24 janeiro 2010

O discurso de João Salgueiro

 



 


Ouvi partes da entrevista a João Salgueiro na TSF e li a transcrição da mesma no DN.


 


Alguns fragmentos, para mim significativos, ficaram a rebolar dentro do meu cérebro. A classificação de Teixeira dos Santos, o nosso Ministro das Finanças, como um técnico competente mas que não tem o poder suficiente que os ministros das Finanças deviam ter. Será que para João Salgueiro quem deveria definir a política do governo seria o Ministério das Finanças? Ou seja, a política seria determinada por aquilo que os Economistas pensassem, pelas suas prioridades, pelo seu poder?


 


Outro fragmento de que não consigo desenvencilhar-me é a afirmação - de trabalho feminino não se criaram muitas oportunidades ainda, talvez agora se comece, mas isso devia ser a primeira prioridade. - em relação ao Alentejo, pela quantidade de fábricas que têm fechado. O desemprego feminino? Como se combate o desemprego feminino? Abrindo creches e lares de 3ª idade para elas aí trabalharem em tarefas domésticas? Abrindo fábricas de tapetes de Arraiolos para bordarem muito? O que significa criar emprego feminino?


 


E depois a eterna discussão do aeroporto e do TGV. Será que entre tantos estudos e mais estudos, não há nenhum que calcule o prejuízo e o atraso para o país da não concretização das decisões tomadas? Há quantos anos se está a debater a necessidade de um aeroporto novo? Há quantos anos e há quantos estudos foi decidido que a Ota é que era o melhor sítio para o construir? E agora quantos anos vão ser precisos para colocar os estudos de Alcochete em dúvida? Se demorarmos muitos mais anos se calhar até deixa de se andar de avião porque já se descobriu o teletransporte individual.


 


Quanto ao TGV e à grande despesa do TGV, uma coisa é discutir as linhas e as direcções que o TGV deve tomar, que já foram várias, em número e configuração diferentes, consoante o partido que está no governo, outra coisa é a discussão do investimento na rede ferroviária de alta velocidade. Quem é que vai para Paris, Bruxelas ou Berlim de TGV? Ninguém vai! . Se calhar não, até porque ele não existe. Mas não será de pensar numa alternativa aos transportes que consomem petróleo e que são mais poluentes? Não será uma ideia de futuro investir na rede ferroviária nacional e internacional de alta velocidades?


 


O Estado não tem a noção do que pode ou não gastar., diz João Salgueiro. Se calhar há pouco dinheiro e há coisas mais urgentes. Mas alguém acha razoável que se deixe de investir em investigação científica de ponta, por exemplo, apenas porque somos um país pobre?


 


João Salgueiro é um dos Economistas de sempre com o diagnóstico de sempre e a terapêutica de sempre, cuja visão é partilhada por quem tem estado à frente dos destinos do país desde há muitos anos. Será que as soluções que preconizam são as certas? Então porque é que nunca resultaram?

 


(Também aqui)


 

23 janeiro 2010

Um dia como os outros (27)

 


(...) A coberto de acções de apoio a crianças que perderam toda a família, podem estar a operar no Haiti redes de tráfico infantil, uma situação que a agência da ONU para a infância quer ver esclarecida. (...)


 


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Das memórias incómodas

 



Isabela Figueiredo


 


As memórias da guerra colonial portuguesa são diferentes para todos os que a viveram.


 


São diferentes para quem vivia na metrópole e que tinha dos colonos uma noção mítica de encontro da terra prometida. São diferentes para quem foi para as colónias porque não encontrava trabalho nem qualidade de vida na metrópole. São diferentes para quem nunca tinha conhecido África e para lá foi combater os turras. São diferentes para quem nasceu nas colónias e essas eram a sua terra. São diferentes dependendo das colónias que se mencionam.


 


Mesmo as palavras que aqui uso intencionalmente – colónias, metrópole, turras – existiam e foram usadas normalmente por todas as pessoas antes do 25 de Abril, arriscando-me a afirmar que apenas uma pequena minoria de cidadãos, portugueses de aquém e de além-mar, as achava estranhas e as punha em causa. Dentro do país e até ao 25 de Abril de 1974, para a imensa maioria da população, Portugal era um Império uno e indivisível do Minho a Timor. A guerra colonial era uma sombra de medo na população, pela natureza da própria guerra. Mas também arriscaria que as motivações políticas dessa guerra eram conhecidas e contestadas por alguns grupos de intelectuais e por alguns militares, tendo-se alargado esse conhecimento à medida que a emigração crescia e observava o que se passava fora das nossas fronteiras.


