11 março 2007

Amarte



Manuel d’Oliveira gravou um disco em 2003, Ibéria. Dei com ele por acaso, escutando discos variados, enquanto deambulava pela FNAC.

Fiquei rendida ao som da guitarra, à técnica, à tranquilidade, à personalidade.

De vez em quando procurava outros discos dele, mas nunca encontrei. A certa altura parecia que nunca tinha existido, que ninguém o conhecia, que tinha desistido de tocar.

Há uns meses, e também por acaso, li um artigo num jornal, não me recordo de qual, anunciando um novo disco: amarte.

Finalmente já o comprei. Finalmente descobri o site dele. Amarte é a gravação de um espectáculo em Guimarães, na Praça de Santiago, com o grupo Mediterrâneo.

Espero ouvi-lo no CCB, a 25 de Maio.



Fanatismo e intolerância

Em 1975, o 11 de Março foi o início do que se convencionou chamar o PREC, época de gente louca e transviada, que acreditava estar na posse da verdade, época de visionários generosos e, por isso mesmo, perigosos. Época de delírios, marchas, golpes e contra golpes, país rebocado por uma turba revolucionária adolescente e feliz, totalmente desgarrada da realidade, mas que talhou para sempre a nossa democracia.

Quando olhamos para esses anos, agora adultos, obesos e instalados na vida, neste país medianeiro e de faz de conta, cheio de contradições e devaneios, nem conseguimos acreditar no que aconteceu, tal como quando olhamos para poemas destemperados e dramáticos e não nos reconhecemos naqueles transportes de emoção.

Em Madrid, o 11 de Março de 2004 teve a cor dos fanatismos religiosos, outros detentores da verdade, preparados para matar e morrer em busca de um deus exigente e sanguinário, tão certos de atingir a felicidade como de se espalharem em mil bocados, na fusão de ferros, roupas, corpos e terra.

Apesar de diferentes há uma terrível comunhão neste tipo de acontecimentos: o assumir por alguns de uma verdade que consideram inabalável e incontestável, baseados em crenças e dogmas, religiosos ou políticos, impondo-a a todos os outros.

Sempre me arrepiaram os detentores da chave da vida, pois a chave que julgam ter apenas serve para fechar portas, caminhos, soluções.

Ao ouvir, no Diário Ateísta, um pequeno vídeo traduzido em brasileiro, defendendo que a Bíblia é repulsiva, dando exemplos com frases retiradas do livro, organizando-as numa lógica que o(s) autor(es) consideram arrasadora, fico verdadeiramente espantada com tal demonstração de fanatismo.

O que eu considero repulsivo é este tipo de análise de um livro, de um discurso, de um pensamento, de um acontecimento. Sem qualquer seriedade, pretende-se explicar situações de uma forma tão dogmática e disparatada, idêntica à que os fanáticos religiosos usam, em sentido contrário, interpretando frases e textos literalmente, retirando-os do contexto, para provarem autênticas barbaridades.

Uma coisa é ser-se ateu, outra muito diferente é ser-se fanaticamente anti-religioso e negar a importância social e cultural do fenómeno religioso e das suas manifestações artísticas. A intolerância e o fanatismo estão em toda a parte, não só do lado das religiões do Livro.


(Bíblia Ilustrada, João Ferreira Annes de Almeida; José Tolentino Mendonça e Ilda David; Assírio & Alvim, 2006)

Identidade

Este blogue não aguenta esquizofrenias nem duplas personalidades. Uma coisa é a roupagem, outra é a realidade nuclear, a essência.

Não tenho o perfil, nem o porte, nem a beleza da imagem que tinha substituído a Liberdade, que parece olhar o mundo do alto da sua nobre missão.

Esta é a Liberdade que me retrata: minúscula e desafiadora, muitas vezes inconsequente, mas sempre com causas!

Também podia dizer, como Manuel Triste: a mim ninguém me cala!


(Quino: Libertad)

10 março 2007

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
quem sente não é quem é,

atento ao que sou e vejo,
torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
é do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
assisto à minha passagem,
diverso, móbil e só,
não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
o que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
o que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

(poema de Fernando Pessoa; fotografia de João Luiz Roth)

Outros olhares

Até 15 de Março, na Oficina da Cultura, em Almada, está patente uma exposição colectiva de fotografia, integrada na Quinzena da Juventude.

São três artistas, três temas, três que se nos oferecem.

César Reis, em 2 Anos de Fotografia, mostra-nos fragmentos e instantes, captados de rostos, árvores, espaços quotidianos que constroem a vida, a preto e branco. São lindíssimas, simples, nítidas, limpas. São fotografias de esperança e optimismo.

Hugo Madeira, em Agnosia, parte de um conceito médico (a incapacidade de reconhecer ou identificar objectos, mantendo intactas as funções sensoriais) e de um projecto de reconhecimento e de preservação da memória, nas prisões da Trafaria e do Aljube. As fotografias são em tons cinzentos, castanhos, tijolos, e documentam a carga de angústia, a paragem artificial do tempo, a contagem dos dias, a crueza das paredes nuas e deterioradas, com alguns espaços claros, réstias de luz.

Carla Sofia Violante, em Na Luz de Pessoa, tenta interpretar a personalidade de Fernando Pessoa, através do poema Não sei quantas almas tenho, e do heterónimo Bernardo Soares, mostrando aquilo que queremos ser e aquilo que, na realidade, somos.

Vale a pena passar por lá.

(fotografia de Hugo Madeira)

Igualdade

A propósito da igualdade entre géneros, duas notícias interessantes.

Concordo com a extensão do recenseamento obrigatório às mulheres. Não se percebia a manutenção de uma discriminação sem sentido, pois deixou de existir um serviço militar obrigatório e, já há bastante tempo, as mulheres podem ingressar na carreira militar.

Por outro lado, a escassa percentagem de homens que dividem a licença de maternidade é indicativa do caminho que há ainda a percorrer na partilha de deveres e de direitos, no que diz respeito às tarefas de educação e acompanhamento dos filhos. É toda a sociedade que tem que aceitar uma realidade diferente e incentivar os patrões das empresas privadas e do estado a terem uma mente mais aberta. As mulheres também terão que perceber que não devem usar a biologia como arma para manter um reduto que, embora cheio de dependências e sacrifícios, lhes confere bastante poder.

08 março 2007

Uniformização

A Europa é feita por diversos povos, diversas línguas, diversos países, com regimes políticos mais ou menos semelhantes, com passados comuns e passados diferentes. É essa diversidade que a torna rica e interessante.

Realçar o que os países têm em comum, falar do conceito de uma Europa unida, respeitando as diferenças que existem, é uma excelente ideia.

Fazer um livro de história idêntico para todos os estados-membros? É um livro que conta a história de todos os estados-membros e que substituirá os livros de cada estado-membro? É um livro sobre a União Europeia que complementa os livros de história de cada estado-membro?

A uniformização do tamanho das laranjas, das colheres de cozinha ou das etiquetas dos produtos hortícolas é uma coisa; a uniformização do ensino de história a nível europeu parece-me outra bastante diferente!

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...