14 abril 2007

Regresso

Regresso do limbo imaculado
das chamas que purificam
das rosas com perfume
de eternidade.
Regresso à lama às nuvens
ao mais intenso e pobre
de mim mesma
à sublime mancha
de humanidade.

Ébria pela esfera que reflecte
a voragem do belo irresistível
regresso virgem irrepetível
à pele que enruga e endurece.

(pintura de Alan Fetterman: heartbeat)

Ambientemo-nos

Todos os dias, antes de arrancar para o trabalho, tomo o meu café na companhia do Correio da Manhã, o jornal que o dono do café disponibiliza aos seus clientes. Parece ter sido estudado para acompanhar os escassos minutos de um café matinal, pois as páginas folheiam-se rapidamente, lêem-se alguns títulos de letras gordas e significados fantasiosos, fazem-se estatísticas dos mais variados crimes de faca e alguidar, roubos estrondosos e prisões escandalosas.

Como todos os fins-de-semana, calma e gulosamente, saboreio o jornal com o primeiro café. Mais propriamente o Público e o DN. Hoje, ao começar pelo DN, por um assustador milionésimo de segundo duvidei de que fosse fim-de-semana e pensei que estava atrasada para o trabalho… Os roubos, os crimes, as letras garrafais, as cores, tudo muito parecido com o Correio da Manhã!

O objectivo deve ser nobre: tudo pela poupança nacional, gasta-se menos €2,40 por semana, €124,80 por ano e, além disso, reduzimos o abate de árvores.

E a saga continua...

Todos os que clamavam pelas explicações de José Sócrates, que as consideravam tardias ou tentativa abjecta de esconder qualquer baixeza, ficaram obviamente insatisfeitos pelo autêntico julgamento televisivo a que foi sujeito.

Tenho dúvidas de que algum dos seus tão tenazes inquisidores se prestasse àquele papel. Como era de supor, os mesmos continuam a pedir mais esclarecimentos, mais aprofundamentos, mais revelações. Até o Procurador-Geral da República, num assomo de generosidade e apego à causa pública, se disponibilizou para investigar!

Mais ridícula e penosa foi a prestação de Marques Mendes que, pensava eu, se tinha mantido higienicamente à margem de tanta porcaria. Mas não se conteve e mergulhou de cabeça, fora de tempo, fora de tom, fora de sensatez e sem um mínimo de sentido ético.

E assim se entretêm aqueles que se arrogam defensores do bem e da moral pública.

Ai de nós, simples mortais!

13 abril 2007

Minha Alegria

minha alegria permanece eternidades soterrada
e só sobe para a superfície
através dos tubos alquímicos
e não da causalidade natural.
ela é filha bastarda do desvio e da graça,
minha alegria:
um diamante gerado pela combustão,
como rescaldo final do incêndio.


(poema de Waly Salomão; pintura de Jill Auckenthaler: fire escape)

11 abril 2007

Esquizofrenia

Ontem assisti a parte do programa de António Barreto, depois a um episódio do ER (serviço de urgência) e depois liguei para a SIC notícias onde AINDA se estava a discutir O silêncio de Sócrates (excelente título, por sinal!).

À volta de uma mesa estavam cinco jornalistas (Ricardo Costa, José Manuel Fernandes, João Marcelino, Francisco Sarsfield Cabral e João Garcia) que opinavam acaloradamente, doutamente, seriamente e com evidente sentido da sua enorme importância, os timings errados da não intervenção de Sócrates, a excelência da assessoria de imprensa do gabinete do primeiro-ministro, as enormes pressões a que os media estão sujeitos por esses mesmos assessores, o facto de estarem MUITO habituados a atenderem telefonemas de ministros furiosos, desligando-lhes o telefone, o inacreditável falhanço do controlo da agenda mediática nos casos da OTA e da licenciatura de Sócrates, e outras pérolas.

