11 outubro 2009

Lección de existencia / Lição de existência

  



en voz baja / em voz baixa


poemas de Abel Murcia


serigrafias de Marian Nowiński


tradução de José Carlos Dias


Manuela Teixeira Pinto


 


 


He aprendido a compartir tu ausencia


con mi sombra, el vacío


que deja el tacto inexistente de tu mano


en al mía, el silencio de tu voz


al otro lado de ningún teléfono,

esa ciega mirada de todos los objetos

que ocupan tu lugar.

He aprendido a dejar de ser tan yo

por ser un poco tú.

Me asusta sentirme rodeado de tu nada.


 


 


Aprendi a partilhar a tua ausência


com a minha sombra, o vazio


que deixa o toque inexistente da tua mão


na minha, o silêncio da tua voz


do outro lado de nenhum telefone,


esse olhar cego de todos os objectos


que ocupam o teu lugar.


Aprendi a deixar de ser tanto eu


por ser um pouco tu.


Sentir-me rodeado do teu nada, assusta-me.


 

[E]ternamente

 



poema de Luísa Azevedo


pin - uma explicação de ternura


 


Vê como a nossa casa é tão transparente.


O amor cruza as aparentes barreiras de pedra.


Vê-se à luz do dia e toca-se na noite.


Assim ficaremos,


eternizados de mãos dadas!


Ao vento, à chuva, à sombra da lua.


Eu sentirei para sempre aquele toque de ternura.


E tu saberás o quanto fui, e quis ser, tua.


 

*Apesar de você

Não quero acrescentar mais nada a este excelente post, que reproduzo integralmente.


 



 


Hoje você é quem manda

Falou, ´tá falado

Não tem discussão, não.

A minha gente hoje anda

Falando de lado e olhando p´ro chão

Viu?

Você que inventou esse Estado

Inventou de inventar

Toda escuridão

Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar o perdão.



(Coro) Apesar de você

amanhã há de ser outro dia

Eu pergunto a você onde vai se esconder

Da enorme euforia?

Como vai proibir

Quando o galo insistir em cantar?

Água nova brotando

E a gente se amando sem parar.




Quando chegar o momento

Esse meu sofrimento

Vou cobrar com juros. Juro!

Todo esse amor reprimido,

Esse grito contido,

Esse samba no escuro.



Você que inventou a tristeza

Ora tenha a fineza

de
desinventar

Você vai pagar, e é dobrado,

Cada lágrima rolada

Nesse meu penar.



(Coro) Apesar de você

Amanhã há de ser outro dia.

Ainda pago p´ra ver

O jardim florescer

Qual você não queria.



Você vai se amargar

Vendo o dia raiar

Sem lhe pedir licença.



E eu vou morrer de rir

E esse dia há de vir

antes do que você pensa

Apesar de você.



(Coro) Apesar de você

Amanhã há de ser outro dia

Você vai ter que ver

A manhã renascer

E esbanjar poesia.




Como vai se explicar

Vendo o céu clarear, de repente,

Impunemente?

Como vai abafar

Nosso coro a cantar,

Na sua frente.

Apesar de você.



(Coro) Apesar de você

Amanhã há de ser outro dia.

Você vai se dar mal, etc. e tal,

La, laiá, la laiá, la laiá?

 




Longe vai o tempo em que o Apesar de você… tinha a limpidez de se aplicar aos ditadores e às ditaduras… Aos maus. Nestes novos tempos o você será muito mais subtil e aplicar-se-á aos resultados perversos do voto popular (acima). Mas não nos surpreendamos que, em consequência desse desperdício, as novas gerações, que nunca precisaram do voto para escorraçar os velhos vocês, se tornem indiferentes à utilização e preservação desse direito de voto, quando constatam que o resultado pode resultar em eleger estes novos vocês... 

 

*A. Teixeira no Herdeiro de Aécio.

 

10 outubro 2009

Prémio Nobel da Paz 2009

 


Cada vez mais as minhas opiniões são menos definitivas.


 


O Nobel da Paz para Obama, após a surpresa inicial, suscita-me sentimentos contraditórios.


 


De facto a eleição de Obama como Presidente dos EU, e mesmo antes da eleição a sua campanha, fez alastrar a esperança por todo o mundo, pela nova abordagem que soube fazer aos vários conflitos internacionais, pela mensagem de optimismo, ideologia e ética que protagonizou e que mantém viva 9 meses após a eleição, pela luta pelos direitos dos mais desfavorecidos no seu próprio país. Além disso é o primeiro Presidente negro da história dos EU, o que não me parece ter sido indiferente a esta escolha.


 


Por outro lado Obama é ainda um conjunto de intenções e não de actos. Na prática continuam o conflito israelo-palestiniano, as guerras no Iraque e no Afeganistão, o problema das armas nucleares no Irão. Dentro de portas a enorme dificuldade que o Presidente está a enfrentar quanto às reformas anunciadas no sistema de saúde é um prenúncio de que muito do que Obama e o mundo ambicionam é bem mais complicado de atingir do que de enunciar.


 


Sendo assim não sei se este prémio o vai ajudar ou lhe vai dificultar a sua actuação futura. Temo que a mitificação do homem transforme as suas possíveis derrotas num peso desproporcional relativamente às suas vitórias.


 


Parabéns a Obama e boa sorte. Para ele e para todos nós.


 



 

09 outubro 2009

Eleições autárquicas

 


Estas eleições parece que não existem, de tal maneira estão entaladas entre as legislativas e a formação do governo.No entanto são tão importantes como as primeiras.


 


Em Oeiras assumem, na minha perspectiva, uma importância que transcende o acto eleitoral e o executivo autárquico que dele resultará. É um teste à aceitação cultural, por parte dos habitantes de Oeiras, dos valores de justiça e de honradez.


 


Custa-me a perceber como é que uma pessoa condenada a 7 anos de cadeia por corrupção tenha a audácia de se candidatar a Presidente da Câmara. Mas é-me totalmente incompreensível a sua  iminente eleição, a confirmarem-se os resultados das últimas sondagens.


 


A vitória do candidato Isaltino Morais é a vitória daqueles que, se pudessem, cometeriam abusos no exercício de cargos públicos, embora todos os dias vociferem contra os políticos, que apelidam de grandes corruptos.


 

08 outubro 2009

A democracia suspensa

 


Estou à espera das declarações do Presidente da República, garante da democracia, da liberdade de manifestação e de expressão do pensamento, que tanto se incomodou com a demissão de Manuela Moura Guedes.


 


Aguardo as declarações de Manuela Ferreira Leite sobre a inenarrável situação que se vive na Madeira, em plena campanha eleitoral, onde assistimos à agressão, por seguranças privados, de cidadãos que queriam manifestar-se numa inauguração pública.


 


Espero as declarações do Ministro da Administração Interna e / ou do Ministro da Justiça sobre a reposição da legalidade democrática numa parte de Portugal.


 


Os limites da decência, no arquipélago da Madeira, estão continuamente a ser ultrapassados.


 



 


(Arrastão)


 

07 outubro 2009

Dizemos

 



(pintura de Jaclyn Mednicov: infinite space)


 


 


As palavras mais saborosas

são as que se guardam nos sentidos.


 


Com os olhos com os dedos

com a extrema timidez

de quem esconde o fundo

dos anos que vão afastando a alma

o fundo da solidão de quem quebra

as palavras mais saborosas

são as que se guardam no silêncio.


 

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...