25 abril 2007

Liberdade

Hoje
não fui acordada
pelo som
da multidão que gritava
feliz.

Hoje
fiz
da minha alvorada
o que quis.
Embrenhei-me
no meu país.


(pintura de Vieira da Silva)

Hospitais privados

O título da notícia de primeira página do Público de ontem demonstra bem a mistificação e a manipulação que se pretende fazer no que diz respeito à política de saúde e ao SNS. Se lermos o corpo da notícia ficamos a saber que entre 300 a 500 médicos pediram licença sem vencimento ou reforma. Mais adiante diz-se que houve 400 médicos a reformarem-se, sem explicitar se são a somar aos anteriores ou não. Depois afirma-se que, numa determinada unidade hospitalar pública, 8 de 800 médicos pediram licença sem vencimento para passarem a exercer medicina em hospitais privados. A enorme percentagem de … 1%! Depois fala-se em cabeças de cartaz que se mudaram para a privada – quais?

Há no entanto uma pequena frase, que eu gostaria que estivesse em letras garrafais, essa sim como título, em que se refere a exclusividade de funções pretendidas pelos hospitais privados.

E que tal o ministro da saúde seguir este exemplar exemplo??

25 de Abril

Há dias que têm anos
que têm segundos
velhos como a existência
de quem aguarda mundos
de quem já perdeu horas
de quem desespera
pelas demoras
de dias sólidos
e fecundos.

Todos os dias pelo dia
em que nos deram armas e flor
todos os dias pela semente
que ficou depois da cor
do perfume do ar leve
todos os dias sem temor
sem desistir
todos os dias a florir.

23 abril 2007

Ramo


Talvez eu não consiga quanto amo
ou amei teu ser dizer, talvez
como num mar que tu não vês
o meu corpo submerso seja o ramo
final que estendo já não sei a quem

(poema de Gastão da Cruz; pintura de Susan Hostetler: Tuscan Grove)

Dos heróis

À medida que vai deixando de haver ideias, debates de ideias, definições ideológicas, missões a cumprir, desígnios nacionais ou internacionais, lutas colectivas; à medida que o individualismo vai substituindo a noção da sociedade, da comunidade, em que o bem comum é menos importante que o bem próprio; à medida que os objectivos políticos se esbatem e em que não há diferenças entre os vários partidos; à medida que deixamos de acreditar em ideias passamos a acreditar nas pessoas.

Deixamos de pensar no geral para darmos importância ao particular, deixamos de ver o Homem como parte da humanidade, que tem uma função a bem da humanidade, para fazer de um homem o centro da humanidade e o responsável por ela.

Exigimos-lhe a perfeição; tem que ser belo, forte, sensível, saudável, inteligente, culto, bem pensante, sedutor, apaixonado, íntegro. Tem que ter sucesso, ter preocupações ambientais, dizer as coisas certas nos momentos certos, ser tudo o que nós não somos e gostaríamos de ser.

Nós não somos mas ele tem que ser. O nosso herói, o nosso deus, que nos salvará de todos e de nós mesmos. Retrocedemos da fase adulta para a fase da infância e da adolescência, em que os nossos pais são a encarnação do bem, capazes de tudo e imortais.

Temo esta sociedade cada vez mais perigosa, pela falta de esperança naquilo que podemos fazer enquanto comunidade, e pela demasiada ilusão na exigência a quem damos o supremo dom da nossa cega confiança.

21 abril 2007

Percursos erráticos

Tenho-me abstido de tecer considerações sobre o que se vai passando na área da saúde. Não porque me tenha desinteressado mas porque, quando me sinto a ficar obcecada por um determinado assunto, gosto de parar, ouvir e ler o que outros pensam. Há alguns excelentes blogues sobre este tema, com opiniões com que eu concordo, outras de que discordo, mas que me dão sempre novas perspectivas e abordagens diferentes das diversas polémicas que vão surgindo.

Uma das razões do meu silêncio é o facto de, cada vez com mais estupefacção e maior preocupação, estar a tentar descortinar qual a política de saúde que este ministro e este governo querem seguir.

Em geral tenho estado de acordo com a tentativa de reorganização do SNS, com a reestruturação dos serviços de urgência, a concentração de recursos, a tentativa de melhorar a eficácia dos serviços.

No entanto não percebo algumas situações que parecem recuos, depois deixam de parecer, depois mudam, enfim, manobras de distracção versus percurso errático do ministro.

O recuo na definição das incompatibilidades entre o público e o privado é, quanto a mim, um erro clamoroso e que o ministro vai pagar muito caro. Pelo contrário deveria, de uma vez por todas, assumir a total separação entre o público e o privado, fomentando uma verdadeira complementaridade e competição saudáveis. Querer agradar a gregos e a troianos, ensaiando entradas de leão para depois ter saídas de sendeiro, é o que parece ser a sua estratégia.

Relativamente aos acordos com os diversos municípios, no que diz respeito à reorganização dos serviços de urgência, após a publicação de alguns desses acordos em Fevereiro, só no passado dia 13 (que me tenha dado conta) foram publicados outros protocolos entre o ministério e vários municípios (ainda não tive tempo de os analisar cuidadosamente). Mas o que se está a passar com o Hospital de Curry Cabral?

