15 julho 2007

Eleições intercalares de Lisboa

(Às 21:51h)

A abstenção, como se esperava, foi homérica.

Custa-me muito que se ouça, a todo o instante, o discurso dos maus políticos e da má política, quando os cidadãos se demitem de se pronunciar, se alheiam da cidadania. Era bem melhor que nos exigíssemos mais a nós próprios, em vez de carpirmos a nossa própria incapacidade de intervir.

O PSD (e Marques Mendes) perdeu tudo o que tinha a perder: perdeu pelo tempo que a Câmara levou a cair; perdeu porque não houve dissolução da Assembleia Municipal; perdeu porque Paula Teixeira da Cruz, entre outros, não avançou; perdeu porque escolheu Fernando Negrão; perdeu porque ficou em terceiro lugar; perdeu porque ficou atrás de Carmona Rodrigues.

O CDS (e Paulo Portas) perdeu tudo o que tinha a perder: perdeu porque incorporou uma estratégia de ataque a Maria José Nogueira Pinto; perdeu porque Paulo Portas não avançou; perdeu porque escolheu Telmo Correia; perdeu porque não conseguiu eleger nenhum vereador.

O BE perdeu pouco: apenas conseguiu manter um vereador.

José Sá Fernandes ganhou: os votos foram para ele, que fez um bom lugar.

Helena Roseta ganhou mais do que perdeu: conseguiu eleger mais que um vereador.

O PCP (e Ruben de Carvalho) ganhou: merecia, pela seriedade e bom trabalho desenvolvido.

Carmona Rodrigues ganhou e muito: ficou em segundo lugar depois de ter caído com a Câmara; ficou à frente do candidato do partido que lhe retirou o apoio.

O PS (e António Costa) ganhou: ganhou a Câmara; não contabilizou os votos contra o governo; foi pouco tocado pelos independentes, embora a presença de Helena Roseta o possa ter impedido de ter maioria absoluta.

Enfim, daqui a dois anos há mais.

Teorizemos

Segundo o site da meteorologia, hoje prevê-se chuva em Lisboa e uma temperatura máxima de 25ºC.

Para além do número de eleitores a mais, fantasmas, inscritos nos cadernos eleitorais de Lisboa, como, aliás, do resto do país, o que aumenta artificialmente a abstenção, tenho curiosidade em ouvir as justificações para não se votar.

Há já várias explicações, segundo os vários comentadores, que vão desde o sol, a praia, as férias, a falta de assunto para se discutir, a fraca campanha, a tristeza dos candidatos, enfim, há para todos os gostos.

Mas também há apelos que, por si só, são já uma explicação engenhosa da provável elevadíssima abstenção – a desobediência civil.

De facto é uma forma de luta teoricamente interessante, não se sabe bem é com que objectivo. Se as pessoas utilizassem essa arma para protestar (?) seria bom que quem defende semelhante opção nos esclarecesse como se deveria encarar o dia seguinte. Acabava-se com as eleições? Como se escolhiam os governantes? Não havia governantes, ou seria melhor organizar um golpe de estado, ou uma revolução, encabeçada por um herdeiro de Salazar que guiasse (e mandasse) este povo de maus costumes, esta sociedade dissoluta, em que até se fazem referendos e se aprovam leis contra a vida? Ou, pura e simplesmente, numa orgia de cada um por si, não houvesse qualquer forma de governo? Ou íamos buscar o D. Duarte Pio e restaurávamos a monarquia? Ou então o proponente da desobediência civil inaugurava a sua própria dinastia?

Gostaria de saber como se levam até à última consequência determinado tipo de ideias. Ou, pura e simplesmente, são apenas um exercício de estilo azedo, resmungão, apocalíptico, resinoso e rezingão, e não são para levar a sério?

14 julho 2007

Abandono

Sei do gozo e do infinito
de te querer
de sair do meu corpo
e fugir
para o fundo de ti.

(escultura de Camille Claudel: o abandono)

A Comissão para a Idiotia Total

Há valores, hoje em dia, que são totalmente diferentes do que existiam há 20, 40, 80 anos. A sociedade mudou, à custa de novas descobertas científicas, de novos relacionamentos entre os povos, de novos valores, nomeadamente os valores de igualdade racial, respeito pelas minorias e protecção dos mais fracos, assim como na educação das crianças.

Mas as mudanças não deverão levar à extinção do que agora se considera incorrecto. A pseudo-moralização que tomou conta da nossa sociedade é ridícula e muito preocupante.

Desde os cartoons de Maomé, à substituição do cigarro de Lucky Luke e, mais recentemente, às reacções a um vídeo promocional europeu que colecciona fragmentos de cenas de orgasmos de um conjunto de filmes, e agora à proibição de colocar o álbum de banda desenhada Tintim no Congo nas prateleiras de livros para crianças, após a declaração da Commission for Racial Equality, no Reino Unido, de que este álbum é altamente ofensivo pelos estereótipos raciais que demonstra, que se tem assistido ao império do pensamento único, da educação única, da moralidade única, do conceito artístico único, tudo com a pretensão de nos proteger e guardar de maus pensamentos, palavras e actos.

É difícil compreender tanto obscurantismo, tanto preconceito e tanta ignorância. Felizmente, nem toda a gente se rendeu à idiotia pseudo-correcta e pseudo-igualitária.

Esperemos que o bom-senso prevaleça.

(agradecimentos ao
Corta-fitas)

Lembro

Lembro-me dos dedos
na areia
da dormência cálida
do sol
do líquido dos teus olhos
na minha sede.

(pintura de Anthony Smith: beach scene)

Algumas notas (imprensa e blogues)

Sobre os resultados dos exames de Matemática do 9º ano, fica-nos o título espantoso de uma entrevista ao DN de ontem, à presidente da Associação Portuguesa de Matemática: Os exames prejudicam o ensino da matemática.

Como salienta Carlos Fiolhais no blogue De Rerum Natura, não se percebe bem se foi isso que a entrevistada disse, mas percebe-se que não acha a matemática muito compatível com exames. Não preciso de dizer que me parece absurda esta opinião. Se calhar o problema é exactamente o facto de não ter havido mais exames há mais tempo, em cada fim de ciclo, e que pesassem mais na nota final, para além de muitas e mais importantes alterações nos programas e métodos de ensino da matemática e, já agora, do português, das línguas, da ciências, etc, etc.

A Região Autónoma da Madeira não vai aplicar a lei da IVG. E assim se faz a afronta às leis da República que, segundo Alberto João Jardim, são as leis do Continente, com a conivência do governo e, até agora, do Presidente.

As análises, desmentidos, denúncia de imprecisões e correcções ao livro de Zita Seabra continuam, com tons e cambiantes muito diferentes. Interessantíssimo.

13 julho 2007

Algunos infelices

Todos necesitamos que nos quieran.
Algunos infelices, sin embargo,
no sabemos vivir para otra cosa.


(poema de Amalia Bautista; pintura de Shelly Roche: lovebirds)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...