15 abril 2007

Odete Santos

Odete Santos é excessiva, arrasadora, fiteira, dramática, manipuladora, apalhaçada, berrante, descabelada, descomposta.

Odete Santos foi deputada (por 26 anos), é actriz, comediante, diseur.

Odete Santos nunca se importou de ser quem é, dedica-se de alma, coração, de corpo inteiro às causas em que acredita, como uma missionária, como uma testemunha do saber divino.

Num mundo em que os políticos são fabricados pela imagem, ela impôs a sua imagem como uma política de gema, como uma marca de paixão.

Não concordei com ela muitíssimas vezes, na maior parte das vezes, mas é como ela que penso que os nossos representantes na Assembleia deveriam agir, incansáveis na defesa dos seus ideais.

Suspeições

Muito se tem falado sobre o fenómeno da emergência de blogues, com denúncias anónimas de males públicos e privados, antros de maledicência e de egos ressentidos, crispados e mal amados.

Haverá milhares deles assim. Como há milhares de pessoas assim. Mas o que preocupa o jornalismo ortodoxo, exclusivista e bem pensante, tanto como os políticos, enredados ou não em jogos pouco claros, é o pouco conhecimento que têm do fenómeno blogosférico, travestido de desprezo e arrogância (como se prova pelas declarações lamentáveis do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro), e a indisfarçável incapacidade de o controlar.

Não é admissível que se façam insinuações e ataques mais ou menos encapotados ao bom-nome das pessoas em blogues, a coberto de anonimatos ou não. Para isso, se se provarem crimes de difamação, existem leis e, caso não existam aplicadas à blogosfera, deverão ser estudadas e criadas pelos órgãos legislativos próprios.

O problema da credibilidade das pessoas e das instituições, que tanto tem preocupado os nossos fazedores de opinião, estende-se que nem fogo em palha seca a todos os media, com especial destaque à imprensa escrita.

Só para citar um exemplo recente, as notícias sobre o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça relativamente à condenação do jornal Público, obrigando-o a pagar uma indemnização ao Sporting Clube de Portugal apesar do reconhecimento da verdade das notícias publicadas. Entretanto saiu um artigo no site do clube negando o facto de o Supremo Tribunal de Justiça ter reconhecido a veracidade das acusações por parte do Público. Até hoje, embora eu não conheça todas as notícias que saíram sobre o assunto, não me lembro de ter lido nada sobre a correcção ou incorrecção do desmentido do Sporting.

Afinal em que ficamos? Em quem podemos acreditar?

Essa é a verdadeira tragédia: não acreditamos no governo, porque só diz o que lhe interessa, independentemente dos factos; não acreditamos na oposição porque só desdiz o governo, independentemente das razões que lhe poderão assistir; não acreditamos nos media porque a informação é cirurgicamente manipulada, para servir determinados interesses, mesmo que não nos apercebamos bem de quais.

De facto, como diz JPN no respirar o mesmo ar, em Portugal respira-se e vive-se na suspeita e de suspeitas.


(pintura de Anne Karin Glass: suspicion)

14 abril 2007

Regresso

Regresso do limbo imaculado
das chamas que purificam
das rosas com perfume
de eternidade.
Regresso à lama às nuvens
ao mais intenso e pobre
de mim mesma
à sublime mancha
de humanidade.

Ébria pela esfera que reflecte
a voragem do belo irresistível
regresso virgem irrepetível
à pele que enruga e endurece.

(pintura de Alan Fetterman: heartbeat)

Ambientemo-nos

Todos os dias, antes de arrancar para o trabalho, tomo o meu café na companhia do Correio da Manhã, o jornal que o dono do café disponibiliza aos seus clientes. Parece ter sido estudado para acompanhar os escassos minutos de um café matinal, pois as páginas folheiam-se rapidamente, lêem-se alguns títulos de letras gordas e significados fantasiosos, fazem-se estatísticas dos mais variados crimes de faca e alguidar, roubos estrondosos e prisões escandalosas.

Como todos os fins-de-semana, calma e gulosamente, saboreio o jornal com o primeiro café. Mais propriamente o Público e o DN. Hoje, ao começar pelo DN, por um assustador milionésimo de segundo duvidei de que fosse fim-de-semana e pensei que estava atrasada para o trabalho… Os roubos, os crimes, as letras garrafais, as cores, tudo muito parecido com o Correio da Manhã!

O objectivo deve ser nobre: tudo pela poupança nacional, gasta-se menos €2,40 por semana, €124,80 por ano e, além disso, reduzimos o abate de árvores.

E a saga continua...

Todos os que clamavam pelas explicações de José Sócrates, que as consideravam tardias ou tentativa abjecta de esconder qualquer baixeza, ficaram obviamente insatisfeitos pelo autêntico julgamento televisivo a que foi sujeito.