 


Após o 25 de Abril de 1974 o quadro passou a ser completamente diferente, despertando a nação, palavra que foi banida do nosso vocabulário por muito tempo, para os horrores da exploração do homem pelo homem, na metrópole e nas colónias, para o racismo, para os direitos dos povos à sua autodeterminação e independência, levando à inevitável orgia de culpabilização, vergonha e remorsos tão aprazível ao sentir português.


 


Por isso mesmo, para os que regressaram, apesar de, ao contrário do que já ouvi afirmar, Portugal ter conseguido assimilar em pouco tempo uma enorme quantidade de pessoas regressadas do ultramar, os retornados, muitos totalmente espoliados do que tinha sido a sua vida, sem reconhecer o clima, a sociedade, a revolução, o atraso social em que se vivia, foram olhados como o expoente do mal do antigo regime, personificando o opressor em relação ao explorado e oprimido preto das ex-colónias.


 


Caderno de Memórias Coloniais é um livro que relata, na primeira pessoa, uma experiência de vida em Moçambique, da pequena burguesia, que trabalhava e sentia como sua aquela terra. É um livro de amor pela personagem paterna, herói e devastadora desilusão por não ser herói mas apenas pessoa. É um livro de desabafo e terapêutico, como o são os livros escritos com o despojamento, a crueza e a rudeza deste. É um livro muito bem escrito que nos transporta para dentro e para fora da autora, em fragmentos que se entrelaçam sem aparente intencionalidade. É um livro que me parece não pretender fazer história nem doutrina revelando, no entanto, uma parte da verdade que poucos têm coragem de abordar, por todos os motivos que referi e por muitos outros que desconheço.


 


Independentemente daquilo que, como sociedade, integrámos e assimilámos do que era o Portugal anterior à revolução e o Portugal que fomos e que somos desde a revolução, vale a pena ler o livro de Isabela Figueiredo por ele próprio, como objecto literário, porque nos enfrenta e nos faz pensar, provoca e comove, porque nos acrescenta.


 


Nota: Ler também Eduardo Pitta, Rui Bebiano, ABM, Francisco José Viegas e Fernanda Câncio.

 


(Também aqui)


 

22 janeiro 2010

A Devilish Tale

 



Bester Quartet & Sinfonietta Cracovia

Orçamento 2010

 


A Regra do Jogo convida a responder a pensar em qual ou quais seriam as nossas apostas ou prioridades para o Orçamento de Estado de 2010, propondo-se debatê-las.


 

Estranho

 


Estranha semana esta num estranho desequilíbrio de gostar e não gostar. Estranho torpor este de querer e não querer escrever. Tudo suspenso e pendurado por fios invisíveis. Não me apetece contá-los.




Sentimo-nos importantes por fazer parte de alguma coisa, por dizer, sempre dizer seja o que for. A quem interessa?




Estranho sabor este que não desaparece, água límpida para o limpar, desgastar, reparar. Estranho espelho este que desfoca a imagem, tremelica, estilhaça. Estranho acabar.

 

20 janeiro 2010

Jogos do imprevisto

 



La règle du jeu - Jean Renoir (1939)


 


Passaram-se senhas e contra senhas entre imperiais. A mesa obscura esperava pelos jogadores, com o disfarce ao fundo, sob um écran em que se abafavam as assessorias, as remodelações, as cisões e rescisões dos contratos principescos propostos com bifes em molhos secretos.




À volta o ruído cúmplice das conspirações.




Pela calada da noite foram surpreendidos por máquinas digitais, rapidamente apreendidas pelos seguranças. Mesmo assim o jogo foi desmascarado a dois tempos, refazendo as identidades descobertas.


 


(Também aqui)


 

Os pacotes

Sábado Há sempre uma forma mais ou menos enviesada de falar de coisas pouco simpáticas. Além disso, hoje em dia privilegiam-se epítetos mais...