24 agosto 2008

Demissões

Todos os Verões é pedida a demissão do Ministro da Administração Interna (MAI). Desde Fernando Gomes (assaltos aos comboios), passando por António Costa (já nem sei bem porquê) agora Pedro Aguiar Branco veio quebrar o tão profundo e pesado silêncio do PSD pedindo a demissão de Rui Pereira, pela onda de crimes violentos que assola Portugal.




É natural que todos fiquemos com a noção que Portugal e transformou no paraíso das lutas de gangsters. Neste momento todos os jornais, telejornais e rádios abrem as primeiras página e os serviços noticiosos com as mortes, os assaltos, os tiros, os carjacking, os atropelamentos, os cadáveres que se encontram nos rios ou enterrados, as facadas, todos estes dramas ocupam a maior parte das preocupações jornalísticas.


 


É claro que há ondas de assaltos e de crimes, mas parece que as tão proclamadas estatísticas mostram um aumento dos crimes violentos (?) mas uma redução dos homicídios. Por isso, este sentimento de insegurança que é real, é altamente insuflado pelo tipo de jornalismo tablóide em que se transformou a informação.


 


Daí ao infeliz aproveitamento político do PSD, pedindo a demissão do MAI vai mais um passo na queda para o abismo da credibilidade deste novo, novíssimo e dinossáurico PSD.


 


Gostaria eu que, na onda de demissões pedidas, houvesse uma que não fosse preciso pedir por se concretizar pelo próprio ou pelo Primeiro-Ministro. Estou a falar do Ministro Mário Lino. Depois da mudança de localização do novo aeroporto, só para falar do caso mais lancinante, com acidentes repetidos na linha do Tua, o ministro resolve aproveitar obscenamente um horrível acidente de aviação em Madrid para defender a saída do aeroporto da Portela.


 


É muito triste quando a infelicidade desce tão abaixo do mínimo da decência. Porque não pedem o PSD, o PS, o CDS, o BE, o PCP, enfim, o Primeiro-Ministro, a demissão de Mário Lino? Que está este Ministro ainda a fazer no governo?

Há uns anos fui a Praga














Foi uma viagem envolta em neblina, mas uma neblina luminosa e despreocupada, aquela neblina dos ansiolíticos e dos antidepressivos.


 


Após um enfarte do miocárido, uma operação ortopédica medianamente sucedida, uma doença grave dos meus familiares mais próximos, e o síndroma de abstinência do tabaco, as drogas pareceram-me (e foram!) a melhor opção. Na preparação da viagem resolvi marcar o hotel pela internet, estudando o mapa da cidade, as localizações e os preços, e reservei aquilo que eu pensava ser um quarto duplo, naquilo que eu pensava ser um hotel, mesmo junto à Václavské náměstí (Praça Venceslau).


 



 


Chegámos de noite, após uma corrida num táxi de aspecto muito duvidoso, que nos indicou num inglês macarrónico mas muito simpático onde ficava o nosso hotel, apontando para uma rua escura e estreitíssima, perpendicular, de facto, à Václavské náměstí. Era um edifício normal, grande, mal iluminado, sem recepção, apenas com um homem que nos deu uma chave enorme, nos apontou o elevador e nos disse que ainda tínhamos que subir mais umas escadas. O nosso pessimismo aumentou, carregando com as malas por uma escada robusta e pedregosa, e nos deparámos com uma porta enorme e cheia de ferrolhos, que mais parecia um cofre-forte de um banco.


 


O quarto de hotel era um apartamento com uma sala, dois quartos, uma enorme casa de banho e uma kitchnet, que ficava no sótão não de um hotel, mas de um prédio normal. A casa de banho não tinha sabonetes, shampoo ou toalhas, apenas um enorme rolo de papel higiénico verde. A sala tinha dois divãs arrumados em paredes opostas, desfeitas, com a roupa da cama (e as toalhas) dobradas em cima dos colchões, uma televisão que não funcionava e um sofá esventrado. A kitchnet estava totalmente equipada, até com uma mini máquina de lavar louça. Os quartos apenas tinham divãs a servir de camas, sem as respectivas roupas.


 



 


Bem ditas drogas. Apesar de pesarosos e ligeiramente irritados, decidimos que não iríamos passar uma semana ali, que apenas dormiríamos a primeira noite, até porque já estava paga, e teríamos que pensar em como tomar banho sem sabonete (a vida de luxo que estamos habituados a viver). Tomámos posse do nosso quarto e saímos para a maravilhosa praça iluminada e enorme, assim me pareceu naquela noite, em busca de um hotel. Foi só atravessarmos a praça, pois havia muitos hotéis, todos caríssimos.


