Era já dia, morno e brilhante como as manhãs da infância. Havia frenesim e expectativa, mobilizavam-se os adultos como quem sabe de prodígios e milagres.Tinha-se discutido à exaustão os malefícios e a prometida cegueira de quem olhava sem temor o astro rei, principalmente se durante a agonia de um eclipse total, qual morte e ressurreição de Deus.
E, repentinamente, os cães, os pássaros e as galinhas agitaram-se, latindo, piando e cacarejando aflitivamente. O céu começou a escurecer: a lua iniciava um processo de digestão solar.
Gente saía das casas e povoava as janelas, as varandas, os telhados, com armas de paz, feitas de vidros esfumados por velas, óculos de sol, papéis de tipo celofane verde ou castanho, protegendo os olhos.
A pouco e pouco o tempo reverteu e foi como se caminhássemos em direcção ao dia anterior, primeiro à madrugada, depois à noite cerrada, aquela noite mesmo anoitecida de um céu estrelado, sem luzes de prédios, candeeiros de estradas ou de bares, com a frescura e o vento omnipresente, soprando apreensão aos ouvidos dos embevecidos mortais. O sol desapareceu por completo, deixando uma aura de claridade tremeluzente à volta do disco negro que o eclipsava.
Os bichos todos, mesmo o bicho homem, reverenciou este espectáculo, totalmente explicado pela ciência mas não assumido pelos instintos, e secretamente desejou o regresso da normalidade intemporal, da sucessão dos segundos em direcção contrária, de acordo com o relógio circadiano.
Algum tempo depois, com a lentidão da solenidade, a natureza reconsiderou. Novamente cantou o galo, novamente se desenroscaram os gatos e se espreguiçaram as crias. Na luta de morte que se travava no espaço, no tráfego engarrafado dos trajectos planetários, desobstruiu-se o caminho e o sol reapareceu, primeiro a medo, depois com toda a pujança.
Clarearam os céus e a gente recolheu a casa, muda de espanto e alívio.
(30 de Junho de 1973, S. Vicente, Cabo-Verde)


