29 novembro 2006

Outras margens


Esqueço-me muitas vezes de abrir a janela e deixar esfriar a pele, secar afogueamentos de paixões inúteis, estéreis, frívolas, respirar a humidade da noite, sentir as luzes que se movimentam nas casas, viver para lá dos compromissos, da tortura do controlo.

Outras margens me esperam, outras viagens planeadas, outros acasos surgirão. Na roda do imparável, microcosmos no universo, pequenas moléculas num organismo que se move lentamente em direcção ao caos.

Desenho fronteiras quando escrevo
letras e sementes inventadas.
Para lá do poema apetecido
guardo as palavras cobiçadas
na sombra do sonho proibido.


(pintura de Irene Gomes: os moinhos de vento)

28 novembro 2006

"No importa"


No importa si fracaso en mi tarea,
al fin y al cabo lo inmutable siempre
seguirá siendo lo inmutable, y nada
sumo o resto. La luna estará quieta
desvelándome siempre. Las orillas
seguirán desgarradas por el mar.
El sol seguirá siendo el implacable
deslumbramiento. Siempre habrá una araña
que vomite cristal y seda juntos.
Siempre habrá niebla. Y seguirá existiendo
la violenta ternura de tus manos.


(poema de Amalia Bautista; pintura de Bill Gingles: all the angels come)

"Flexi-sugurança"

Quando ouvi, na TSF, a grande notícia do dia, sobre a “flexi-segurança” que o nosso governo quer importar da Dinamarca, aquele maravilhoso sistema que, segundo a mesma TSF, aumenta a flexibilidade nos despedimentos, mas aumenta a formação e os subsídios de desemprego, fiquei muito apreensiva.

Então não estamos a fazer tudo para reduzir as despesas do estado? Parece-me que, entre nós, haveria um desequilíbrio a favor do flexi… Pelos vistos, há quem pense exactamente o mesmo, e com motivos bem mais fundamentados!

Há dias...


Há dias em que é difícil olhar para nós, portugueses, e para o nosso país, Portugal, sem sentir um nó de tristeza, de cansaço e de revolta, depois da esperança que tentamos renovar diariamente, depois da mudança ensaiada em 25 de Abril, tantas vezes adiada por aqueles que prometem ciclicamente cumpri-la.

Quase no aniversário do 25 de Novembro, militares na rua, a “manifestarem-se”, polícias a darem “conferências de imprensa” mascarados de terroristas, inaceitável numa sociedade que se diz democrática; políticos e bons pensadores, bons condutores de pensamentos da alma lusa, a discorrerem sobre a falta de necessidade de financiamento das Forças Armadas, sobre a inutilidade da tropa em tempo de democracia. Democracia essa que, não se cansam de nos lembrar, não é devida aos militares, porque a tão interessante e corajosa sociedade civil esteve amordaçada e trancada durante os longos 40 anos do fascismo.

Hoje ouço na TSF que um dos presumíveis autores do alegado crime de Camarate confessou, numa entrevista que sairá amanhã, na Focus, ter de facto feito deflagrar uma bomba a bordo do avião onde seguiam, entre outros, Sá Carneiro e Amaro da Costa, à data primeiro-ministro e ministro da defesa de Portugal, respectivamente. Vinte e seis anos, milhares de páginas, declarações, opiniões, comissões parlamentares e de peritos, após ter sido confirmada em Maio deste ano, pelo Supremo Tribunal de Justiça, a prescrição do “caso Camarate”, alguém tem a audácia de proclamar ter cometido um crime.

Seja verdade ou mentira o que mais dói é o facto de ninguém acreditar em tudo o que entretanto foi feito para “apurar” a verdade, ou mesmo no dito José Esteves. Ou, o que é mais grave, cada um acredita no que quer porque não há forma de saber o que, de facto, aconteceu. Qual é a garantia, enquanto cidadãos, de sermos protegidos pelo sistema judicial? Qual é a garantia de separação entre o poder político e o poder judicial?

