16 fevereiro 2007

Ausência


Olho lentamente na tua direcção
como se atravessasse a memória
da tua ausência.
Respondem-me asas. Na imaginação
sinto a tua presença.


(pintura de Arnaud Juncker: absence)

Paredes

Os passos que constroem paredes
ressoam alto nas sombras.
Ao fundo esperam-me cantos
de luz.
Seja eu capaz
de descobrir os anéis do tempo
nas pedras

com que caminho e construo paredes.

(fotografia de Hugo Madeira)

Peculato

A situação na Câmara de Lisboa é surrealista. Não se consegue perceber a honestidade política de um indivíduo, funcionário público, que sabia há cerca de 3 meses que era arguido num processo relacionado com as funções que exerce nesse cargo público, e não dizer nada a ninguém, sabendo que, para além de tudo o que é decência, da sua posição dependerá a viabilidade política da Câmara.

Isto é verdadeiramente inacreditável. E se o PS tivesse algum candidato credível, ou seja, excluindo o João Soares, o António José Seguro e outros que tais, já teria clamado por novas eleições, tal como o BE tem feito.

Mas com candidatos ou sem eles, não possível manter a Câmara da capital do país neste estado!

Trabalho

Alguma coisa tem de mudar na nossa administração pública, nomeadamente no que diz respeito aos vínculos contratuais e à flexibilidade de emprego.

O despedimento de mais de 3000 estagiários que completam o seu estágio profissional, para o qual foi investido muito dinheiro, para depois não se aproveitarem aqueles que se distinguem pela motivação, pelo empenho e pela competência, apenas e só porque a enormíssima quantidade de funcionários públicos que existe, tantos com fraca produtividade, com fraco empenho e com fraca competência, entope qualquer possibilidade de renovar os quadros de pessoal e de dar emprego aos jovens, que precisam de iniciar a sua vida adulta e autónoma.

É claro que não há artes mágicas que, num abrir e fechar de olhos, solucionem um problema crescente nas nossas sociedades tecnológicas e automatizadas. O trabalho transforma-se num luxo, num privilégio a que só alguns têm acesso. Mas a prestação dos representantes dos trabalhadores tem que olhar para essa fatia da população, tem que defender propostas que dêem hipóteses aos mais jovens.

Em Portugal o movimento sindical, na sua generalidade, tem tentado manter aquilo que já não é possível manter, tem tentado defender o trabalho de quem já tem trabalho, em vez de defender a possibilidade de todos terem acesso ao trabalho, em igualdade de circunstâncias, com o mínimo de dignidade.

Estes jovens são usados depois como mão-de-obra barata, sem protecção social, sem qualquer vínculo, por precário que seja, sem qualquer horizonte de continuidade, de formação, de realização profissional.

Eu não sei quais são as soluções. Mas alguma coisa tem de mudar, e depressa!

A demissão

A notícia da demissão em bloco da direcção do DN deixou-me triste. Tenho vindo a comprar o DN e a gostar cada vez mais dele, principalmente desde que António José Teixeira assumiu a direcção. Tem feito um esforço para melhorar a qualidade dos seus conteúdos e um esforço de isenção (nem sempre conseguido, diga-se em abono da verdade).

A redução do número de leitores e assinantes dos jornais diários, ditos generalistas, prende-se com a tendência geral da comunicação, com crescimento do audiovisual e redução da escrita, e não com a diminuição da qualidade do DN. Mesmo que haja uma aposta na qualidade do jornal, na especialização dos jornalistas para que possam informar com rigor, no aprofundamento das análises por gente credenciada e capaz, mesmo assim, estou convencida que continuará a diminuir o número de compradores. Mas também me parece que a aposta num formato superficial, telegráfico e folclórico levará ao mesmo.

O problema é que, se calhar, o número de leitores de um jornal sério não chega para muitos projectos editoriais. Nesse sentido, tenho pena que o DN esteja a ficar pelo caminho. Não merece.

Bom-senso

Cavaco Silva quebrou o silêncio a que se tinha recolhido durante a campanha para o referendo, silêncio profundo e meditabundo que até o impediu de apelar ao voto, atitude que lhe teria ficado muito bem.

E mais valia que tivesse continuado calado. Porque a sua intervenção, pedindo bom-senso para a legislação sobre um tema que tinha fracturado a sociedade, soou muito parecido com uma orientação à Assembleia da República, mais precisamente ao PS, para ter em conta as opiniões de quem tinha perdido o referendo.

A expressão “melhores práticas europeias” já cansa. O PS está mandatado para legislar, cumprindo as indicações dadas pela vitória do “sim”. Nem mais nem menos. A necessidade imperiosa de aconselhamento obrigatório, tão do agrado dos apoiantes do “não”, mais uma vez uma forma de condicionar, não se sabe exactamente como ou por quem, a decisão das mulheres, esses seres débeis e mentecaptos que Deus deu aos homens para se regalarem, cuidarem e usarem, é uma habilidade ensaiada com o fim de desvirtuar o resultado do referendo.

A decisão informada não tem absolutamente nada a ver com a avaliação da decisão. Espero que o PS mantenha a sua posição, por muito que o Presidente apele ao bom-senso.

14 fevereiro 2007

Namoro

Amor com gomos
e sementes
amor com pele
amor sem tempo
de amar tanto
amor de mel
com que me adoço
com que me aqueço

com que te chamo.

(pintura de Jan Tinholt: encerrados en amor)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...