25 maio 2009

Procedimentos

 


Sempre me habituei a ler as crónicas de António Barreto com muito interesse e respeito, por longos anos de opiniões descomprometidas e, quanto a mim, certeiras e honestas, como setas em alvos, e muitas vezes incómodas.


 


De há algum tempo para cá tem assumido um estilo semelhante a Medina Carreira, ou seja está tudo mal, tudo horrível, nada tem conserto.


 


Particularmente a última crónica que publicou no Público deixou-me tão desconfortável, tão espantada pelo arrazoado de opiniões desconexas, desfasadas e ultrapassadas, numa tal cegueira e em contradição com o que já defendera, que nem sei o que pensar.


 


Os manuais de procedimentos têm vantagens e desvantagens, que podem ser transformadas em ridículo sempre que se queira. Mas são feitos para que haja uniformidade nos procedimentos, para que as normas sejam idênticas e cumpridas da mesma forma por toda a gente. É um dos objectivos de quem está perante uma prova, ter as informações o mais detalhadas possível, todos perante as mesmas circunstâncias. Em qualquer laboratório são essas normas e esses manuais que garantem que todos procedam seguindo os mesmos rigorosos critérios, permitindo resultados fiáveis e reprodutíveis.


 


Quanto à forma como António Barreto se refere aos professores e à sua cruz diária, à dificuldade do ano e ao autoritarismo da Ministra, foi a melhor maneira de deitar para o lixo qualquer hipótese de reforma que contrarie o poder instalado na escola pública, fantástica que estava e tem estado nestes últimos 30 anos, em rigor, exigência, disciplina, etc.


 


A crónica de António Barreto demonstra, mais uma vez, que alguém que se queira importar e lutar para mudar qualquer coisa., tem a total incompreensão de todos, mesmo de quem sempre defendeu precisamente o caminho de maior exigência e melhor trabalho nas escolas.


 


Foram feitos erros, sem dúvida, mas assistimos, nesta legislatura, a uma honesta tentativa de exigir mais e melhor da escola, talvez a única desde o 25 de Abril.

 

24 maio 2009

Papéis

 



(pintura de Aili Schmeltz: radar)


 


Não sei se começamos com papéis

ou acabamos nos papéis

pela força das palavras

dos riscos dos nomes que abraçamos.

Não sei se foram folhas de papel

ou o papel que representamos

o que fomos ou que somos

uns dos outros perdidamente

demoradamente suspensos de uma voz

de um aperto de ânsia

quando nos vemos.


 


Não sei se a estrada o ar

a terrível desumanidade do tempo

nos dá tempo para encontrar

os papéis que colamos às mãos

e que usamos para nos renovar.

 

23 maio 2009

(In)Segurança policial

 


Assistimos a um julgamento por violência policial, embora tenhamos, mais uma vez, ficado defraudados com o tipo de penas aplicadas – suspensa, sempre suspensa. Todas as violências são horríveis, mas esta é particularmente arrepiante, porque as forças policiais deveriam proteger os cidadãos, não ameaçá-los.


 


Leonor Cipriano foi espancada na cadeia, em interrogatórios, sabendo nós que não foi seguramente a primeira nem será a última. Claro que as Leonores Ciprianos não têm advogados nem autoridades internacionais para zelarem pelos seus interesses, como aconteceu com os pais da desaparecida Madeleine McCann, que foram julgados e trucidados na praça pública, como agora é hábito fazer-se.


 


Como sempre é quem menos meios tem que fica mais vulnerável. Espero que este seja o primeiro de muitos julgamentos que condenem a violência e a impunidade praticadas nas esquadras.


 

Alice

 



 


Tom Waits & Kathleen Brennan


 


 


It's dreamy weather we're on

You waved your crooked wand

Along an icy pond with a frozen moon

A murder of silhouette crows I saw

And the tears on my face

And the skates on the pond

They spell Alice


 


I disappear in your name

But you must wait for me

Somewhere across the sea

There's a wreck of a ship

Your hair is like meadow grass on the tide

And the raindrops on my window

And the ice in my drink

Baby all I can think of is Alice


 


Arithmetic arithmetock

Turn the hands back on the clock

How does the ocean rock the boat?

How did the razor find my throat?