Não sei como se sentem os deputados, nacionais e regionais, que se insultam mutuamente nas discussões parlamentares, que representam esta tragicomédia de apoio e de oposição ao governo, que nomeiam e desnomeiam comissões de inquérito e comissões científicas, gastando o dinheiro dos contribuintes em relatórios, para se queixarem mais tarde do dinheiro que gastaram, e para novamente pedirem estudos, como o que se está a pedir agora, mais um estudo de impacto ambiental, para arrancar com a coincineração em Souselas.

Que fizemos nós, em 30 anos de democracia?

26 novembro 2006

Sopro

Um dia já não estarei
neste corpo enxovalhado,
capa seca e estaladiça
desta alma quebradiça.

Nesse dia guardarei
cada nervo desmaiado,
nesta caixa esvaziada
pela morte desabitada.

Um dia já não serei.
O molde em massa desfeito
num pó fino e rarefeito,
acaso no espaço soprado.

(desenho de Mário Cesariny: a primeira lição)

25 novembro 2006

Época Natalícia


Este ano parece difícil adquirir o espírito natalício. O país anda pouco festivo, mais cinzento e húmido que verde e vermelho, mais prata baça que dourados flamejantes.

Não se vêem turbas multas nas lojas, acotovelamentos, pais natais, renas e neve a fingir. Vêem-se caras coladas às montras, olhares vagarosos pelas portas abertas, espreitando a sedução das cores.

Quando os miúdos da família e dos amigos eram pequenos, eu tinha verdadeiros ataques de pânico na altura das prendas, quando comprava e quando recebia. Por muito que alertasse para a enorme quantidade de bugigangas que enchiam os quartos, a que eles não ligavam nenhuma, a não ser os escassos segundos que demoravam a rasgar os papéis de fantasia, as pilhas de coisas inúteis que atravancavam a casa e a minha alma, a noção de desperdício, da imoralidade da abundância, não era possível travar a avalanche presenteadora.

De há uns anos para cá resolvi que nunca mais gastaria dinheiro, tempo e imaginação a correr de loja em loja. Resolvi que, com a mesma imaginação e o mesmo tempo, era capaz de idealizar ofertas manufacturadas para os meus amigos e familiares. É surpreendente o que podemos criar com as mãos, boa vontade e muita paciência.

Hoje inaugurei a minha própria época de Natal, ligeiramente atrasada, com uma sessão compoteira. Para quem quiser experimentar, aqui fica a receita:



 



Compota de marmelos com laranja:




  • Descascam-se os marmelos e tiram-se as sementes e o núcleo (se se quiserem aproveitar as cascas e as sementes para fazer geleia, convém lavar os marmelos muitíssimo bem!);



  • Cortam-se os marmelos em pedaços pequenos (mais ou menos cubos com 1,5 cm de lado);



  • Pesam-se os pedaços de marmelo e colocam-se numa panela / tacho bem grande;



  • Espremem-se várias laranjas até perfazer o mesmo peso (1 l de sumo e polpa de laranja / 1 Kg de marmelo);



  • Cozem-se os marmelos no sumo e polpa de laranja durante cerca de 15 minutos, com paus de canela (1 por cada quilo);



  • Quando os marmelos estiverem cozidos (espeta-se um garfo para ver se estão macios) junta-se 650 g de açúcar por cada quilo de fruta (marmelos e laranja, ou seja, 1 Kg de marmelos com 1 l de sumo de laranja correspondem a 2 quilos de fruta);



  • Deixa-se ferver até adquirir o ponto certo, que é o ponto de estrada (deita-se um pouco de doce para um prato frio e passa-se uma colher por ele. Se ficar um espaço sem doce, sem que este se precipite liquidamente para o espaço, está feito);



  • Deita-se em frascos de boca larga e fecha-se bem.




Truque: como já tive que desenfrascar o doce outra vez para ganhar mais ponto, se tinha pouco, ou diluí-lo com água, se estava com ponto a mais, agora deixo-o na panela até arrefecer. Se estiver bem, enfrasco, se não, vai outra vez ao lume.

24 novembro 2006

Dez réis de esperança

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, não bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.


(poema de António Gedeão; pintura de Ismael Cuevas Jordán: esperança)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...