14 fevereiro 2007

Entretenimento

Ontem vi um pedaço do programa abrilhantado por Jaime Nogueira Pinto, em que traçava um Salazar muito à maneira dele, muito patriótico, muito honesto, muito modesto, muito missionário, muito ditador, mas isso até era bom, sem dúvida, mas este povo até gosta, enfim, nunca mais fomos os mesmos, o que era preciso era mesmo outro Salazar para meter isto na ordem.

Há uma ou duas semanas vi um pedaço do mesmo programa, desta vez abrilhantado pela dramática Odete Santos, toda ela em cores de encarnado, com grandes gestos e emocionado semblante, traçando o perfil do herói mais heróico que tivemos a sorte de ter em Portugal, que lutou contra a longa noite do fascismo, com determinação e coragem.

Estes programas, como muito bem disse A. Teixeira, são de entretenimento, e não de informação. Por isso acho absurdas as posições estremadas, de louvor extremo ao programa até à acusação de neosalazarismo encapotado, que se lê pela blogosfera.

Apesar de saber que Álvaro Cunhal defendia um regime idêntico àquele que combatia, não posso deixar de ter alguma simpatia pela sua figura. De facto era inteligente, aventureiro, artista, enfim um herói romântico, que só o foi porque nunca conseguiu chegar ao poder.

Relativamente a Salazar, para mim ele era tudo menos um grande português. Foi um homem que moldou o país à sua imagem e semelhança, sem grandeza de qualquer espécie. A partir do pós guerra, não vejo qualquer justificação para o aprisionamento das pessoas e das ideias, para o empobrecimento, para o enquistamento do conservadorismo e do provincianismo, para a rejeição das novidades na política e na sociedade.

13 fevereiro 2007

Silêncio

Escorre o silêncio
pelas paredes da memória
infiltra o peso
dos fundos escuros dias
buliçosos artefactos
do tempo.


(pintura de Jonas Gerard: Beyond Time and Space I)

12 fevereiro 2007

Eden

Quando escrevo
a minha alma engrandece
e o mundo em que vivo
tem mais brilho.
As palavras são doces
e eternas
rasgando os limites
deste corpo terreno
perecível.

Quando escrevo
vivo vidas de sonho
e pesadelo
paixões sem mágoa
amores encantados
duma beleza pura e interdita
ao meu verdadeiro eu.


(pintura de Gregory Eanes: Tension In Éden)

Alguns considerandos

Muito já se comentou e muito mais se comentará sobre o referendo, a abstenção, os vitoriosos e os derrotados.

A vitória do sim foi um passo para a resolução de vários problemas. Mas foi apenas um passo, o primeiro.

É necessário que os deputados cumpram a sua função, com rapidez, que legislem e regulamentem a alteração ao código penal e outras leis que, verdadeiramente, sem paternalismos nem conversas de ajuda às coitadinhas, implementem políticas de apoio à maternidade e paternidade responsáveis, como creches, flexibilização de horários, partilha entre os progenitores do tempo para acompanhamento das crianças, etc.

É necessário que outras classes com responsabilidades na nossa sociedade compreendam que os tempos são outros. E estou a referir-me, por exemplo, à classe médica. Entre os derrotados estão aqueles que olham a medicina como uma actividade autoritária e tutelar, que se sentem mais respeitados se usarem o argumento da autoridade, dos saberes não partilhados nem questionados. Entre os derrotados está a medicina sobranceira e desligada da realidade, que pretende impor uma ética individual e moralista.

É necessário que essa visão da medicina não ponha entraves à aplicação da lei, no terreno. Como disse Correia de Campos, a objecção de consciência é individual e nunca institucional. Os Directores dos Serviços e os Directores dos Hospitais devem organizar os seus serviços e hospitais de forma a que a lei seja cumprida.

Por outro lado, o código deontológico não pode condenar médicos por praticarem actos permitidos por lei. O argumento de que, na prática, isso não existe, é disparatado e desonesto. A revisão do código deontológico é inevitável e era bom que o Bastonário o reconhecesse, e quanto mais depressa melhor!

11 fevereiro 2007

Do mal o menos!

Ao contrário do que tenho ouvido proclamar pelos vários dirigentes políticos, com ar digno e pose de estado, incluindo José Sócrates, não me parece que esta tenha sido uma vitória da democracia.

Foi mesmo uma derrota, mais uma derrota. Os portugueses não se interessam pelo colectivo, não se acham responsáveis para decidir, não gostam de ser chamados a participar. Por preguiça, por alheamento, não sei. Seja pelo que for, o referendo, quanto a mim, só voltará a ser utilizado por quem, como António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, aliás, finjam que querem resolver algo, mas não querem mesmo nada.

Do mal o menos, o sim é maioritário e, finalmente, a lei será alterada.

Da campanha, ficará para a história o vídeo dos Gato Fedorento, uma crítica mordaz e mortal a Marcelo Rebelo de Sousa, que nunca mais será visto da mesma forma.

Do ziguezague de Marques Mendes, das mistificações, das chantagens emocionais, das manipulações dos dados científicos, protagonizados pelos adeptos do não, fica a falta de credibilidade e a derrota daqueles que se pensam donos da moral e da consciência de todos.

Alguns blogues prestaram um verdadeiro serviço público, entre os quais o Sim no Referendo, um fórum constituído por gente das mais variadas áreas, das mais variadas tendências, das mais variadas profissões, e o Médicos pela Escolha por ser um blogue rigoroso, com a preocupação de informar, deixando perceber que os médicos são parceiros indispensáveis no aconselhamento sem imposição, sem que as suas posições ideológicas, culturais, éticas, condicionem a escolha dos doentes.

E repito, do mal o menos, ganhou o SIM!

Ainda vão a tempo

Aqui está uma boa notícia a que junto o meu pedido de desculpas ao presidente da Câmara, pela minha precipitada avaliação. O facto de se ter aberto a mesa de voto em Viegas, a pedido de Moita Flores, mostra bem o desejo de não confundir planos políticos nem atitudes contraproducentes.Só falta votar, porque o voto é o testemunho da nossa cidadania interveniente!

Adenda: gostava que o mesmo se passasse em Bornes de Aguiar, e que o presidente da Junta de Freguesia, Rui Sousa, desse o exemplo, votando!

Abstenção

Às 11:30 desta manhã cinzenta, eu era a votante número 100. Na minha mesa estão recenseados cerca de 1500 eleitores.

Ou seja, na minha mesa a afluência (às 11:30) era de… 6%.

Estou com muitos maus pressentimentos. É preciso votar. Não deixemos que tão poucos decidam por tantos!

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...