21 junho 2008

Por fim


(pintura de Elizabeth Willmon: Reason Enough)


 


Sobre a terra

calcamos as mãos

raízes

sorvemos a força

ser assim

castanho verde

semente água

rebentamos de vida

por fim.

De novo o Bloco Central


 


E de repente começamos a ouvir falar do Bloco Central, do novo Bloco Central, da inevitabilidade do Bloco Central, do sebastiânico e do salvador Bloco Central.


 


Mas se estivermos com atenção percebemos que quem em lançado essa ideia, esse boato, essa inevitabilidade, são militantes ou simpatizantes do PSD, como o digníssimo Prof. Marcelo.


 


Ou seja, o PSD está tão sedento de poder e percebe de tal forma que não consegue ganhar as eleições, que está já a fazer uma campanha de usura, demonstrando que o PS não consegue maioria e que, portanto, deve votar-se no PSD para lhe dar força para uma salvadora e indispensável, para o PSD, coligação pós eleitoral.


 


É claro que à esquerda do PS o fantasma do Bloco Central também serve, pelas razões simétricas.


 


Estamos a mais de 1 ano das eleições legislativas. Convém que o PS perceba que só lhe interessa dividir claramente as águas com o Bloco de Esquerda, com o PCP e com o PSD, demonstrar a falência/ausência de ideias à direita e à esquerda, demarcar-se da política de direita em Portugal e na Europa, afirmar-se como um partido de um governo reformador e que quer manter o estado social, renovando-o e alterando-o.




Nada pode ficar parado e à espera dos amanhãs que nunca mais cantam. Há 30 anos o mundo era diferente. O PS deve demonstrar sem medo que quer a mudança que outros não foram capazes ou não a querem fazer fazer, mantendo as bandeiras da igualdade de oportunidades, de serviço público de qualidade em que se insere a segurança, a educação e a saúde, os valores da tolerância e da integração dos imigrantes, o respeito pelos outros.


 


É bom que o PS acorde. O país não aguenta outra vez a hipótese de voltar para trás.

Sucesso da estatística

Não alinho com as vozes do costume que acham que este Ministério da Educação, mais precisamente esta Ministra, trabalha para as estatísticas e para a redução do insucesso escolar de forma desonesta, alterando todos os anos as premissas do que é o mínimo e o razoável da aprendizagem.,


 


Mas é muito difícil ignorar as opiniões de quem não tem quaisquer interesses políticos em desacreditar as provas nacionais que se vão fazendo.


 


E isto não me parece nada sério. É mesmo a pior maneira de melhorar as estatísticas, porque assenta no pressuposto de que os cidadãos são indigentes mentais.

20 junho 2008

Inconsequente


(pintura de Rachel Baum: Scarlet Moon 2)


 


Entre a lua que descansa e assombra

o sol que abrasa e cega

não há médias luzes

nem banhos de espuma

que nos afrontem.

 

Esperamos a paz impossível

de batalhas inconsequentes

da penitência que une armas

e almas

tão desiguais.

18 junho 2008

Directiva de retorno

Não é esta a Europa que eu quero.

Que Europa queremos?

O resultado do referendo ao Tratado de Lisboa tem sido muito comentado por várias pessoas, entre as quais Luís Naves, do Corta-fitas, que sempre se debruçou seriamente sobre a construção da nova Europa.


 


Do seu último post sobre o assunto, tenho a comentar que:


 


(...) Com as actuais instituições, a Europa não irá a lado nenhum, porque não funciona. Tentei explicar com um exemplo que devia ser clássico: no tratado de Nice, o trio composto por Lituânia, Bulgária e Portugal tem os mesmos votos que a Alemanha no Conselho Europeu, o órgão máximo. Isto é IRREALISTA; no novo tratado, o equilíbrio de poder favorece a Alemanha, pois esta tem 82 milhões de habitantes, contra os 22 milhões do trio anteriormente referido. A regra da população é a mais democrática e permitirá que a máquina tenha ambição. (...)


 


O argumento do número de habitantes em vez do número de países, para se avaliar da democraticidade e dos equilíbrios de poder, esquece que a União Europeia não é um país nem um Estado soberano. Ou seja, são os Estados independentes que devem ser colocados em pé de igualdade e não a soma dos habitantes de cada país.


 


(...) No tratado de Lisboa é sobretudo importante o novo equilíbrio de poder entre Estados (que repõe o domínio dos grandes existente antes do alargamento) e a expansão das decisões por maioria qualificada. Em resumo, a UE terá maior facilidade em legislar e o equilíbrio de poder é definido segundo o critério da dimensão populacional. (...)


 


Mais uma vez o critério da maioria populacional. Por outro lado as decisões por maioria qualificada de número de Estados, com tão grande número de Estados, pode ser facilitdora.


 


(...) Todos manifestam a mesma desconfiança em relação a governos que negociaram o tratado e a mesma ideia (a meu ver errada) de que só um referendo é democrático. (...)


 


A desconfiança existe e tem razão de ser. Em primeiro lugar é tão democrática a ratificação no Parlamento como em referendo. O que já não é democrático é a não realização de referendo pelo receio da rejeição, já não falando na quebra de promessas eleitorais. Não houve qualquer cuidado em tentar fazer campanha a favor da bondade deste tratado, mas houve todas as cautelas para evitar os referendos. Isso é que me parece pouco democraático.


 


(...) Esta é uma concepção de Europa muito específica, uma gigantesca zona de comércio livre com o mínimo de órgãos e políticas comuns. (...)


 


E será que os cidadãos europeus querem ou sentem necessidade de ter uma Europa diferente? Já alguém se deu ao trabalho de os convencer que o aprofundamento político é melhor que a manutenção de uma gigantesca zona de comércio?


 


(...) Na minha opinião, esta é a discussão que interessa ter. Que Europa queremos. (...)

 


Concordo totalmente. Mas essa é a discussão que nenhum patido político quer ter. E é isso que faz com que as opiniões públicas desconfiem destes tratados.


 



 

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...