21 novembro 2006

A forma e o conteúdo (2)

A propósito deste “post”, recebi um comentário do Luís Naves que transcrevo na totalidade, para se tornar mais fácil entender o meu comentário ao comentário dele.

Sofia, se isto fosse assim, aplicava-se a todos os países do mundo. a Espanha, em 1928, era um país com 80% de camponeses, mas esta discussão seria ali impossível, pois ninguém se lembraria de caracterizar o povo espanhol como tacanho, miserável, etc. Salazar é fruto do seu tempo e não especificamente da sociedade portuguesa da época. Tem de comparar com Mussollini, Hitler, Horthy ou Franco, ditadores bem mais sanguinários e que admiravam (sem excepção) Salazar. Ninguém se lembraria de dizer que Hitler é igual ao povo alemão de 1933, mas a ligação entre povo português-Salazar ocorre a MFM. Claro que Salazar era tacanho, avesso ao risco, mas o povo português da época não era: emigrou em massa, portanto, tinha coragem; era conservador e católico, mas isso não é sinónimo de tacanho; os camponeses eram quase todos analfabetos, mas não incultos.

É verdade que este raciocínio se pode aplicar a todos os povos do mundo, e a todos os seus governantes, figuras “ilustres” em todas as áreas, da política, da literatura, das ciências exactas, das ciências militares, etc. Sei muito pouco de sociologia, mas parece-me um excelente tema de estudo as relações entre as tais figuras “ilustres” (sejam elas quem forem) e o povo que lhes deu origem.

No seu artigo de opinião, MFM não afirmou que o povo português, de 1928 ou de qualquer outra época, só poderia ter originado um ditador como Salazar. MFM não afirmou que o mesmo povo nunca poderia dar origem a outro tipo de governante, em que outros defeitos ou qualidades desse mesmo povo estivessem representadas, ou que fosse mesmo o contrário das características dele. Aquilo que ela disse, e eu concordo, é que Salazar era o espelho do povo em que nasceu e foi criado.

Concordo com o Luís quando diz que estas análises devem ter em conta as circunstâncias e a época. Já não sei se concordo que a emigração em massa é uma prova de espírito aventureiro, embora exija imensa coragem. Parece-me que a emigração, naquela época, resultou da penúria e miséria em que se vivia, ou seja, terá sido mesmo uma questão de sobrevivência.

O analfabetismo e a ignorância, extremamente fomentados e usados pela Igreja Católica, foram factores muitíssimo importantes para o tipo de vida e condições em que se aceitava viver, em que se achava normal viver. A subserviência aos poderosos, comandantes do espírito e da carne, o relacionamento pouco saudável com as hierarquias, não as enfrentando abertamente mas fazendo-o pela calada, boicotando passivamente o poder, sempre foram características nossas.

É difícil olharmos para nós próprios e reconhecermo-nos em traços de que não gostamos. Conhecer os nossos defeitos colectivos pode ser a chave para nos orgulharmos das nossas qualidades colectivas.

20 novembro 2006

A forma e o conteúdo


A propósito da última crónica de Maria Filomena Mónica (MFM) no Público de ontem, já li vários comentários.

As elites não gostam do povo que dirigem. Concordo. Também penso que MFM não gosta do povo, de 1928 ou de agora. Mas isso não impede que tenha razão.

Quase todos nós, que vivemos na grande cidade, somos descendentes dos camponeses que, em 1928, compunham a maior parte da população analfabeta, ignorante, católica, temerosa, pouco dada a aventuras e riscos, invejosa e medrosa. Por muito que gostasse do meu avô, que para mim era das melhores pessoas do mundo, não posso deixar de lhe reconhecer muitos destes defeitos.

É claro que havia excepções, sobretudo algumas mulheres que, apesar da tacanhez e limitação de objectivos dos seus maridos e senhores, lutaram pela calada, trabalhando como escravas, dia e noite, para que os seus filhos pudessem estudar, desenvolver ambições e melhorar a vida.

É claro que existiram homens empreendedores, generosos, voluntariosos, mas eram (e são) uma escassa minoria. E também concordo com MFM no retrato que traça de Salazar, tão tacanho como todos os seus súbditos, exercendo a sua tacanhez e a sua pobreza de espírito durante tantos anos, pobre e honrado, sem sair da sua toca, sem olhar em redor, sem ter curiosidade de alargar os seus horizontes.

