13 abril 2008

Dentro da vida

Não estamos preparados para nada:


certamente que não para viver


Dentro da vida vamos escolher


o erro certo ou a certeza errada


 


Que nos redime dessa magoada


agitação do amor em que prazer


nem sempre é o que fica de querer


ser o amador e ser a coisa amada?


 


Porque ninguém nos salva de não ser


também de ser já nada nos resgata


Não estamos preparados para o nada:


certamente que não para morrer


 


(poema de Gastão Cruz)


 



(pintura de Judith Goldstein: The Tree of Life and Death)

Campos

Os vivos sobrevivem, condição


simples de quem será sobrevivido


 


Olhando os campos verdes do inverno


é como se no escasso coração


 


da minha vida o sangue recebido


de quem antes viveu ficasse eterno


 


até à minha morte e, depois dela,


noutros sobreviventes esse rio,


 


não meu e meu ainda, perdurasse


E os campos, que não vela


 


nenhuma névoa humana, o mesmo rio


do meu sangue para sempre inundasse


 


(poema de Gastão Cruz)


 



(pintura de Carry Ackroid : Green Fields )

Enquanto

Enquanto não estamos preparados
para o canto da lareira
o adormecimento trôpego
de xailes e barbas brancas
enquanto não chegarmos à beira
do afundar das cadeiras
do ensurdecer de mudez
enquanto olharmos o tempo
de lado sacudindo inércias
saberemos atar as mãos
que manteremos apertadas
por sementes e ramos verdes
entre pássaros aninhados.


 



(pintura de Andrew Newman : Long House West of Lancaster , III)

Democracia individualizada

Tenho acompanhado, com alguma estupefacção, a polémica à volta da contratação de Fernanda Câncio para um programa da RTP2 .


 


O PSD, que tanto se preocupa com a qualidade desta democracia, com o medo instalado na sociedade portuguesa, com as perseguições por delito de opinião, empenha-se agora em desacreditar totalmente a função nobre de político.


 


Este PSD junta uma incompatibilidade: o ter relacionamentos pessoais com os detentores de cargos públicos.


 


Não se sabe exactamente até que tipo de relacionamento se deve estender a incompatibilidade: namorado (a)? Irmão (ã)? Pai (mãe)? Filho (a)? Primo (a), do 1º, do 2º grau? Ex-mulher (marido)?


 


Mais uma proposta de lei a apresentar na Assembleia da República: o melhor mesmo é os políticos serem ascetas, orfãos , solitários e autistas, totalmente consagrados à pátria.


 


Extraordinário.


 


Adenda: este post foi refeito pois tinha pressupostos errados. As minhas desculpas a quem já o tinha lido.

12 abril 2008

Andy Newman

Andrey Newman expõe de novo na galeria Arte Periférica. Dei com ele, literalmente, por acaso.


 


A sua pintura é lindíssima.


 



(Acending Road, Carme)


 


(Back Street, St. Ives)                                           

Registos (2)

Em relação ao meu post anterior, já estão disponíveis, no site do Ministério da Educação, o Memorando de Entendimento entre o Ministério da Educação e a Plataforma Sindical dos Professores, datado de hoje, documento a que se chegou após uma longa maratona negocial e que motiva tanta satisfação a Mário Nogueira, e os títulos de recuo, cedência e etc da Ministra, que proliferam pelos media e pelos blogues. Vale a pena comparar a totalidade do texto com um outro, também disponível no mesmo site, Proposta do Ministério da Educação apresentada à Plataforma Sindical dos Professores, datado de ontem, e que foi o documento que serviu de base à tal maratona negocial.


 


Convém que nos apercebamos de que a manipulação das notícias é selvática e vergonhosa. A única diferença entre um documento e outro, para além da modificação das posições de alguns pontos e da ligeira diferença de palavreado, é a alínea e) do ponto1, em que se diz que a classificação dos professores avaliados na época de 2007/208 será baseada apenas nos pontos obrigatórios mínimos, especificados na alínea b), que têm uma redacção diferente do documento do ministério, mas que querem dizer praticamente a mesma coisa.


 


Ainda bem que há internet e que os cidadãos podem ajuizar por si e pensar por eles próprios.

Incompetência

Muitas vezes me interrogo sobre a competência dos colaboradores dos vários ministérios, dos servidores da administração pública, dos deputados, dos “rascunhadores “ de leis.

A quantidade de inconstitucionalidades, de disparates, de intenções que se manifestam para recuarem de imediato após as retumbantes reacções e os cabelos em pé da razoabilidade.

Mais do que um ataque à liberdade de expressão, de uma qualquer maquiavélica vontade de poder absoluto e de autoritarismo antidemocrático, a hipótese de aplicabilidade do RDM aos militares na reserva e na reforma é de tal modo disparatada que só pode ser por incompetência atroz.

Mas será que ninguém pensa?

E que tal uma avaliação de desempenho?

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...