Todas as famílias são disfuncionais.Há pais ausentes e mães dragões, pais galinhas e mães tecnocráticas, pais e mães do mesmo sexo, pais e mães sem sexo, filhos únicos tímidos, filhos únicos centros de mesa, filhos múltiplos que se matam, filhos múltiplos que se amam, mães solteiras, pais viúvos, mães e pais separados dentro de casa, mães e pais separados por continentes, mães e pais sem filhos, filhos sem pais nem mães, avós que são pais, avós que são filhos, filhos que fazem tudo, pais e mães super todos, filhos malcriados, embirrentos, quezilentos, pais torturantes, manipuladores, abusadores, assassinos, filhos que sovam os pais e os avós, que fogem, que roubam, que se drogam, que se matam de fome, que se matam de fartura.
A minha família só é normal porque é minha e porque nela aprendemos a gerir o nosso quotidiano, os nossos amores e desamores, a nossa parcela necessária e suficiente de desajustamento.
Não há modelos, normas ou critérios aplicáveis, objectivos e testados, de se crescer em harmonia, com o mundo ou connosco.
Todos os dias procuramos fragmentos da felicidade, cada um à sua medida, cada forma irrepetível e teimosa. No fundo, se nos afastarmos um pouco do nosso conglomerado celular, veremos que tudo é absurdamente igual e por isso mesmo eficazmente diferente.
(pintura de Bé van der Heide: the Good Lord is looking after you)