 


Entrámos no Hotel Jalta e reservámos, de imediato, um quarto a partir do dia seguinte. É um hotel de 1958, remodelado, extremamente confortável e que, a nós, nos pareceu paradisíaco. No dia seguinte, após um banho de água quente (o esquentador foi um pouco difícil de acender e estava na casa de banho), fomos tomar o pequeno-almoço a um café que estava mesmo ao lado. Pedimos aquilo que pensávamos ser uma sanduíche com fiambre e café com leite; apareceu-nos uma espécie de tosta mista com pepino e café com leite. Surrealista! De imediato, enquanto um fazia o chek-out do apartamento, outro fazia o chek-in no hotel. Atravessámos a praça e começámos a semana.


 


 


 


Praga é uma cidade lindíssima, com uma luz especial, chuvosa, em que as raparigas são bonitas e simpáticas, os homens (não tão bonitos) são amáveis, com imensa vontade de comunicar e de falar com os turistas. É uma cidade com muitos cafés, muitos túneis que nos guiam entre diferentes áreas da cidade, com praças cobertas de esplanadas, músicos pelas ruas, vendedores de bilhetes para o Teatro Negro em cada esquina, becos e a Karlův most (ponte Carlos), o relógio astronómico, as cervejas, a partilha de mesas nos cafés e restaurantes, a omnipresença do pepino, o museu Kafka, o bairro judeu, o castelo, a arquitectura dos prédios mais antigos, dos restaurantes, tudo é simples e sofisticado, respirando uma atmosfera de efervescência cultural, de liberdade. Passeámos por muitas livrarias e muito pouco encontrámos sobre a invasão soviética em 1968, e pouca vontade de se falar sobre isso. Parecia ainda uma mancha e um trauma difícil de se reabrir e de se expurgar.


 


 


 


Talvez tenha ficado a gostar ainda mais do livro e do filme A insustentável leveza do ser, que nos transporta para aquela Praga rebentando algemas, para as ter que suportar ainda mais dolorosamente. Passaram 40 anos da violação de Praga. Convém que ninguém se esqueça daquele socialismo e daquele poder autoritário que, de novo, está a levantar a cabeça, se é que alguma vez a baixou de vez. Putin, a invasão militar da Geórgia, o posso, quero e mando de Moscovo, estão a regressar. E o mais aflitivo é que, neste momento, não há EUA nem UE que se lhe oponham.


 


19 agosto 2008

Parabéns


 


Parabéns à Vanessa Fernandes e à Naide Gomes, uma pela merecida medalha que reconhece o seu mérito, outra pelo merecido reconhecimento do mérito, mesmo sem medalha.


 


17 agosto 2008

Agradecimentos

Tenho lido algumas reacções que considero particularmente infelizes a propósito da prestação dos nossos atletas olímpicos e, em particular, de Francis Obikwelu.


 


Estes atletas a quem ninguém liga nenhuma durante anos e anos, servem agora para lavar as feridas do orgulho nacional, tendo a obrigação de trazerem medalhas.


 


Pois eu acho que lhes devemos agradecer, em particular a Francis Obikwelu, quando conseguem e quando não conseguem chegar aos três primeiros lugares.


 


Vilarejo


(Marisa Monte: Vilarejo)


 


Há um vilarejo ali

Onde areja um vento bom

Na varanda, quem descansa

Vê o horizonte deitar no chão


 


Pra acalmar o coração


Lá o mundo tem razão

Terra de heróis, lares de mãe

Paraiso se mudou para lá


 


Por cima das casas, cal


Frutas em qualquer quintal

Peitos fartos, filhos fortes

Sonho semeando o mundo real


 


Toda gente cabe lá

Palestina, Shangri-lá

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Vem andar e voa


 


Lá o tempo espera

Lá é primavera

Portas e janelas ficam sempre abertas

Pra sorte entrar


 


Em todas as mesas, pão

Flores enfeitando

Os caminhos, os vestidos, os destinos

E essa canção


 


Tem um verdadeiro amor

Para quando você for

É doce morrer no mar


(Dorival Caymmi: é doce morrer no mar)


 


É doce morrer no mar,

Nas ondas verdes do mar




A noite que ele não veio foi,

Foi de tristeza pra mim

Saveiro voltou sozinho

Triste noite foi pra mim




É doce morrer no mar,

Nas ondas verdes do mar




Saveiro partiu de noite, foi

Madrugada não voltou

O marinheiro bonito

Sereia do mar levou.




É doce morrer no mar,

Nas ondas verdes do mar




Nas ondas verdes do mar, meu bem

Ele se foi afogar

Fez sua cama de noivo

No colo de Iemanjá


 


É doce morrer no mar,

Nas ondas verdes do mar

Como




(pintura de Amy Cutler: Army of me)


 


Como dizer da nuvem

deste desamparo sem cor

como alterar rituais

que nos seguram

dias cinzentos noites mornas

espelho vazio

que não vemos pois multiplica

olhos fundos vapores fantasmas.


 


Como dizer do hábito

que nos obriga a sermos iguais

a tudo o que jurámos

ser diferente.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...