09 dezembro 2006

"Por detrás dos Montes"


A cena em tons de terra, com artefactos de madeira rudes e nodosos. O som de cordas onduladas, arranhadas, as vozes que soam dolentes, arrastadas, os badalos e a percussão secos, agrestes, ecoando.

As figuras castanhas, com capas, as cabeças cobertas, tapadas, que escondem, as mãos em gestos sinuosos, certeiros, comedidos, ajeitam vestes, dobram distraída e mecanicamente as mantas, fiam a lã, cosem segredos ancestrais.

O vento, a cruz, o sino, o pau, a servidão, o hábito, a ingenuidade, o medo, o estranho, o emigrante, a máscara que transportamos, que usamos, que mudamos, a rejeição da diferença, o silêncio.

Por detrás dos Montes, violento e triste, primitivo e belo, de uma beleza terrosa e granítica, que nos atinge como o grito da gaita-de-foles.

Espectáculo do qual se sai sem palavras, mas com as emoções à flor da pele.


“Por detrás dos Montes”, criação do Teatro Meridional
(concepção e direcção cénica: Miguel Seabra; dramaturgia e assistência artística: Natália Luíza; interpretação: Carla Galvão, Carla Maciel, Fernando Mota, Mónica Garnel, Pedro Gil, Pedro Martinez, Romeu Costa; espaço cénico e figurinos: Marta Carreiras; música: Fernando Mota; marionetas: Eric da Costa; desenho de luz: Miguel Seabra)

[O teatro Meridional fica no Beco da Mitra (Rua do Açúcar, 64). É um espaço de tecto muito alto, com um aquecedor de gás cnetral, acolhedor, com algumas mesas em jeito de café teatro, chá e café para aquecer nestas tardes e noites invernosas, e uma sala de espectáculos com cadeiras forradas de vermelho-púrpura]

08 dezembro 2006

Natal


Colhi bolas e versos
pintei sorrisos e rimas
fiz filhós e aletria
convoquei a alegria
para a noite de Natal.
Cumpri todo o ritual
ofertei mãos e carinho
enfeitei-me de azevinho
revesti-me de amor.

Não sei que me falta
talvez um sinal
uma vela uma luz
talvez… Jesus?

(Pintura de Wayne Forte: holy family)

Compromisso


Todos os dias nos comprometemos com alguém porque, de alguma forma, por motivos frívolos ou fundamentais, por instantes ou para sempre, a nossa presença, o resultado de algum acto simples de viver, pode ser imprescindível na vida de outro.

Somos grãos de poeira dispersa, conjuntos de moléculas que se juntam segundo as leis do acaso. É pelo choque dos átomos que nos compõem, que vamos fazendo a nossa história e a de quem nos rodeia.

Já decorreu mais de um ano desde que iniciei este blogue. Muitas coisas se passaram no país, no mundo, na minha vida. Conheci pessoas novas, reencontrei algumas que não via há muitos e muitos anos, apercebi-me da volubilidade das emoções e das opiniões, da globalização da sinceridade e do disparate.

Agradeço a todos os blogonautas que por aqui têm passado.

E repito: Também eu, à minha maneira, quero defender o meu quadrado, o nosso quadrado.


(Pintura de Domenick Naccarato: Three Squares Floating Above Orange)

07 dezembro 2006

Ira


IRA

Ninguna más injusta por desproporcionada
que la ira de Dios
contra el gesto pueril de los amantes.
Sólo era una manzana
y el deseo de ser osados, libres, buenos.

(poema de Amalia Bautista; árvore de Adão e Eva)

06 dezembro 2006

Laicidade


Não consigo compreender a necessidade da Comissão Nacional de Eleições (CNE) recomendar a presença de símbolos apenas associados à República nos locais de voto, no futuro referendo.

Habitualmente os locais de voto situam-se em escolas públicas pelo que deveria ser obrigatória a ausência de símbolos religiosos, quaisquer que eles sejam.

A recomendação significa, portanto, que a separação entre a Igreja e o Estado continua a ser um objectivo a atingir, sempre a tender para infinito…

Desigualdade

Gostava de ouvir os catorze sindicatos dos professores, as várias associações de pais, os partidos políticos e os governantes passados e presentes sobre os resultados deste estudo, em que se demonstra que as escolas discriminam os alunos pela sua origem socioeconómica, e discriminam os alunos pelo seu desempenho, de forma a que se criem guetos de escolas e guetos nas escolas.

Lembro-me da indignação de todos quando esta ministra chamou a atenção para estes fenómenos, responsabilizando também os professores por estas práticas (pouco) pedagógicas.

Porque os problemas na escola pública são mais e muito mais graves do que o suposto autismo do ministério em relação ao Estatuto da Carreira Docente.

05 dezembro 2006

"Diálogo de Vanguardas"


Finalmente fui ver a exposição de Amadeo de Souza-Cardoso.

Foi uma odisseia. Os astros não estavam a meu favor. Depois de começar o dia com um arco-íris lindíssimo, apanhei duas valentes chuvadas, daquelas que nos deixam totalmente encharcadas, com o triplo do peso a transportar nas pernas, nas botas e na carteira, que ainda está a secar.

Mas após essas peripécias climáticas, lá entrei da exposição, despojada de todos os meus pertences, inclusive a gabardina (estava molhada, justificou o segurança).

Mas valeu a pena. A exposição espalha-se por 2 pisos, em círculos mais ou menos concêntricos, misturando as inúmeras obras de Amadeo com obras de outros artistas com quem o pintor privou e que foram seus companheiros de experimentação.

Podemos aperceber-nos das várias fases de exploração das formas, com a decomposição geométrica dos objectos, em curvas e vértices repetidos e multiplicados, em cores vivas e contrastantes; a exploração das cores e das matérias, a mistura de objectos, letras e números, de máscaras faciais, de bonecas regionais.

Podemos observar desenhos a lápis, com cores, formas cheias de movimento, pedaços de papel em que treinava figuras e decomposições. Podemos ver algumas folhas de um conto de Flaubert que ilustrou (La Legende de Saint Julien L’Hospitalier), cadernos de desenhos que publicou.

É extraordinária a quantidade de obras que produziu em tão pouco tempo. Imaginamos que não fazia mais nada senão desenhar e pintar, compulsivamente. Aquilo que mais me deslumbrou foi a luminosidade e a pureza das cores e das formas.

Apenas uma nota menos boa: não gostei muito da iluminação que me pareceu fraca e nem sempre bem colocada. A identificação das obras era um pouco errática, obrigando a passear de cá para lá, em vez de estar sequencial.

É uma exposição imperdível. Deveria fazer parte dos curricula escolares.


(Pintura de Amadeo de Souza-Cardoso: Brut 300 TSF)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...