01 dezembro 2010

Martinho da Arcada

 



Fernando Pessoa com Costa Brochado no Martinho da Arcada


 


Depois de um fim de tarde chuvosa a correr de um lado para o outro, rumámos ao Chiado, esperando pacientemente na fila de carros que enchia a A5, o viaduto Duarte Pacheco, o Rato, as imediações da Praça Camões. Estacionamentos completos, fomos andando até à Praça do Comércio. Em frente a uma loja de chapéus, carteiras e sapatos, finalmente arrumámos a viatura às 21:30.


 


O Martinho da Arcada foi lembrado e saudado como uma excelente ideia, até pela coincidência da efeméride – aniversário da morte de Fernando Pessoa. Mal entrámos no lindíssimo restaurante, com duas ou três mesas ocupadas, fomos avisadas assertivamente que a cozinha fechava às 22:00 e o restaurante às 23:00. Teimosamente ficámos, escolhemos morcela assada, salada rica, farinheira com ovos mexidos, creme de marisco e cataplana de peixes mistos.


 


Comemos a toque de caixa, apressadas por constante recordações das horas de encerramento da cozinha e do restaurante. A última de nós chegou já depois da cozinha fechada. Comeu os restos já frios das iguarias entretanto pedidas, antes da saída do cozinheiro.


 


Também apreciámos, para além das fotografias nas paredes, das cadeiras de madeira e dos tampos de mármore, das toalhas, dos guardanapos de pano e do fardamento dos empregados, o ruidoso desmontar das mesas e da arrumação de pratos e talheres. Saímos sem sobremesa nem café, para passear por Lisboa iluminada e para a gulodice de um gelado com café.


 


Lisboa à noite, fria, luminosa, com gente pela Rua do Carmo, Praça Camões, Chiado. Gelados com café e conversa solta, até tarde.


 


O Martinho da Arcada, uma referência literária e cultural da nossa capital, maltratado pela incapacidade de chamar e acarinhar clientes. As tertúlias que se iniciaram o ano passado, para salvar da falência o café, não alteraram os hábitos de quem afugenta os possíveis comensais que, em noite de Pessoa, não se podem dar ao luxo de ali estar.


 

29 novembro 2010

Fruto proibido









Bau

Rafeiros

 



Jorge Leal


 


Se não houvesse sol, se não houvesse mar, se não houvesse esta nossa teimosia da preguiça e da modorra, do humor e da rebeldia mansa, da resistência e da greve de zelo, permanente e bem-disposta, a última oportunidade à última da hora, a solidariedade para com os malandros, se não fosse a malandragem, então é que seria bom, nós entre os grandes e poderosos, a ofertar generosamente cães de raça e rafeiros, dignos dos Obamas terrestres e dos Kennedys celestes.


 

Tudo acertado

 



 


Já está tudo pronto, arranjado, tratado. Portugal vai alterar os códigos todos, reformar a saúde, os transportes, os públicos e os privados, a justiça, a injustiça, a defesa, o ataque, os capitais, as dívidas do país e da Europa. Portugal vai reformar as reformas.


 


Já está tudo esclarecido. As bases de apoio alargaram-se, a salvação nacional desponta no horizonte, Passos Coelho, Cavaco Silva, Paulo Portas, Paulo Rangel, Pacheco Pereira, Manuela Ferreira Leite, António Borges, Miguel Frasquilho, tantos e tão bons economistas, contabilistas, técnicos que odeiam e desprezam a política, todos unidos contra a corrupção, contra a plebe ignorante e mal informada, contra o PS no geral e Sócrates em particular, contra o governo como um todo e cada um dos seus ministros, secretários de estado, assessores, administrativos e chefes de limpeza dos gabinetes, contra motoristas e alfaiates.


 


Já está tudo planeado. A Europa dos cidadãos olha do alto para os cidadãos de segunda, os tais da periferia mediterrânica que não trabalham, as cigarras esmagadas pelas formigas, os fatos a crescerem sobre as sapatilhas, os chapéus a ensombrarem os gorros e os bonés.


 


Já está tudo acertado. Acaba-se com os doentes, os velhos, os preguiçosos; os fumadores e os comilões passam a pagar impostos adicionais; os obesos pagam por quilo, os anorécticos pagam por grama. Acaba-se com os pobres e, se for preciso, também com os ricos.


 

28 novembro 2010

No meio do mundo


 


Debrucei-me sobre a escada do passado. Lá estavas no meio, falando comigo nesse crioulo cantado, a minha mão no teu ombro, duas meninas no meio do mundo.


 


Hoje esperas por mim, numa casa cheia de anos em que atravessámos a vida em rectas paralelas. Hoje estamos de novo, duas meninas mulheres no meio do mundo, a minha mão no teu ombro, aos meus ouvidos o crioulo cantado.


 

Complexo do Alemão

  


A polícia hasteou no início da tarde de domingo uma bandeira do Brasil no alto do teleférico do Alemão, como símbolo da ocupação do conjunto de favelas.


 




Rio de Janeiro


 

Suite nº 3 para violoncelo









J. S. Bach & Jean-Guihen Queyras


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...