Tenho dúvidas de que algum dos seus tão tenazes inquisidores se prestasse àquele papel. Como era de supor, os mesmos continuam a pedir mais esclarecimentos, mais aprofundamentos, mais revelações. Até o Procurador-Geral da República, num assomo de generosidade e apego à causa pública, se disponibilizou para investigar!

Mais ridícula e penosa foi a prestação de Marques Mendes que, pensava eu, se tinha mantido higienicamente à margem de tanta porcaria. Mas não se conteve e mergulhou de cabeça, fora de tempo, fora de tom, fora de sensatez e sem um mínimo de sentido ético.

E assim se entretêm aqueles que se arrogam defensores do bem e da moral pública.

Ai de nós, simples mortais!

13 abril 2007

Minha Alegria

minha alegria permanece eternidades soterrada
e só sobe para a superfície
através dos tubos alquímicos
e não da causalidade natural.
ela é filha bastarda do desvio e da graça,
minha alegria:
um diamante gerado pela combustão,
como rescaldo final do incêndio.


(poema de Waly Salomão; pintura de Jill Auckenthaler: fire escape)

11 abril 2007

Esquizofrenia

Ontem assisti a parte do programa de António Barreto, depois a um episódio do ER (serviço de urgência) e depois liguei para a SIC notícias onde AINDA se estava a discutir O silêncio de Sócrates (excelente título, por sinal!).

À volta de uma mesa estavam cinco jornalistas (Ricardo Costa, José Manuel Fernandes, João Marcelino, Francisco Sarsfield Cabral e João Garcia) que opinavam acaloradamente, doutamente, seriamente e com evidente sentido da sua enorme importância, os timings errados da não intervenção de Sócrates, a excelência da assessoria de imprensa do gabinete do primeiro-ministro, as enormes pressões a que os media estão sujeitos por esses mesmos assessores, o facto de estarem MUITO habituados a atenderem telefonemas de ministros furiosos, desligando-lhes o telefone, o inacreditável falhanço do controlo da agenda mediática nos casos da OTA e da licenciatura de Sócrates, e outras pérolas.

A certa altura José Manuel Fernandes confessa que o tinha incomodado o facto da RTP não ter pegado neste último assunto, que o Público, na sua clarividência e no papel de que se reclama de jornalismo de referência, considera primordial ao bem-estar da nação, não lhe tendo sequer passado pela cabeça, algo que lhe foi apontado por João Garcia, que talvez a RTP não tivesse considerado a notícia importante, e que estava no seu pleno direito de escolher os alinhamentos, a oportunidade e a relevância das notícias que emitia.

Tive ainda tempo para ouvir que Sócrates não deveria ir falar à RTP, mas sim à TVI (à SIC até parecia mal sugeri-lo), ao Parlamento, ou convocar uma conferência de imprensa para se explicar.

Fiquei portanto a saber que:


  1. José Manuel Fernandes é quem decide o que é e o que não é importante ser tratado pelos outros órgãos de comunicação social. Se não o seguem é indício mais do que seguro de que estão a ser pressionados por alguém (neste caso pelo primeiro-ministro).


  2. São os jornalistas que decidem o que é ou não importante discutir, quando, onde e como, não os políticos, que são eleitos e que têm liberdade para o fazer. Ou seja discutir 2 anos de governo, neste momento, é irrelevante para Portugal, sendo no entanto imprescindível conhecer o percurso académico do primeiro-ministro.


  3. A RTP está sob suspeita, apenas por ser a RTP, não pela qualidade ou falta dela dos seus jornalistas (José Alberto Carvalho e Maria Flor Pedroso são muitíssimo melhores que Judite de Sousa).


  4. Os jornalistas/analistas políticos repudiam, e ainda bem, serem condicionados ou pressionados pelo poder político, mas sentem-se no direito de serem eles próprios a condicionar e a pressionar os políticos, ditando a agenda mediática e promovendo autênticos assassinatos pessoais, mascarando-os de escrutínio dos servidores públicos.

Estamos perante uma autêntica esquizofrenia social, em que o mais importante são as falhas pessoais, que se procuram apenas e só quando é preciso, e não por uma questão de interesse público.

E tudo isto é, obviamente, a bem da democracia, da pluralidade informativa, do esclarecimento dos cidadãos, do contra poder, do contraditório, de todas aquelas bondades que os jornalistas nos estão sempre a recordar.

Para as próximas eleições sugiro que haja, dentre eles, alguém que se sujeite a eleições para, do alto da sua irrepreensível moralidade, competência e ambição, guie os destinos de todos nós, substituindo estes seres menores que nos representam. Até porque o que verdadeiramente interessa ao país não são os problemas económicos e sociais, mas sim os vícios privados de políticos decadentes.

Pelo menos alguns jornalistas têm públicas virtudes!


(escultura de Paco Puyuelo: esquizofrenia)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...