07 maio 2007

A ignorância é muito atrevida

Hoje já ouvi várias vezes, na rádio, um anúncio da Avis em que se compara a equação E=mc² com um disparate qualquer ao cubo (elevado à potência de 3).

Tudo bem com a imaginação, mesmo que seja pouca, mas depois confundir-se o cubo com o triplo é que brada aos céus pela ignorância! Bem sei que uma manobra publicitária não pretende ser didáctica, mas ser objectivamente ignorante, induzindo o vasto auditório em erro, é tristíssimo e inaceitável.

Pois não sei se, por acaso, algum dos criativos do anúncio alguma vez lerá este post, mas aqui está uma explicação sobre a diferença entre o dobro, o triplo e o elevar a uma determinada potência:
  • dois ao quadrado (2²) significa 2x2, ou seja 4, assim como 3² significa 3x3=9 e 4² é o mesmo que 4x4=16
  • da mesma forma dois ao cubo (2³) significa 2x2x2=8, 3³ significa 3x3x3=27
  • o que é totalmente diferente de o dobro de dois (2x2), que é o mesmo que 2+2=4, assim como o triplo de três (3x3) é o mesmo que 3+3+3=9, ou o quádruplo de dois (4x2) que significa 2+2+2+2=8
  • portanto o triplo não é igual ao cubo, ou seja NxA=A+A+A+…+A (N vezes), mas Nª=NxNxNx…xN (a vezes)!!!

06 maio 2007

No fundo dos relógios

Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.


(poema de Filipa Leal; pintura de Frank Ettenberg: Cities of the Mind)

Vida eterna

O politicamente correcto ganhou mais uma batalha: a aprovação da lei antitabágica, por UNANIMIDADE, na Assembleia da República.

Ninguém contesta o direito dos não fumadores. Mas porque não se deixa ao critério dos donos dos restaurantes, bares, hotéis, etc, o facto dos seus estabelecimentos serem para fumadores ou para não fumadores?

Acho bem que comecem a pensar nas multas que farão pagar aos gordos. Quem comer mais que uma bifana, multa. Quem se recusar a comer sopa… multa! Quem preferir um gelado a uma saudável laranja… multa! Podem até encontrar-se formas de punição inovadoras: 3 voltas ao quarteirão em passo de corrida; 20 flexões; andar de bicicleta durante 1 hora; fazer três piscinas em 20 minutos.

Seremos todos mais saudáveis, mais belos, mais fortes, mais brancos, mais deuses, não sei se mais felizes, mas isso, como diria a outra, também não interessa nada.

Eleições

Sarkozy ganhou as eleições presidenciais, em França. Tenho pena, mas já se esperava.

De notar a extraordinária afluência às urnas, o que faz transparecer a preocupação dos franceses com o seu futuro, o que demonstra que a democracia ainda está viva e de boa saúde.

Vem aí o liberalismo e a força do mercado. Qual será a dimensão e a importância do estado francês nos próximos anos? Qual a política da imigração, com este filho de imigrantes?

Quanto ao futuro da União Europeia, vamos ver o que acontece. Sarkozy quer um mini tratado sem referendo. Ou seja cozinhar o que lhe interessa, com alguns dos grandes países, e fazer valer o seu peso político, económico e demográfico.

A França assim quis. Ainda não chegou a hora da esquerda, pelo menos desta esquerda francesa.

No nosso arquipélago da Madeira, Alberto João Jardim ganhou mais uns anos para insultar tudo e todos, principalmente os do contnente. Precipitou eleições por causa das finanças regionais. Será que pensa que assim vai ter mais dinheiro do contnente? Seguramente que ele não pensa isso, mas foi isso que ele levou os madeirenses a pensar. Temos mais uns anos de Carnaval assegurados.

05 maio 2007

Lisboa

A cidade está suspensa porque os vereadores, aqueles que se elegeram como seus representantes, se agarram a fios invisíveis, de teias já rasgadas, que se estendem a outras cidades.

A cidade está parada, pelos Carmonas, independentes ou dependentes, pelos Soares que foram e pelas Paulas que hão-de ser, pelas Marias Josés e pelos partidos, todos, de esquerda, de direita e sem partido.

Até quando?

Voltar

Estiquei todos os músculos, até ao limite do possível, após horas e horas de sono, encaracolado e profundo. Amanhã é dia de retomar viagens, caminhadas, físicas de quilómetros, mentais à velocidade da luz. Retemperar.

Para tanto não preciso de mais que dos braços que me esperavam, da cumplicidade de quem me quer. A vida é feita de partidas e gestos dolorosos, mas os reencontros reavivam a chama, movem mundos e abrem mares, que nos deixam voltar.

01 maio 2007

Granito

Gasto nos ombros
as forças tensas
do tempo a passar
por dentro de mim.

Com esforço inevitável
espreito hesito
na dor de continuar.
Estendo as mãos
em asas
pesadas como granito.
Ergo o corpo
ensaio o grito
preparo-me para voar.


(escultura de John Bernard Flannagan: The Early Bird)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...