03 fevereiro 2007

Memória amarrotada

Arrumou e desarrumou a carteira repetidamente, tirando as chaves, o porta-moedas, os documentos, as canetas, procurando incessantemente a morada que lhe faltava. Onde a tinha posto, onde a tinha escondido? Esvaziou todos os compartimentos, vasculhou um a um os cartões de crédito, de restaurantes, número rabiscados à pressa, nomes de gente que não conhecia, recados de urgência que já não interessavam.

Mas faltava aquela morada, aquela agenda, aquele número. Quem lho deu? Como retomar o caminho inverso da memória, percorrendo cuidadosamente os minutos para trás, revisitando o passado, até ao início, até ao agarrar do papel com os dedos, até ao caminho da arrumação nas fímbrias do fundo do forro da carteira, ou do bolso, ou da abertura das páginas de um livro, ou da repetição cadenciada da morada, de forma a declamar sem hesitação?

Finalmente, amarrotado e quase desfeito, com pregas e vincos que quase o partiam, encontrou o papel dobrado no meio de outro, que lhe tinha passado despercebido.

Com um suspiro de alívio leu apressadamente o endereço da sua casa. Resolveu prendê-lo com um alfinete no bolso das calças. Para a próxima vez já não se esqueceria.


(pintura de Ann Baldwin: memory II)

Intervalo (2)

Para quem não teve oportunidade de ouvir o excelente concerto de Tomatito e Michel Camilo no Centro Cultural de Belém, em que os sons da guitarra e do piano se misturaram para homenagear Astor Piazzolla, pode ouvir o cd Spain Again, ou Spain (anterior), disponíveis na FNAC.

Intervalo (1)

Quem ainda não viu O que diz Molero, no Teatro Nacional D. Maria II, tem apenas mais duas oportunidades de a não perder (hoje, às 21:00 ou amanhã, às 16:00).

O espectáculo dura 2 horas e meia, mas vale mesmo a pena. Aderbal Freire Filho adaptou e encenou uma história de Dinis Machado, em que transpôs o próprio texto narrativo para o palco. Os actores, à medida que vão narrando a história, vão interpretando os múltiplos personagens da mesma, socorrendo-se de acessórios de composição que se encontram dentro dos inúmeros ficheiros e gavetas que compõem a cena, um escritório de uma empresa.

Dois funcionários lêem e comentam o relatório de Molero, encarregue de investigar a vida do Rapaz. Pelo escritório passam a vida e os companheiros do Rapaz, os seus sonhos, os seus amores, as suas metamorfoses e as considerações de Molero.

Gillray Coutinho, Thelmo Fernandes, Claudio Mendes, Isio Ghelman, Raquel Iantas e Savio Moll são os actores, que se desdobram, pulam, saltam, falam, enfim, são muitíssimo bons.

Uma excelente maneira de acabar (ou começar) a semana.

31 janeiro 2007

Ásperas certezas

Árduas e ásperas
as línguas das mulheres
as razões dos homens
abrem feridas
inauguram afectos
rasgam gargantas
perpetuam raízes.

Árduas e ásperas
as certezas inumanas
nas fronteiras da vida.

(pintura de Paula Rego: mulher-cão)

Perigosas inanidades

Será que, se não tivesse havido a mediatização do caso Esmeralda, o Tribunal Constitucional demoraria 4, 5 ou 10 anos a pronunciar-se, em vez dos infindáveis DOIS ANOS que demorou?

Foi demasiada a coincidência. E se esta comoção social ajudou a acelerar o processo, por muito positivo que isso seja, é um sintoma terrível num estado democrático que se pretende de direito, as decisões andarem "a reboque” das emoções veiculadas e amplificadas.

Este Estado torna-se perigoso, inseguro e injusto para os seus cidadãos, que pretende servir.



O Ministro Manuel Pinho deveria ser proibido de falar. Tanta infelicidade até dá dó, principalmente do país! Vai acenar-se com a cenoura dos baixos salários para a China??? Pelos vistos o Ministro está a pensar reduzi-los um pouco mais, para ficarem mais baixos que os dos chineses!!!

