24 abril 2009

A passagem da noite

 



 


Hoje temos o Portugal de Rodrigo Leão, melancólico e romântico, em tons esbatidos, aqui e ali com ruídos e gargalhadas, cruzando estradas, em áreas de lentas e mortíferas pás eólicas.


 


Há 35 anos éramos o Portugal de Carlos Paredes e das suas baladas a preto e branco, caras fechadas e malas às costas, espingardas em mãos rudes por essas terras longínquas de um império a desfazer-se.


 


Como passámos essa noite, essa longa noite de analfabetismo de joelhos e mãos postas? Como acordámos para a luz, o ruído e a festa? Como transformámos as casas, as vidas, os campos? Como marchámos em direcção aos novos descobrimentos europeus? Como mantivemos a melancolia?


 


Amanhã já passaram 35 anos, mas continua um frémito de emoção quando se ouve Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Carlos Paredes. Ultrapassamos os verdes anos para o novo retrato musical. Mas ainda a esbater o som e as cores, continuamos de ombros curvados.


 


Mas caminhamos.


 




 

22 abril 2009

Processos e entrevistas

 


José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes vão processar José Sócrates. Não entendo o alarido. É um direito que lhes assiste, tal como ao Primeiro-ministro.


 


A entrevista de ontem foi mais uma prova da fraca capacidade jornalística na entrevista política e da vocação de rolo compressor de Sócrates.


 


Judite de Sousa não conseguiu disfarçar o azedume contra Sócrates assim como Sócrates tratou Judite de Sousa com um desprezo absoluto. Falou-se da cooperação institucional entre o Presidente da República e o governo durante metade do tempo, em que os entrevistadores, principalmente Judite de Sousa, tentaram demonstrar a Sócrates que os discursos do Presidente visavam as opções governativas. Sócrates aproveitou para enviar um recado ao Presidente e à oposição quando disse que não acreditava que o Presidente se deixava instrumentalizar pela oposição.


 


A outra metade foi passada a falar do Freeport, tendo mais uma vez Judite de Sousa instado José Sócrates a defender-se da acusação de corrupção, quando Sócrates não é acusado de nada.


 


José Alberto Carvalho esteve muito apagado. Suspeito que detesta este tipo de entrevistas.


 


José Sócrates abalroou os jornalistas e só disse o que lhe apeteceu. Ao seu estilo esteve bem, embora a escassa fase em que se falou da crise e em que procurou passar a imagem de que quando reduziu o IVA já a estava a antecipar, tenha estado a reescrever a história, como disse Nicolau Santos.


 


De Vital Moreira e do debate europeu é que se tem ouvido um silêncio ensurdecedor. Tal como defendi neste post, e após a primeira prestação televisiva do cabeça e lista do PS para as eleições europeias, o PS tem uma séria hipótese de se dar mal com esta escolha. Não só Vital Moreira está a ser empurrado para uma discussão de política interna e não de política europeia, mérito da estratégia do PSD, como está a criar anticorpos e antipatias.


 


Se as eleições europeias se transformarem nas primárias das legislativas, o PS pode estar em muito maus lençóis.


 

21 abril 2009

Camadas

 



(pintura de Yves Klein: Untitled Fire Painting)


 


Retiro camadas às letras que escrevo.

 


Descarnadas línguas de fogo e neve

desaparecem marcadas

como as memórias que queremos apagar.


 

Quase não respira

 



Poema de José Agostinho Baptista


Foto de Jack Robinson:


Two Nuns Walking on Canal Street



 


Quase não respira,


entre os lençóis azuis, imóveis,


que as irmãs da bondade estendem, sem


remorso nem fadiga,


para o seu corpo deitado.


 


Alguém fechou as cortinas.


A penumbra oculta as formas imprecisas dos


ombros nus.


O peito levanta-se e cai como se os


inesperados ventos da ira percorressem os


quatro cantos da casa.


 


Ouve-se, ao longe, um sino,


e os cães ladram.


Ninguém sabe que está aqui, que mal respira,


entre os lençóis azuis,


imóveis,


que as irmãs estenderam,


ao verem os clarões no deserto,


o regresso dos exércitos vencidos.


 


Talvez pense nos atalhos da montanha que


pela noite descia, até ao vale do assombro,


rodeado de lanternas que dançavam.


