21 julho 2008

Estala o verniz

Podemos ser todos a favor dos pobres e dos oprimidos, da igualdade e da solidariedade, da partilha, do amor, da paz e de todos os sentimentos nobres de que nos lembrarmos, que constituem o verniz da civilização ocidental, estando ainda geneticamente incorporado em raros e excepcionais exemplares.


 


Mas o que temos presenciado, em exigências, vitimizações, manifestações e ultimatos de grupos, pertencentes a minorias étnicas, raças, religiões, corporações profissionais ou outras formas de associação de pessoas com traços comuns, físicos, culturais, laborais ou ideológicos, faz estalar o verniz a uma velocidade assustadora, deixando transparecer o fundo animal e troglodita da maioria da espécie.


 


Não é mais possível em nome dos valores universais de convívio e respeito sociais aguentar a arrogância de quem se pensa merecedor de direitos sem perceber que tem que cumprir deveres e aceitar responsabilidades.


 


Não é mais possível assistir impavidamente ao atropelo dos direitos de todos os outros cidadãos, da Quinta da Fonte e de todas as quintas, fontes, estradas, pousios, praias, ermos, casarios, condomínios privados, abrigos sociais ou hotéis de muitos dias e noites existentes por esse país fora, assistir à chantagem de algumas famílias de ciganos da Quinta da Fonte que, para além de ocuparem espaço público como se fosse sua propriedade, fazem ultimatos ao governo para que lhes dêem casas onde entenderem, ameaçando com concentrações nacionais.

19 julho 2008

A metamorfose das plantas dos pés


poema de Catarina Nunes de Almeida


A metamorfose das plantas dos pés


 


Um pedaço de pão na boca e mastigo os campos.

Reconheço a linha do meu ventre

céu folhas e lagos subterrâneos

sem nunca ter medido a sombra dos frutos.


Neste canteiro branco no meio de cobertores

o corpo tem o peso da tua semente.

18 julho 2008

Notável

Não se pode justificar tudo pela necessidade de pragmatismo. O nosso primeiro-ministro ofendeu as democracias com tão rasgados elogios a José Eduardo dos Santos e ao notável trabalho que tem feito.


 


Há limites para tudo.


 



 

Nelson Mandela


 


São raras as pessoas desta têmpera, que fazem de facto a diferença.


 


Parabéns, Nelson Mandela. É um privilégio ter assistido à sua libertação e ao fim do apartheid.

O contraditório

A somar aos pedidos de contraditório aos comentários políticos de Marcelo Rebelo de Sousa, agora juntam-se os pedidos de contraditório no que diz respeito à indignação pelos presos políticos.



De uma forma que me deixa indisposta, quem lê os posts de Vítor Dias só pode considerar-se limpo de consciência se, por cada refém das FARC que denunciar e pedir para ser libertado, associar a denúncia e o pedido de libertação de um sindicalista preso pelo regime encabeçado pelo Presidente Uribe.



Nesta contabilidade não sei quantos sindicalistas valem a liberdade de Ingrid Betancourt, ou quantos posts de indignação e solidariedade pelos comunistas presos na Colômbia se devem somar para justificar os posts que pediram a libertação de Ingrid Betancourt.



A condenação das FARC não implica a defesa das políticas praticadas pelo regime colombiano, nomeadamente a perseguição de sindicalistas, comunistas, jornalistas e outros, pela exposição e defesas das suas ideias, da corrupção e do narcotráfico.



Sei pouco do que se passa na Colômbia. Mas através do Human Rights Watch encontrei vários artigos, incluindo o relatório mundial de 2008, onde se fala de atentados aos direitos humanos por parte dos grupos paramilitares e terroristas, onde se inclui as FARC, e do próprio regime. Ninguém está inocente.



A indignação por quem sofre em regimes totalitários é universal, para os de direita e para os de esquerda, em todos os países em que tal sucede, sejam eles em que continente for. Mas o PCP e os seus porta-vozes, preferencialmente não se referem ou encontram sempre justificação para os atropelos à liberdade, quando praticados por quem o PCP aceita como seus companheiros, defendendo os trabalhadores e os democratas, como as FARC, nem que a justificação seja apenas a oposição a regimes que também atropelam os direitos humanos.



Ao contrário de Vítor Dias não contabilizo a minha solidariedade nem a minha revolta.

17 julho 2008

Explicações


 


Há algo que me escapa na estratégia da nova direcção do PSD. Não consigo compreender como é que um partido que pretende ser governo consegue defender que: O papel do PSD na oposição não é apresentar alternativas às propostas do Governo, mas sim fiscalizá-lo.


 


Como é que é possível levar alguém a sério (a tão famosa credibilidade) quando Manuela Ferreira Leite, sem se rir e a propósito do relatório do Banco de Portugal, questiona: “Não há medidas até lá? Não há nada susceptível de ser feito para melhorar esta situação? Já lançaram os braços abaixo, já acham que 2009 é pior que 2008?


 


Mas o mais espantoso é esta afirmação: Parece-me um Governo que lançou os braços abaixo, que está esgotado, que não tem ideias e sabe muito bem governar em situação de grande prosperidade e fica absolutamente desorientado quando se entra numa situação de crise."


 


Será que Manuela Ferreira Leite considera que o estado em que o partido dela deixou o país, em 2005, foi de grande prosperidade?


 


Onde estão Pacheco Pereira, Paulo Rangel, Aguiar Branco e todos os outros? Preciso urgentemente que me expliquem o que Manuela Ferreira Leite quer dizer, porque eu não devo ter percebido.

16 julho 2008

A Criança em Ruínas


poema de José Luís Peixoto:


A Criança em Ruínas


pintura de Amy Ross: Cow Birch with Barred Owls


 


tenho aquela que me olha e que olho


e misturamo-nos como brisas e


silêncios e digo tenho aquela que


me vê e ela olha-me e tudo o


que somos é uma partilha uma


mistura e digo diz e aquela que


tenho beija-me num olhar e num


silêncio que não posso dizer

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...