tempo decorre aos soluços e eu desprendo-me dos restos do mundo para um fundo só meu, muito meu.


 

08 janeiro 2011

Danza ritual del fuego









Manuel de Falla: El amor brujo


Daniel Barenboim

Da incompetência

 



 


A entrevista de Judite Sousa a José Manuel Coelho é um monumento à inacreditável incompetência, soberba, enviesamento do que é o serviço público de informação.


 


Vale a pena ouvir. É vergonhoso.


 


Adenda: (...) Não tive vergonha por Coelho: não serei eu a julgar os estranhos meios a que é preciso deitar mão para resistir a tiranetes insulares. Mas tive vergonha por aquela jornalista, na televisão pública, a tentar ser mais ridícula do que um candidato que usa o ridículo como forma de guerrilha.
Quem só se agiganta perante os pequeno é por que é ainda mais pequeno.


 

Da diferença das campanhas negras

 



 


Após a releitura do post anterior torna-se necessário um esclarecimento. Não considero idênticas as campanhas de ataque ao carácter pré eleições legislativas e presidenciais. Na verdade, Sócrates foi alvo das mais descabeladas acusações, insinuações, desconfianças e insultos, a propósito de um caso fabricado por adversários políticos, versado à exaustão pelos meios de comunicação social. Esteve no centro de uma pornografia judiciária mas, mesmo depois de todo o esforço, não foi possível associá-lo a qualquer actividade criminosa. Estou a falar do Freeport. Depois veio o Face Oculta, mais uma triste actuação da nossa justiça, mais uma batalha suja entre os jornalistas independentes, mais assassinatos de carácter.


 


Em relação a Cavaco Silva, que se apresenta ao eleitorado como uma pessoa cuja integridade moral não é questionável, tanto em termos de valores como de excelência profissional, colocando-se num plano distinto dos outros actores políticos, descredibilizando a própria actividade política, abre todo o espaço para que se questione a veracidade dessa imagem.


 


Mais importante e interessante do que as acções do BPN/SLN, porque não se fala dos responsáveis pela administração do BPN? Quem são, o que fizeram, onde estão, o que têm a dizer? Não há quem investigue esses factos, ligações, comprometimentos e actos de gestão? E as instituições de supervisão, empresas de auditoria, Banco de Portugal? Não há jornalistas que se interessem por essas faces ocultas e silenciosas?


 

07 janeiro 2011

Da necessidade de uma segunda volta nas presidenciais

 


 



 


A campanha para as presidenciais não tem nada a ver com opções políticas, ideologia, desígnios nacionais e motivação. Tem a ver com ataques de carácter, tal como a anterior campanha para as legislativas, em 2009. Quem se indignou perante as suspeições levantadas sobre Sócrates, a asfixia democrática, as inventadas escutas do governo ao Presidente, as alegadas manobras do PS e dos assessores, é quem, neste momento, se refastela com as acusações e insinuações sobre a falta de honestidade de Cavaco Silva. Pelo contrário, quem protagonizou a indigna campanha contra Sócrates, indigna-se agora pela negrura da campanha contra Cavaco Silva.


 


O que a mim mais me incomoda é o que a situação das acções compradas e vendidas por Cavaco Silva, o BPN e a SLN, demonstra, se precisas fossem mais provas, que a comunicação social está totalmente a soldo dos vários poderes, neste caso dos políticos. A independência da informação não existe. As histórias do Freeport apareceram precisamente antes das eleições legislativas. A história das acções do BPN foi repescada precisamente antes das eleições presidenciais, apesar de ter sido divulgada, pelo Expresso, após a saída de Dias Loureiro do Conselho de Estado.


 


O veto político do Presidente ao diploma para simplificação dos procedimentos de mudança de sexo e de nome próprio, apenas se entende como uma manobra eleitoralista, visando agradar ao eleitorado da direita, completamente incoerente depois de, o mesmo Presidente, ter promulgado a legalização do casamento entre indivíduos do mesmo sexo.


 


Cavaco Silva pode e deve ser avaliado pela sua actuação política enquanto Presidente da República. E foi, e é, um péssimo Presidente. A sua visão da sociedade, arcaica, machista, de cunho religioso, conservador, caritativo, a sua falta de distanciamento partidário, a sua hipocrisia e maquiavelismo, que não passam desapercebidos a ninguém, são razões para a absoluta necessidade de levar Cavaco Silva a uma segunda volta.


 


Os eleitores do PS que não se revêem na candidatura de Manuel Alegre, deverão olhar para os outros candidatos e votar, em Defensor de Moura, Fernando Nobre, Francisco Lopes ou José Manuel Coelho, mas votar, para que seja possível uma outra hipótese de escolha, uma segunda oportunidade para derrotar Cavaco Silva. Deverão ainda ponderar se é este o Presidente que estão dispostos a aceitar por mais cinco anos.


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...