30 dezembro 2007

Balanços

Eu sou apologista de fazer balanços. Penso mesmo que é inevitável. Podem utilizar-se datas certas ou irregulares, fazer balanços cíclicos ou esporádicos, mas todos nós fazemos balanços dos mais diversos aspectos da vida, diariamente, pois é assim que tomamos decisões.

Para mim este ano que passou foi de grandes mudanças e emoções. Difícil mas estimulante, acabaram-se umas coisas e começaram-se outras.

Se calhar quem mudou mais até fui eu. Temos tendência a atribuir as alterações da nossa vida a estímulos exteriores, mas a verdade é que nós também mudamos a forma de olhar e valorizar os acontecimentos, as pessoas, a importância e prioridade dos primeiros, os valores e princípios das segundas.

As mudanças fazem-se após momentos de crise e revolução interior. Em nós, em termos orgânicos e comportamentais, tal como nas sociedades que construimos e conservamos.

Talvez o país vá mudar, pois está já em crise há demasiado tempo. Quem sabe se 2008 não será o ano da verdadeira, radical, estimulante e esperançada mudança?


(escultura de Ron Whitacre: balance)

29 dezembro 2007

Blogue permissivo

Aqui, pode fumar, beber, comer, conversar, enfim, o que lhe apetecer.

Será?

Será que, após o anúncio do nome de Faria de Oliveira para a presidência da CGD, Luís Filipe Menezes acha que Vítor Constâncio já não precisa ser demitido?

Agitação

Continua a manipulação política e jornalística em volta dos encerramentos dos Serviços de Atendimento Permanentes (SAPs).

Às notícias que dão conta das contas que os doentes terão que pagar aos bombeiros voluntários para ir à urgência mais próxima, não há ninguém que pergunte se os valores não serão idênticos aos que eram pagos quando os doentes que verdadeiramente necessitavam de cuidados de urgência tinham que ser enviados para o hospital. E também ninguém pergunta quantos doentes verdadeiramente urgentes eram atendidos nos SAPs e quantas situações verdadeiramente urgentes eram tratadas nos SAPs.

Porque essa é a verdadeira questão. Se as populações com os SAPs abertos toda a noite, com um médico e/ou um enfermeiro num local sem capacidade para resolver problemas urgentes de saúde estavam mais bem atendidos ou teriam melhor qualidade e maior brevidade no atendimento.

Se os milhões de euros que se poupam servem para financiar a abertura de Unidades de Saúde Familiares, investindo no aumento da capacidade de atendimento das pessoas doentes, sem que elas necessitem de recorrer a um serviço de urgência, investindo em ambulâncias com suporte básico de vida, bem apetrechadas, rápidas e com pessoal formado, é o que se pede a um ministro e a um governo responsáveis.

Esta reorganização estava agendada e decidida, apoiada por relatórios que, de início, foi incontestada tecnicamente e que, agora, é contestada de uma forma demagógica e populista.

Chega-se ao ponto de se dizer que Arlindo Carvalho teria afirmado que reabriria as urgências que estão a ser encerradas quando, EU OUVI, ele apenas disse generalidades sobre reaberturas dos processos e reavaliações sobre o que se estava a fazer, não se comprometendo nunca a alterar fosse o que fosse.

Em Portugal é preciso é agitar as massas com generalidades gritantes e que movimentem muitos braços, muitas línguas e muitos corações, que alimentem ares indignados, espantados e circunspectos. A realidade é outra coisa muito mais desinteressante.

27 dezembro 2007

Aniversário

Somam-se folhas no romance que criamos
cavam-se rugas merecidas
abrem-se feridas beijam-se feras
costuram-se almas desfiguradas.

Pelo uso e desuso pelo tempo que perdemos
colamos cacos que desfizemos

e no fim dos dias descansamos.


(pintura de Eric Wakefield: birthday paintings - roger's cake)

Notícias

Há dias que ficam marcados pelas primeiras notícias, outros que ficam marcados por algumas notícias.

Ingrid Betancourt fez 46 anos a 25 de Dezembro. Há vários anos em cativeiro, esta combatente pela liberdade e pela democracia esvai-se nas caminhadas, na falta de tudo o que nós damos por garantido. Todo o dia me acompanharam as palavras húmidas da mãe, as palavras doloridas, quase resignadas dela própria, escritas na última prova de vida.

Hoje, numa pausa entre vários assuntos de trabalho, li nos jornais online que Benazir Bhutto tinha sido assassinada, ao mesmo tempo ou depois de um atentado suicida. Finalmente conseguiram calar uma voz incómoda, reduzir a nada as eleições que estavam marcadas para Janeiro e elevar outra vez ao rubro a tensão naquela parte do mundo.

Será que o regime democrático está agonizante? Há um recrudescimento dos fundamentalismos, da violência como arma política, do primado despudorado do poder económico, do dinheiro, proveniente de negócios escuros e pantanosos, do tráfico de armas, de bens, de pessoas, de drogas.

O que se está a passar, ou já se passou, com o BCP é assustador. Não porque chegamos à conclusão de que a corrupção é uma constante nas esferas onde se trocam dinheiro e influências, mas porque percebemos que só se sabem e só se comentam estes casos porque alguém resolveu dar informações a outro alguém e não porque há moralidade, ética ou, em última análise, justiça.

Os negócios políticos entre o PS e o PSD estão agora a dar os seus frutos. Os acordos de cavalheiros em que se mexe ou não em determinados assuntos, para assegurar que eles e só eles partilham o banquete de príncipes, determinam distorções da representatividade democrática e dos direitos de cidadania, ao acabarem com os partidos que têm menos de 5000 assinaturas. Ninguém percebe qual é a justificação para esta medida ou seja, todos percebem que é injustificável.

Amorfos e adormecidos pelas festas de quem não sabe festejar, vamos levando o dia a dia, cada vez mais a preto e branco, crentes ou ateus na nossa impotência.

Assim foi 2007, e assim será 2008. Ou não?

24 dezembro 2007

Romance Tradicional

Um pastor vindo de longe
À nossa porta bateu;
No seu recado nos disse:
- O Deus-Menino nasceu

Esse recado escutámos
Já meia-noite seria.
Estrelas do céu, lá vamos
Dar parabéns a Maria.
Mas que havemos de levar
A Jesus que tudo tem?
Quem tudo tem também gosta
Que alguma coisa lhe dêem.
- Eu lhe levo um cordeirinho,
O mais lindo que encontrei!
- E eu lhe levo um requeijão,
O melhor que requeijei.
- Pois também comigo levo
Fofinhos, se ele quiser,
Bons merendeiros de leite,
E mel para ele comer!
Vamos ter com os mais pastores,
Não se percam no caminho.
Vamos todos mui dapressa,
Adorar o Deus-Menino.
- Vinde todos, pastorinhos,
Vinde, correi a Belém;
Vinde visitar Maria
Que divino Filho tem.

Esta noite é santa noite,
Quente, quente, embora fria.
Vamos todos a Belém
Visitar Jesus, Maria.

- Ai que formoso Menino!
Ai, a graça que ele tem!
Ai, que tanto se parece
Com Senhora Sua Mãe!...


[poema de José Régio (?); Oficina da Terra: presépio]

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...