Via essas mulheres de longas vestes,


em círculo,


nomeando o inominável,


e não tinha medo.


 


Quando chove,


ele fecha os olhos que perderam a cor da sua


infância de melros e roseiras bravas.


Agora,


tudo é cego,


tudo é silêncio.


 

Casta Diva

 


 



 


Maria Callas - Casta Diva


Norma - Vicenzo Bellini


 

Prémios

 


Tenho estado muito desatenta a certos gestos de apreço que algumas pessoas me têm mostrado, o que é imperdoável. Não tenho qualquer desculpa.


 


Mas mesmo atrasados, e com o pedido de compreensão pelos citados bloguers, vou fazer seguir as correntes:


 


O primeiro para uma primeiríssima preferência minha, pela pessoa que vamos tendo o privilégio de ler.


 



 


O segundo pela gentileza de me ter dado este presente, a quem passei a visitar com frequência.


 



 


Sendo assim, vou já reencaminhar estes prémios a quem de direito, publicando desde já as regras para continuar a cadeia:



  • Reencaminhar este prémio a 10 blogs

  • Exibir a imagem do prémio

  • Postar o link do blog que o premiou

  • Indicar 10 blogs para fazerem parte do "este blog é tão bom que até arrepia"

  • Avisar os indicados

  • Publicar as regras

     


E o nomeados são:



  1. Anacruzes

  2. bonstempos hein?!

  3. Café del Artista

  4. Contra Capa

  5. DER TERRORIST

  6. Garfadas on line

  7. Grama a Grama

  8. Herdeiro de Aécio

  9. Ponto de Cruz

  10. MÁTRIA MINHA


Não há pragas para quem não seguir a corrente!


 

Europeias (1)

 



 


Ontem, quebrando uma promessa feita a mim própria, fiquei a ver o programa Prós & Contras.



A única coisa que consegui, aliás como das outras vezes, foi ficar com uma enervação, uma desilusão e uma revolta enormes, para além da insónia.



É verdade, estou uma exagerada. Mas este tipo de espectáculos deploráveis que os nossos candidatos nos oferecem é mais um motivo para a descredibilização da política, para o afastamento entre os políticos e os cidadãos, para a descrença no sistema democrático.




Ninguém falou da Europa nem das políticas europeias. A reboque da crise e da luta política para as legislativas, foi o vale tudo. O programa, pessimamente conduzido por uma Fátima Campos Ferreira que parecia comprazer-se com aquela algazarra, permitindo que o programa se transformasse numa espécie de governo contra oposição de baixo nível, chegando a rir-se das figuras que se faziam (na verdade davam mais vontade de chorar), foi um mostruário de demagogia, golpes baixos e incapacidade de debate de ideias, que seguramente estão ausentes de todas aquelas cabeças.



Vital Moreira foi de uma desonestidade intelectual a toda a prova, com uma pose de superioridade moral totalmente fora de contexto, conseguindo fazer corar de vergonha qualquer pessoa quando, a propósito não sei de quê, resolveu dizer a Paulo Rangel que não tinha sido nomeado para resolver um problema interno do partido. Extraordinariamente também não conseguia avaliar a actuação de Durão Barroso porque ele ainda não tinha acabado de cumprir o mandato.



Paulo Rangel, com a sua forma gongórica e redonda foi atrás de todos e a propósito do que iam dizendo lá se indignava com o depauperamento moral do seu adversário Vital Moreira, não se excluindo da desvergonha ao lembrar o passado político de Vital Moreira e a sua desvinculação do PCP.



Ilda Figueiredo disse o costume, com a entoação do costume, contra aquilo que é costume, com um tom exactamente igual ao de Mário Nogueira. Não se distinguem os dois discursos. Mas, pelo menos, não foi abjecta.



Miguel Portas foi o que mais tentou discutir matérias europeias. Mas a demagogia pura, o encostar-se a torto e a direito a Manuel Alegre totalmente a despropósito e o tom de educador da classe operária, estragaram tudo.



Nuno Melo teve muita convicção sobre nada e coisa nenhuma, atirando números sobre QREN e outras siglas sem que ninguém tivesse percebido se era ou não verdade o que dizia.



Das bancadas ouviam-se gritos e dichotes de Ana Gomes, de Edite Estrela e de outras figuras que não consegui identificar.



Este foi apenas o primeiro debate. Nem quero imaginar como serão os últimos.


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...