The only strings that hold me here

Are tangled up around the pier


 


And so a secret kiss

Brings madness with the bliss

And I will think of this

When I'm dead in my grave

Set me adrift and I'm lost over there

And I must be insane

To go skating on your name

And by tracing it twice

I fell through the ice

Of Alice


 


And so a secret kiss

Brings madness with the bliss

And I will think of this

When I'm dead in my grave

Set me adrift and I'm lost over there

And I must be insane

To go skating on your name

And by tracing it twice

I fell through the ice

Of Alice

There's only Alice

 

Jornalismo? (2)

 


O caso das declarações de Lopes da Mota, que na semana passada teria admitido que tinha invocado o nome do Ministro da Justiça e do Primeiro-ministro, na conversa com os seus colegas magistrados, seguindo-se, na semana seguinte, de declarações de Lopes da Mota a desmentir categoricamente tais invocações e tal reconhecimento, baralha e aumenta a sensação de quem lê de que está a ser manipulado.


 


O Freeport já não interessa, mas continuam a sair notícias sobre os negócios da família de Sócrates. Tudo vale para desacreditar Sócrates e tentar enrolá-lo em assuntos ilegais, mesmo que já não tenham nada a ver com o original – o suposto suborno.


 

Jornalismo? (1)

 


Estive à espera de ver a totalidade da entrevista de Manuela Moura Guedes a Marinho e Pinto para perceber o porquê das acusações de Marinho e Pinto.


 


Independente do estilo, Marinho e Pinto mostrou de novo a sua fibra. Neste momento poucos se atrevem a denunciar o mau jornalismo, porque é muito desagradável ser difamado e julgado na praça pública, por pessoas que se assumem como arautos da verdade quando servem agendas políticas. É o caso de Manuela Moura Guedes e da cruzada contra Sócrates. Marinho e Pinto destapou muitas panelas e a pressão está a sair por todo o lado. Claro que Marinho e Pinto é um urbano-rústico e, portanto, para os bacanos, indigno de ser Bastonário da Ordem dos Advogados.


 


Este é o vídeo da entrevista total (via Troca o Passo). É verdadeiramente extraordinária.


 


(post actualizado)

20 maio 2009

Os fins e os meios

 


Não consigo vislumbrar nenhuma razão, nenhuma justificação, nenhuma forma de considerar algum atenuante para o que se ouve na tal famosa gravação que duas alunas fizeram de uma aula, numa escola do ensino básico, em Espinho, a não ser a insanidade mental da Professora.


 


Por outro lado incomoda-me muito que o método usado seja um meio ilícito. Não podemos ignorar que é proibido, para além de pouco ético, a utilização de gravações sem autorização de quem está a ser gravado. Os fins não podem justificar os meios e é um perigo que comecemos a funcionar assim.


 


Mas pelo que se percebe pela história contada pelos media já teria havido tentativas de denúncias de irregularidades que não foram atendidas.


 


E aí, eu gostava de saber onde está o verdadeiro trabalho jornalístico. Há quantos anos trabalha esta professora? Em que escalão está? Que tipo de avaliações foram feitas ao seu trabalho e qual o seu resultado? O que fizeram os seus colegas, comissões pedagógicas, conselhos directivos e comissões de pais? Onde está o garante do bom funcionamento da escola pública, defendida à exaustão pelos representantes dos professores? Como é possível haver uma professora destas a ensinar?


 


De facto, mesmo achando um perigo a violação das liberdades para a denúncia de determinadas situações, que outras diligências foram feitas e como foram encaminhadas? Será que foi esta a única hipótese que aquelas alunas tiveram de ser ouvidas?


 


Gostaria muito de ver algum jornal ou rádio tentar responder a estas perguntas, em vez de repetirem ad nauseum a gravação. Mas no fundo, é mesmo só isso que interessa.


 


Também há outra coisa que faz pensar. No caso em que uns alunos gravaram uma batalha campal com uma professora por causa de um telemóvel notou-se uma grande vontade por parte de alguns sectores políticos, em defender os alunos e em considerar a professora inapta. Desta vez parece estar a acontecer o contrário, focalizando-se o assunto na ilegalidade da gravação e no facto de alguns alunos a considerarem uma professora bestial . Curioso.


 


Melhor ainda é o aproveitamento deste episódio para ligar a legislação sobre educação sexual e a distribuição de preservativos. Já não bastava termos as confissões religiosas do costume a tentarem impor a sua ideia do que é a escola pública.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...