17 agosto 2008

Famílias




(pintura de Amy Cutler: Viragos)


 


Conheço famílias monoparentais e famílias poliparentais, com uma mãe, com duas mães, com mãe e avó, com tia e avô, sem mulheres, famílias de menores, famílias de velhos, famílias com um pai, muitos pais, com amigos e primos, com amigas dos primos, com cães, gatos, peixes.


 


Conheço famílias com dinheiro e sem ele, com televisões, com telemóveis, com comprimidos, com bebidas, com armas, com estaladas e murros, com gritaria e arrancar de cabelos, com solidão e vazio, com mortos nos armários, com silêncios e rupturas.


 


Conheço famílias com beijos e palmadas nas costas, com suspiros de resignação, com voltas e reviravoltas das cabeças, com espaços por ocupar, com mãos entrelaçadas nos passeios, corpos arrulhando devagar, com roupa desarrumada e paredes forradas de livros.


 


Não há garantia de estruturação ou de felicidade. Não se sabe se alguém se mata ou mata o parceiro, ame mais por ser homossexual, heterossexual ou assexuado, saiba gerir as emoções, desista de tudo ou invista em nada, que dê pontapés no destino ou arranque as pedras da calçada.


 


A única garantia é que há sempre hipótese de ser feliz, todos os dias teremos que fazer essa aposta, com pais ou sem eles, com mães ou sem elas, às vezes e sempre e sobretudo por nós, quando e se conseguimos encher um cantinho do coração de alguém.

16 agosto 2008

Segredos de Estado

A manutenção do secretismo no que diz respeito ao relatório do IGAI sobre a actuação das forças de segurança (PSP e GNR) apenas aumenta a insegurança das populações. Se há erros de actuação, ilegalidades, défices de formação, etc, eles terão que ser reconhecidos e corrigidos.


 


As armas devem ser usadas quando estritamente enquadradas na lei. Todos temos que confiar que a PSP e a GNR só as usam quando devem, quando não podem deixar de o fazer, o que implica da parte dos seus agentes uma disciplina e formação imensas e rigorosas.


 


Mas também me parece estranho que este relatório, pelo que dizem os jornais, sendo  referente a 2006, só agora ter sido retirado das (secretas) gavetas do estado.

15 agosto 2008

Catástrofe adiada

Parece que os resultados económicos divulgados pelo INE não são tão maus como alguns previam (queriam?). Ainda bem.


 


O PSD desespera pelas notícias que lhe dariam todas as razões. Enquanto tal não acontece, entretém-se com as festas do Chão da Lagoa e do Pontal.


 


O problema de Manuela Ferreira Leite não é faltar a essas celebrações bacocas do populismo mais basista. O problema é que o silêncio se desmultiplica em ruidosas opiniões de todos os que estão decididos a destroná-la.


 


É uma estratégia muito original, não há dúvida.

Medalhas

Os acontecimentos desportivos internacionais, campeonatos de futebol e jogos olímpicos, são as ocasiões que o país deprimido procura para mostrar a sua excelência. Nem que durante todos os outros dias ninguém se lembre dos velejadores, lançadores de peso, judocas ou outras modalidades desportivas.


 


Durante a última semana e para a próxima seremos acordados ao som das medalhas que de certeza vão ganhar e das medalhas que infelizmente não ganharam.


 


Os nossos atletas merecem mais respeito dos seus compatriotas. O seu esforço e empenho, mesmo sem medalhas, estão de parabéns. Todos seríamos mais felizes se o percebêssemos.

14 agosto 2008

Se estou só, quero não 'star


(poesia de Fernando Pessoa)


 


 


Se estou só, quero não ‘star,

Se não ‘stou, quero ‘star só,

Enfim, quero sempre estar

Da maneira que não estou.


 


Ser feliz é ser aquele.

E aquele não é feliz,

Porque pensa dentro dele

E não dentro do que eu fiz.


 


A gente faz o que quer

Daquilo que não é nada,

Mas falha se o não fizer,

Fica perdido na estrada.

Justiça

Se a população não sentir que as forças de segurança actuam rápida e eficientemente, defendendo os cidadãos dos roubos, das armas, dos reféns, das ameaças, poderão ser tentadas a fazer justiça pelas próprias mãos. Aí sim, deixa de haver condições para que se faça justiça.


 


A PSP e a GNR não estão acima da lei e a sua actuação deverá sempre ser escrutinada. Mas não se confundam as forças de um estado democrático cuja função é manter a ordem pública e pugnar pela segurança dos cidadãos com irresponsabilidade e banditismo de estado.


 


Espero que as circunstâncias que levaram à morte de uma criança numa cena de tiros com a polícia sejam totalmente esclarecidas. Para que os cidadãos possam confiar, mesmo quando é inevitável a morte de alguém. E é essa inevitabilidade que deve ser esclarecida. Assim como a presença e uma criança num carro que participava num assalto, a acreditar no que os jornais dizem. Também isso deveria ser evitável. Inaceitável é, decerto.

Esperar

Algumas vezes precisamos de dizer qualquer coisa, de mostrar algumas amolgadelas interiores, de expulsar algumas tristezas que correm o perigo de se incrustarem e infectarem a vontade de as ultrapassar. Mas não há palavras nem imagens suficientes. Apenas esperar que o tempo melhore.

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...