07 março 2009

Perfeito

 



(escultura de John Dawson, bronze: lacy lovers)


1.


Encerro as mãos

fecho a usura dos dias

congelo pedras

odores a maresia

encerro o acaso

a dança dos dedos

finalizo sinais.

Sinto demais.




2.


Perfeita a tua boca na minha

perfeito gozo de antecipação

perfeita a tua mão que caminha

perfeita dor de imensidão.




3.


O dia estende-se na plenitude da descoberta

profundo e imenso como cântaros sem fim

na água que adormece a realidade.

 

06 março 2009

Jacqueline du Pré (1)

 



 


Edward Elgar: Concerto para violoncelo - 1º movimento


Violoncelista: Jacqueline du Pré


Maestro: Daniel Barenboim

Terra


(Teresa Dias Coelho)


 


Escavo demoradamente palavras

terra de raízes e pedras.


 


Cega surda aplicadamente

afundo os olhos pelo silêncio.


 


Cavo o corpo como a luz

que todos os dias apago.

 

05 março 2009

A crise

O preço do petróleo tem vindo a descer, ao contrário do preço da gasolina que se mantém altíssimo, tendo subido precisamente com o argumento da subida do petróleo.


 


Assim não me espanta nada que a GALP possa exibir os lucros que fez em 2008, imoralmente à custa dos consumidores.


 


Também gosto bastante dos défices tarifários da EDP e da necessidade de aumento da electricidade.

Ler o futuro

 


Vejo-a a tremer, magra, com cabelo grisalho, a pintura dos olhos a escorrer com as lágrimas, a custo retidas. Os dentes pouco cuidados, as mãos grandes amarfanham um lenço de papel que se desfaz.


 


Fala alto, aos arrancos, vociferando contra quem ali a enviou, quem a assustou, quem lhe apontou o crescimento rápido daquele nódulo como algo que podia ser perigoso. Pergunta com os olhos em alarme se era assim, que não podia ser assim, que não lhe doía, que desumanidade por a terem assustado.


 


Estava desempregada e tinha conseguido inscrever-se num curso de formação de estética, não podia interromper por ninharias sem importância. Não podia ficar em casa como uma gaiata.


 


Foram uns sacanas pois tinham-na despedido a ela, que era efectiva há 15 anos, que podia ter ido para outra loja fazer depilação e epilação, que já tinha 47 anos. Deitada no catre estica o pescoço longo, o cabelo espalhado pelo branco do papel, entrecortada pelo choro, desempregada há 1 ano e meio.


 


Magra, magra, agradece e aperta as mãos, desculpe que estou de luvas, não faz mal que também usava luvas quando fazia depilação e epilação.




______


Percorreu a lâmina em busca das marcas de alarme, procurando ler nas células o futuro. 


 



 

01 março 2009

Una noche de verano


(Francisco Herrero)


 


Una noche de verano

- estaba abierto el balcón

y la puerta de mi casa -

la muerte en mi casa entró.

Se fue acercando a su lecho

- ni siquiera me miró -,

con unos dedos muy finos,

algo muy tenue rompió.

Silenciosa y sin mirarme,

la muerte otra vez pasó

delante de mí. ¿Qué has echo?

La muerte no respondió.

Mi niña quedo tranquila,

Dolido mi corazón.

¡Ay, lo que la muerte ha roto

Era un hilo entre los dos!

 


(poema de Antonio Machado)


 

Encontros e despedidas

 


 



composição: Milton Nascimento & Fernando Brant


canta: Simone


 


Mande notícias do mundo de lá

Diz quem fica

Me dê um abraço venha me apertar

Tô chegando

Coisa que gosto é poder partir sem ter planos

Melhor ainda é poder voltar quando quero

Todos os dias é um vai-e-vem

A vida se repete na estação

Tem gente que chega pra ficar

Tem gente que vai pra nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar

Tem gente que vai querer ficar

Tem gente que veio só olhar

Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir

São só dois lados da mesma viagem

O trem que chega

É o mesmo trem da partida

A hora do encontro é também despedida

A plataforma dessa estação

É a vida desse meu lugar

É a vida desse meu lugar

É a vida

 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...