Também podemos falar das elites, de que MFM não falou nesta crónica, mas às quais já se referiu em vários outros textos, entrevistas, livros, da mesma forma ríspida e pouco abonatória, que transformou na sua marca registada.

O estilo pode ser pouco simpático, a forma pedante, mas o conteúdo é realista.

Ramalho Eanes

Provavelmente é assim que nascem os heróis. Sem eles quererem, pelas circunstâncias, pelos acasos, pelas forças avassaladoras que se movem em turbilhão, que os heróis são sempre o fruto de um qualquer tipo de revolução.

Ramalho Eanes é um herói. Não porque ele o queira, ou porque para isso tenha trabalhado, mas foi ele que, fruto das circunstâncias de um ano louco de anarquia e de revolução perpétua, emergiu como o chefe dos que conseguiram segurar o país, dando-lhe aquilo que lhe tinham prometido a 25 de Abril de 1974.

Apanhado pelas rodas dentadas da História, nesses anos absolutamente cruciais para a consolidação da democracia, Ramalho Eanes foi presidente, por duas vezes. Sempre no seu estilo seco, inseguro, simples, austero, honesto e humilde, cumpriu com maior ou menor brio a missão que lhe foi confiada, para a qual nunca tinha treinado, nem nos campos de guerra nem nos campos de paz.

Após o fim das suas duas comissões no Palácio de Belém, Ramalho Eanes recolheu-se à sua vida, tão seco, inseguro, simples, austero, honesto e humilde com sempre, largando as luzes da ribalta que nunca lhe agradaram, mas sempre mostrando a sua figura, a sua voz, a sua companhia, pelas causas que considerava importantes.

Ramalho Eanes defendeu a sua tese, perante um júri ibérico (Sociedade civil e poder político em Portugal), que tinha preparado durante 10 anos, para a obtenção do grau de Doutor de Filosofia e Letras da Universidade de Navarra. Como diz José Medeiros Ferreira ele não precisava de o fazer. Aí está a diferença entre Ramalho Eanes e os outros. Não precisava, mas fê-lo.

É desta têmpera, este herói, acidental nas circunstâncias, mas não na dignidade ou na honra.

"Half the perfect world"


Madeleine Peyroux é muito melhor ao vivo que no cd. De uma simplicidade assombrosa, ela canta como se estivesse a conversar, a sussurrar, a rir, mas discretamente. Com uma variação de tons invejável, atira a voz, quase negligente, em notas arrastadas, ao jeito de Billie Holiday, menos sofrida. Do folk, aos blues, ao soft jazz, interpretações de canções eternas, com cheiro a tabaco e pó de estrada, com sabor a bebidas fortes de fim de noite.

Os músicos que a acompanham, cúmplices e solidários, mas relevantes só por si, formam um ambiente quase mágico, ajudado pelas luzes envolventes.

Grande espectáculo.

18 novembro 2006

Ciência pós prandial

A oradora debitava moléculas, factores de transcrição, agentes desmetiladores, genes supressores e fenómenos epigenéticos, numa sala penumbrenta, em que se ouvia a chuva persistente e miúda, acinzentando o céu e enublando o dia.

Mesmo em frente da esforçada cientista, numa fila de cadeiras vazias, um professor já entradote, rubicundo e ofegante, adormecia compulsivamente a cada resultado cruzado e medido, a cada estudo randomizado.

O interesse daquela comunicação transformou-se rapidamente num estudo observacional do grau de equilíbrio do dito professor, do momento em que ele iniciaria o ressonar ou, em alternativa, do momento em que a inclinação semelhante à da torre de Piza se transformaria em queda aparatosa e embaraçante.

Após vários estremeções e recaídas na mesma atitude acabou, para bem da oradora, do professor e da restante audiência, a sábia oração de sapiência.

Algo de novo na frente sindical

De vez em quando uma boa notícia, para variar. Esperemos que continue a imperar o bom senso!

Arredondar

Vi um pouco do "Expresso da Meia Noite", na SIC.

O vice-presidente do "Millenium BCP" quer convencer quem, de que os clientes sequer sabiam da existência de arredondamentos, quanto mais de arredondamentos do tipo que todos os bancos praticam??

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...