A certa altura José Manuel Fernandes confessa que o tinha incomodado o facto da RTP não ter pegado neste último assunto, que o Público, na sua clarividência e no papel de que se reclama de jornalismo de referência, considera primordial ao bem-estar da nação, não lhe tendo sequer passado pela cabeça, algo que lhe foi apontado por João Garcia, que talvez a RTP não tivesse considerado a notícia importante, e que estava no seu pleno direito de escolher os alinhamentos, a oportunidade e a relevância das notícias que emitia.

Tive ainda tempo para ouvir que Sócrates não deveria ir falar à RTP, mas sim à TVI (à SIC até parecia mal sugeri-lo), ao Parlamento, ou convocar uma conferência de imprensa para se explicar.

Fiquei portanto a saber que:


  1. José Manuel Fernandes é quem decide o que é e o que não é importante ser tratado pelos outros órgãos de comunicação social. Se não o seguem é indício mais do que seguro de que estão a ser pressionados por alguém (neste caso pelo primeiro-ministro).


  2. São os jornalistas que decidem o que é ou não importante discutir, quando, onde e como, não os políticos, que são eleitos e que têm liberdade para o fazer. Ou seja discutir 2 anos de governo, neste momento, é irrelevante para Portugal, sendo no entanto imprescindível conhecer o percurso académico do primeiro-ministro.


  3. A RTP está sob suspeita, apenas por ser a RTP, não pela qualidade ou falta dela dos seus jornalistas (José Alberto Carvalho e Maria Flor Pedroso são muitíssimo melhores que Judite de Sousa).


  4. Os jornalistas/analistas políticos repudiam, e ainda bem, serem condicionados ou pressionados pelo poder político, mas sentem-se no direito de serem eles próprios a condicionar e a pressionar os políticos, ditando a agenda mediática e promovendo autênticos assassinatos pessoais, mascarando-os de escrutínio dos servidores públicos.

Estamos perante uma autêntica esquizofrenia social, em que o mais importante são as falhas pessoais, que se procuram apenas e só quando é preciso, e não por uma questão de interesse público.

E tudo isto é, obviamente, a bem da democracia, da pluralidade informativa, do esclarecimento dos cidadãos, do contra poder, do contraditório, de todas aquelas bondades que os jornalistas nos estão sempre a recordar.

Para as próximas eleições sugiro que haja, dentre eles, alguém que se sujeite a eleições para, do alto da sua irrepreensível moralidade, competência e ambição, guie os destinos de todos nós, substituindo estes seres menores que nos representam. Até porque o que verdadeiramente interessa ao país não são os problemas económicos e sociais, mas sim os vícios privados de políticos decadentes.

Pelo menos alguns jornalistas têm públicas virtudes!


(escultura de Paco Puyuelo: esquizofrenia)

10 abril 2007

A falta da Justiça

Este é o resultado do simulacro de justiça que existe em Portugal. Neste momento, aquela que deveria ter sido preservada da disputa parental, já tem opinião própria, colocando um dos litigantes entre os maus e o outro entre os bons.

Este é o resultado de processos que se arrastam durante anos, quando deveriam resolver-se em poucos dias, e de histórias que se martelam durante semanas, em altos brados, quando deveriam ser preservadas do intenso ruído de fundo a que são sujeitas.

Providenciemos

Todo este assunto da licenciatura de Sócrates, do título e a profissão de engenheiro que devia ou não usar, já não se aguenta.

O melhor é interpormos já uma providência cautelar que impeça o primeiro-ministro de ministrar, seja lá o que for, enquanto se não passam a pente fino todas os curricula dos nossos vários ministros, secretários de estado e deputados, presentes e passados, a que cadeiras assistiram às aulas, se estudaram pelas sebentas ou pelos tratados, se tiravam apontamentos ou estudavam pelos dos colegas, devidamente fotocopiados, se copiavam nos exames ou se denunciavam as cábulas escondidas a preceito.

Parece-me haver aí imensa matéria para investigação jornalística e, quem sabe, para a Procuradoria-Geral da República…

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...