30 janeiro 2007

Faltam 11 dias

Goste-se ou não do estilo de Fátima Campos Ferreira, o programa Prós e Contras tem-se afirmado como um programa de informação obrigatório. Após o exemplo do que não se deve fazer, quando o tema foi o caso da menor que é disputada pelo pai biológico e pela família de acolhimento, em que se criou um ambiente quase intimidador para os que questionavam a conduta do Sargento, nomeadamente para o magistrado e para o advogado que representava o pai biológico, ontem houve um bom programa de informação.

Não quer isto dizer que tenha sido muito informativo. Mas houve a oportunidade de ouvir defensores de ambas as opções.

Algumas coisas ressaltaram no meio do embrulho em que se tenta transformar o referendo:


  1. Não sei em que mundo vivem Isabel Galriça Neto, João Paulo Malta, Laurinda Alves, Katia Guerreiro, que só conhecem mulheres que, apoiadas (ninguém explicitou como), acabam por não abortar. O mundo que eu conheço é um mundo ligeiramente diferente, talvez mais parecido com o de Lídia Jorge. Conheço mulheres que engravidaram sem querer, ou porque não usaram métodos anticonceptivos, ou porque estes falharam, ou porque os usaram mal, ou porque são muito jovens e imaturas, ou porque estão na menopausa e as irregularidades menstruais enganam-nas, levando-as a pensar que não engravidarão.
    Algumas destas mulheres, após o choque inicial, aceitam a ideia de ser mães, com ou sem apoio, com ou sem maridos, companheiros, namorados, mães e futuras avós, com ou sem censura social ou familiar.
    Outras não aceitam de forma nenhuma a hipótese de levar a gravidez até ao fim, não reconhecem como facto o terem um ser humano dentro delas, apenas sentem que têm uma coisa, como muito bem expôs Lídia Jorge, uma coisa que a todo o custo rejeitam, que querem que desapareça, quanto mais depressa melhor.

  2. O poema de Rita Ferro espelha exactamente o problema de fundo de toda esta discussão – a inferiorização, apoucamento e menorização da mulher. Infere-se que esta, se não aceita a sua gravidez, está a negar a sua essência feminina, o seu destino, o seu objectivo na vida, ou seja a maternidade. Daí o arrepio pelo facto de ser por opção da mulher. No fundo não se lhe reconhece o direito e a capacidade de decidir.

  3. O assassinato de Aguiar Branco, ao responder a uma pergunta venenosa de Vasco Rato, quando reconheceu que votou afirmativamente a pergunta do referendo, usando agora como estratégia o ataque à forma e pertinência da pergunta.

  4. A tentativa desesperada dos defensores do “não” de desinformarem, apoiando objectivamente o aumento da abstenção.

  5. Já agora, Aguiar Branco afirmou que o problema do aborto clandestino após as 10 semanas não fica resolvido. Acho este raciocínio absolutamente absurdo: se o aborto for despenalizado até às 10 semanas as mulheres terão a possibilidade de o fazer dentro do tempo legal e seguro, sem medo e, portanto, a escassa minoria de abortos que existem após as 10 semanas provavelmente desaparecerá.

29 janeiro 2007

Participar

Este referendo não tem a ver com posições partidárias nem com cargos políticos, nem com professores Marcelos. Tem apenas a ver com cada um de nós, como cidadão, como homem e mulher, de si para consigo.

Queremos ou não mudar a lei? Concordamos que uma mulher que aborte, até às 10 semanas de gestação, seja condenada a pena de prisão?

É a essa pergunta que deveremos responder.

Por outro lado este é o 3º referendo efectuado até agora. Se, pela 3ª vez, a participação for inferior a 50%, será provavelmente o último.

Votar é um acto de cidadania e de responsabilidade. É uma forma de intervenção na vida comunitária.

Eu vou votar SIM.


(Picasso: grávida)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...