08 dezembro 2008

O "negócio" da saúde

Sempre achei estranha a súbita e explosiva proliferação de unidades privadas de saúde nos últimos anos, pelo número e pela dimensão. Que me lembre, só na área da grande Lisboa, abriram dois grandes hospitais com valências de cuidados intensivos, urgências e oncologia: o Hospital dos Lusíadas (HPP Saúde) e o Hospital da Luz (Espírito Santo Saúde), para além de unidades mais pequenas, como as Clínicas CUF Cascais e CUF Torres Vedras (José de Mello-Saúde).


 


Não conseguia perceber se haveria capacidade económica na população para poder arcar com seguros de saúde que comportassem tratamentos oncológicos, por exemplo, ou internamentos prolongados em unidades de cuidados intensivos, ou terapêuticas onerosas para doenças do tipo da SIDA.


 


A partir desta notícia, que cita José Manuel Boquinhas, administrador dos HPP - Espero que a ideia de integrar os privados na rede (oncológica) vá para a frente - ficou tudo bastante mais claro. Como o próprio artigo indica, os doentes iniciam os tratamentos nos hospitais privados, os que dão lucro ao hospital e às seguradoras, e quando se lhes acaba a capacidade económica, são transferidos para o sistema público de saúde que, obviamente, não os pode recusar. Segundo o DN isto passa-se com 20 a 50% dos doentes oncológicos.


 


Como não há, de facto, poder económico que permita pagar seguros para a totalidade das despesas de saúde, os hospitais privados deixaram de ter clientes para se sustentarem. Daí a necessidade de acordos para entrarem nas redes de cuidados de saúde do SNS. Passará o estado a ser o seu cliente e pagador. Por vontade deles seria o estado a viabilizar economicamente estes projectos que, pelo menos agora, se revelam desajustados da realidade do país.

Doce de abóbora

Ontem foi dia de descascar e cortar uma abóbora com um monte de quilos, o que se revelou mais difícil do que esperava. Primeiro porque o balcão é alto e eu sou pequena; segundo porque a faca era demasiado grande e nem por isso cortava grande coisa; terceiro porque este tipo de trabalhos são efectuados uma vez por ano e portanto há pouca prática.


 


Mas vontade (boa) há muita. Lá está o panelão cheio de pedaços de abóbora (que encolheram menos do que é habitual, espero que não signifique nada de pior), açúcar (750 gramas por quilo de abóbora, já descascada) e vários paus de canela (acho que 2 por quilo de abóbora). Desde ontem que está a macerar e hoje, após sumo de limão (2 por quilo de abóbora) lá vai tudo para o lume.


 


Espera-me uma tarde de doce de abóbora, de colheres de pau, de nozes para quebrar e partir em bocados grossos (penso que utilizarei o velho método da pancada, depois de envolver o miolo das nozes num pano limpo) e do tão difícil ponto de estrada, que permitirá que o doce fique no ponto certo.


 


Esse é o problema mais difícil. Por isso agora deixo o doce a arrefecer no próprio panelão e só enfrasco no dia seguinte. Se for preciso mais lume ou, pelo contrário, mais água, escuso de despejar de novo o doce dos frascos para o panelão.


 


Falta-me ainda imprimir do Publisher os rótulos do doce, para os colar aos frascos que, entretanto, fui coleccionando. Há de tudo, desde frascos de molhos até frascos de azeitonas, boiões de vidro de iogurte, etc.


 


Começaram os preparativos para o Natal. Esperam-me ainda vários frascos de infusão de café, aguardente, açúcar e canela que se irão transformar em licor, num dos próximos fins-de-semana.


 


Baltasar

Chegou a minha vez de concorrer ao Concurso Baltasar de Presépio, que uma das lojas aqui do lado está a promover.


 


Andei bastante atarefada à procura do melhor Baltasar.  Este é muito colorido, um pouco cubista. Os concorrentes são de respeito. Veremos. O júri decidirá.


 


07 dezembro 2008

Cem mil (2)

É claro que estes cem mil visitantes nunca viriam cá tão depressa sem a publicidade gratuita que algumas pessoas têm estado a fazer, a propósito da noção de outras do que significa liberdade de expressão de pensamento.


 


Assim, a todos os que me deixaram palavras de estímulo no e-mail e nas caixas de comentários, e para os blogues que se referiram ao assunto (Womenage a Trois, Contra Capa, Jugular, Direito de Opinião, Corta-fitas, A Terceira Noite), os meus agradecimentos.


 


 



(pintura de Geraldine Gliubislavich)


 


Actualização: E também aos blogues Câmara de Comuns, Água Lisa, cronicasdorochedo e Anti-tretas.

Cem mil (1)


 


E não é que já por cá passaram mais de cem mil visitas?


 



 


Ora bem, vou preparar-me para mais cem mil.

06 dezembro 2008

Quinto poema do pescador

 



(poema de Manuel Alegre; pintura de Craig Barber)


 


 


Eu não sei de oração senão perguntas

ou silêncios ou gestos ou ficar

de noite frente ao mar não de mãos juntas

mas a pescar.


 


Não pesco só nas águas mas nos céus

e a minha pesca é quase uma oração

porque dou graças sem saber se Deus

é sim ou não.


 


 


(em homenagem aos pescadores)

Namoro

Não sei qual é a melhor canção de amor. Mas esta é uma das melhores.


 


 



 


 


 


Mandei-lhe uma carta em papel perfumado

e com letra bonita eu disse ela tinha

um sorrir luminoso tão quente e gaiato

como o sol de Novembro brincando

de artista nas acácias floridas

espalhando diamantes na fímbria do mar

e dando calor ao sumo das mangas


 


Sua pele macia - era sumaúma...

Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas

sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo

tão rijo e tão doce - como o maboque...

Seus seios, laranjas - laranjas do Loje

seus dentes... - marfim...

 


Mandei-lhe essa carta

e ela disse que não.


Mandei-lhe um cartão

que o amigo Maninho tipografou:

"Por ti sofre o meu coração"

Num canto - SIM, noutro canto - NÃO

E ela o canto do NÃO dobrou


 


Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete

pedindo, rogando de joelhos no chão

pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,

me desse a ventura do seu namoro...

E ela disse que não.


 


Levei à Avo Chica, quimbanda de fama

a areia da marca que o seu pé deixou

para que fizesse um feitiço forte e seguro

que nela nascesse um amor como o meu...

E o feitiço falhou.


 


Esperei-a de tarde, à porta da fabrica,

ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,

paguei-lhe doces na calçada da Missão,

ficamos num banco do largo da Estátua,

afaguei-lhe as mãos...

falei-lhe de amor... e ela disse que não.


 


Andei barbudo, sujo e descalço,

como um mona-ngamba.

Procuraram por mim

"- Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"

E perdido me deram no morro da Samba.


 


Para me distrair

levaram-me ao baile do Sô Januario

mas ela lá estava num canto a rir

contando o meu caso

as moças mais lindas do Bairro Operário.


 


Tocaram uma rumba - dancei com ela

e num passo maluco voamos na sala

qual uma estrela riscando o céu!

E a malta gritou: "Aí Benjamim !"

Olhei-a nos olhos - sorriu para mim

pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.


 


(poema de Viriato da Cruz; canta Fausto)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...