Outro assunto muito interessante, e objecto de um artigo publicado já há uns meses (Setembro de 2006) no Portal da Saúde, é o do alargamento dos horários de funcionamento dos hospitais, para aumentar o número de consultas externas devido à enorme lista de espera das mesmas.

O alargamento dos horários nos hospitais, agora a ser implementados, mais do que um instrumento de redução das listas de espera para consultas (aliás é muito questionável se essas consultas deveriam ser feitas em hospitais ou se deveriam ser feitas em centros de saúde com consultas de especialidade, ou nas modernas USF), deveria ser um meio para aumentar a produtividade de todos os serviços e rentabilizar espaços, equipamentos e meios humanos.

Para que haja blocos operatórios, consultas externas, laboratórios de patologia, anatomia patológica e imagem, enfim, todo um hospital a funcionar das 8:00 às 20:00h, são necessários médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, secretários de unidade e auxiliares de acção médica em horários desfasados, por turnos, e de tal forma que haja algumas horas em que todos os elementos dos serviços estejam presentes, para se manter uma coesão dentro dos serviços e dentro do próprio hospital e para se mater a formação pré e pós graduada.

Parece que, afinal, o objectivo não é propriamente esse, até porque o aumento de cirurgias aumenta a despesa hospitalar, o que está proibido. Por outro lado, para manter um hospital a funcionar a tempo inteiro, são necessários mais profissionais, o que também está proibido.

Ou seja, o objectivo final é garantir a presença de médicos até às 20:00, para deixar de pagar horas extra a quem assegura atendimento urgente nas enfermarias (para além dos serviços de urgências gerais, abertos ao exterior).

Estas medidas de poupança pura e simples, mascaradas de medidas importantes e de fundo, entristecem e desmotivam os profissionais, e descredibilizam o governo. Se não é essa a intenção do ministério da saúde, então talvez não fosse má ideia o ministro precisar as suas orientações e verificar a forma como estão a ser entendidas e cumpridas.

Falta de vegonha

Joaquim Pina Moura, membro do PS e deputado na Assembleia da República, vai assumir o lugar de presidente do Conselho de Administração na empresa Media Capital (proprietária da TVI, Rádio Comercial, Rádio Clube Português, entre outros) substituindo Miguel Paes do Amaral.

Pelo que julgo saber, esta empresa privada é constituída por um grupo de accionistas privados, o maior deles o grupo Prisa (espanhol, liderado por Jesús de Polanko Gutiérrez – 73,70%). Ou seja, a soma do grupo de accionistas estrangeiros é de 91,24%, restando 8,76% que, depreendo, serão outros pequenos investidores bolsistas, não tendo qualquer participação de capitais referentes a empresas públicas portuguesas. Portanto o governo, este ou qualquer outro, para além de fazer cumprir as leis portuguesas que regulam os meios de comunicação e o funcionamento das empresas, não tem qualquer outro controlo sobre esta empresa.

O presidente do Conselho de Administração é, obviamente, uma pessoa importante na definição de muita coisa dentro do grupo. Tal como o anterior presidente, também português, Miguel Paes do Amaral, cujo alinhamento ideológico era diferente do de Pina Moura, assim como o de Luís Nobre Guedes, Presidente da Assembleia Geral.

Joaquim Pina Moura já declarou que vai deixar o seu cargo de deputado, que não sei se seria compatível com as funções de presidente de uma empresa de comunicação, assim como os cargos que exerce no PS.

O grupo Impresa, pelo que sei uma empresa privada portuguesa que integra empresas proprietárias de canais de televisão (SIC), jornais e revistas (Controljornal), rádios, etc, tem como presidente do Conselho de Administração Francisco Pinto Balsemão, membro fundador do PPD/PSD.

Não sei se Francisco Pinto Balsemão tem ou não cargos no PSD, e se os deixou ou não. Mas também não vi ninguém preocupar-se com esse eventual problema, ao contrário da onda de indignação perante o assumir do cargo de Pina Moura.

Marques Mendes chama a isto falta de vergonha do PS, na sua ânsia de controlar a informação. Bem, mas então não se pode ter a mesma opinião sobre o controlo informativo da parte da Impresa? Ou da anterior presidência do grupo Media Capital? Ou só é permitido aos membros/simpatizantes de partidos que estão na oposição terem presidências em grupos comunicacionais privados?

Ou é porque o grupo Media Capital tem como accionista principal uma empresa espanhola? Onde estão a concorrência e o mercado e a globalização e o estreitamento ibérico em termos empresariais? Não há qualquer problema em grupos económicos poderosos adquirirem e controlarem jornais, televisões, rádios, utilizando-os para tentar condicionar/manipular o poder político, mas não é admissível que haja pessoas engajadas politicamente à frente de empresas privadas de comunicação?

Qual é a lógica de tudo isto? A falta de independência e de coluna vertebral não está na filiação política ou na falta dela.

Informação é poder, e todos tentam obtê-lo. Nalguns países os jornais declaram abertamente a sua simpatia ideológica. Não é isso que lhes tira credibilidade, mas sim a falsa imparcialidade e demagogia de quem só entende a democracia enviesadamente.

A falta de vergonha existe bem patente no editorial que José Manuel Fernandes escreveu no Público de ontem. E Marques Mendes, mais uma vez, mostrou total incapacidade na liderança de uma oposição credível, dizendo inanidades, que fazem encolher os ombros e/ou suspirar de tristeza.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...