14 março 2007

Embaciar


Tudo se esconde para lá do possível
emudece a sombra entendida
ao longo da grade invisível.

O mundo entorna devagar
as gotas da vontade amolecida
na pressa de a evaporar.


(pintura de Jim Gilroy)

13 março 2007

Untitled

O que há em mim é sobretudo cansaço –
não disto nem daquilo,
nem sequer de tudo ou de nada:
cansaço assim mesmo, ele mesmo,
cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
as paixões violentas por coisa nenhuma,
os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas –
essas e o que falta nelas eternamente –;
tudo isso faz um cansaço,
este cansaço,
cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
há sem dúvida quem deseje o impossível,
há sem dúvida quem não queira nada –
três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
porque eu amo infinitamente o finito,
porque eu desejo impossivelmente o possível,
porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
para eles o sonho sonhado ou vivido,
para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
e, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
um supremíssimo cansaço,
íssimo, íssimo, íssimo,
cansaço…


(poema de Álvaro de Campos; pintura de Vlatka Zugic)

11 março 2007

Amarte



Manuel d’Oliveira gravou um disco em 2003, Ibéria. Dei com ele por acaso, escutando discos variados, enquanto deambulava pela FNAC.

Fiquei rendida ao som da guitarra, à técnica, à tranquilidade, à personalidade.

De vez em quando procurava outros discos dele, mas nunca encontrei. A certa altura parecia que nunca tinha existido, que ninguém o conhecia, que tinha desistido de tocar.

Há uns meses, e também por acaso, li um artigo num jornal, não me recordo de qual, anunciando um novo disco: amarte.

Finalmente já o comprei. Finalmente descobri o site dele. Amarte é a gravação de um espectáculo em Guimarães, na Praça de Santiago, com o grupo Mediterrâneo.

Espero ouvi-lo no CCB, a 25 de Maio.



Fanatismo e intolerância

Em 1975, o 11 de Março foi o início do que se convencionou chamar o PREC, época de gente louca e transviada, que acreditava estar na posse da verdade, época de visionários generosos e, por isso mesmo, perigosos. Época de delírios, marchas, golpes e contra golpes, país rebocado por uma turba revolucionária adolescente e feliz, totalmente desgarrada da realidade, mas que talhou para sempre a nossa democracia.

Quando olhamos para esses anos, agora adultos, obesos e instalados na vida, neste país medianeiro e de faz de conta, cheio de contradições e devaneios, nem conseguimos acreditar no que aconteceu, tal como quando olhamos para poemas destemperados e dramáticos e não nos reconhecemos naqueles transportes de emoção.

Em Madrid, o 11 de Março de 2004 teve a cor dos fanatismos religiosos, outros detentores da verdade, preparados para matar e morrer em busca de um deus exigente e sanguinário, tão certos de atingir a felicidade como de se espalharem em mil bocados, na fusão de ferros, roupas, corpos e terra.

Apesar de diferentes há uma terrível comunhão neste tipo de acontecimentos: o assumir por alguns de uma verdade que consideram inabalável e incontestável, baseados em crenças e dogmas, religiosos ou políticos, impondo-a a todos os outros.

Sempre me arrepiaram os detentores da chave da vida, pois a chave que julgam ter apenas serve para fechar portas, caminhos, soluções.

Ao ouvir, no Diário Ateísta, um pequeno vídeo traduzido em brasileiro, defendendo que a Bíblia é repulsiva, dando exemplos com frases retiradas do livro, organizando-as numa lógica que o(s) autor(es) consideram arrasadora, fico verdadeiramente espantada com tal demonstração de fanatismo.

O que eu considero repulsivo é este tipo de análise de um livro, de um discurso, de um pensamento, de um acontecimento. Sem qualquer seriedade, pretende-se explicar situações de uma forma tão dogmática e disparatada, idêntica à que os fanáticos religiosos usam, em sentido contrário, interpretando frases e textos literalmente, retirando-os do contexto, para provarem autênticas barbaridades.

Uma coisa é ser-se ateu, outra muito diferente é ser-se fanaticamente anti-religioso e negar a importância social e cultural do fenómeno religioso e das suas manifestações artísticas. A intolerância e o fanatismo estão em toda a parte, não só do lado das religiões do Livro.


(Bíblia Ilustrada, João Ferreira Annes de Almeida; José Tolentino Mendonça e Ilda David; Assírio & Alvim, 2006)

Identidade

Este blogue não aguenta esquizofrenias nem duplas personalidades. Uma coisa é a roupagem, outra é a realidade nuclear, a essência.

Não tenho o perfil, nem o porte, nem a beleza da imagem que tinha substituído a Liberdade, que parece olhar o mundo do alto da sua nobre missão.

Esta é a Liberdade que me retrata: minúscula e desafiadora, muitas vezes inconsequente, mas sempre com causas!

Também podia dizer, como Manuel Triste: a mim ninguém me cala!


(Quino: Libertad)

10 março 2007

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
quem sente não é quem é,

atento ao que sou e vejo,
torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
é do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
assisto à minha passagem,
diverso, móbil e só,
não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
o que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
o que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

(poema de Fernando Pessoa; fotografia de João Luiz Roth)

Outros olhares

Até 15 de Março, na Oficina da Cultura, em Almada, está patente uma exposição colectiva de fotografia, integrada na Quinzena da Juventude.

São três artistas, três temas, três que se nos oferecem.

César Reis, em 2 Anos de Fotografia, mostra-nos fragmentos e instantes, captados de rostos, árvores, espaços quotidianos que constroem a vida, a preto e branco. São lindíssimas, simples, nítidas, limpas. São fotografias de esperança e optimismo.

Hugo Madeira, em Agnosia, parte de um conceito médico (a incapacidade de reconhecer ou identificar objectos, mantendo intactas as funções sensoriais) e de um projecto de reconhecimento e de preservação da memória, nas prisões da Trafaria e do Aljube. As fotografias são em tons cinzentos, castanhos, tijolos, e documentam a carga de angústia, a paragem artificial do tempo, a contagem dos dias, a crueza das paredes nuas e deterioradas, com alguns espaços claros, réstias de luz.

Carla Sofia Violante, em Na Luz de Pessoa, tenta interpretar a personalidade de Fernando Pessoa, através do poema Não sei quantas almas tenho, e do heterónimo Bernardo Soares, mostrando aquilo que queremos ser e aquilo que, na realidade, somos.

Vale a pena passar por lá.

(fotografia de Hugo Madeira)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...